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17/12/2012 | 06:48

Camila Pessoa, jornalista e produtora cultural: "'A web é o principal instrumento para divulgar questões sociais e ambientais'

Por Christina Lima, Editora do Nós da Comunicação

A jornalista e produtora cultural Camila Pessoa, de 26 anos, integra o grupo brasileiro de voluntários da ONU vencedor do Online Volunteer Award 2012, na categoria Voto Popular. Eles se destacaram por promover debates na plataforma Rio Dialogues - ou Diálogos Rio+20 - durante a Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.

Essa plataforma digital, uma iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), foi criada para que o cidadão comum, de qualquer parte do mundo, pudesse participar das discussões e dar sugestões sobre os temas mais relevantes durante o encontro no Rio, como Agricultura Sustentável, Água, Florestas e Cidades Sustentáveis.

"Era papel dos voluntários divulgar e fomentar as discussões na web, trazendo para os Diálogos grupos de estudos sobre os temas, universitários, professores e pesquisadores, comunicadores, grupos e ativistas sociais, blogueiros, ongs e representantes da sociedade civil", explica Camila. "A intenção era que esses grupos tivessem voz e pudessem manifestar de maneira concreta suas demandas para que fossem discutidas e ouvidas pelos governantes reunidos na Cúpula."

Ao final, as sugestões dadas pelos usuários foram levadas a voto popular via internet e as mais votadas de cada categoria entregues oficialmente aos Chefes de Estado como sendo as demandas da sociedade civil global. "Pela primeira vez, os cidadãos comuns puderam participar e opinar diretamente, buscando influenciar as decisões políticas dos governantes mundiais, no que diz respeito à crise ambiental que vivemos", diz Camila.

Nós da Comunicação - Qual a importância desse reconhecimento?
Camila Pessoa - Esse foi um marco político e social e para nós foi muito importante, por ter sido feito de forma inovadora, utilizando da internet e de uma plataforma moderníssima, podendo agregar pessoas do mundo todo por um mesmo objetivo e, principalmente, por ter sido uma ação realizada e encabeçada pelo Brasil. Nesse sentido, a ação dos voluntários brasileiros foi fundamental.

Talvez por isso, o time brasileiro foi um dos dez indicados no mundo para o prêmio da ONU de voluntariado online 2012 - Online Volunteer Award 2012, e o vencedor por voto popular. Não que as outras ações, dos grupos de outros países tenham sido menos importantes e significativas, mas o que os voluntários brasileiros fizeram suportou uma ação inovadora e marcante, daí a importância desse reconhecimento. Por sermos ativistas on-line, não conheço pessoalmente os outros voluntários, mas sei que posso falar em nome de todos nós, que estamos muito felizes e lisonjeados.

Nós da Comunicação - Qual o principal legado deixado pela Rio+20 e pela Rio+20 Dialogues?
Camila Pessoa - Em termos políticos se sabe que era esperado mais da Rio+20. As amarras e disputas políticas e a cautela, a falta de acordos vinculantes e de ações imediatas e concretas por parte dos Chefes de Estado têm frustrado muito quem acredita em mudanças e sabe das reais necessidades delas. Mas, de uma forma ou de outra, acho que o maior legado deixado pela Rio+20 e pela Rio Dialogues foi a participação popular nesse processo.

A Cúpula dos Povos, tomada por gente de todos os lugares do mundo, discutindo diariamente política e meio ambiente, sustentabilidade, sociedade, trocando experiências, protestando, conversando. Foi uma coisa belíssima, que culminou na, mais bela ainda, Carta da Cúpula dos Povos. E a Rio Dialogues mostrou ser possível a sociedade fazer parte desse processo de forma séria e efetiva, trazendo ideias, exemplos, sugestões, baseadas na experiência e vivência de populações inteiras, mostrando quais os pontos mais críticos e onde é preciso agir primeiro. Foi um processo verdadeiramente democrático, pois permitiu ao povo levar sua opinião para dentro das salas de reunião dos Chefes de Estado, e não ficar somente do lado de fora, sendo muitas vezes representados apenas pelos protestos (radicais) dos ativistas de organizações mundiais.

Nós da Comunicação - O 'ativismo de sofá' é um termo muitas vezes usados pejorativamente. Como você vê o 'Slacktivism' e seu poder de ajudar a mudar algo assinando uma petição online ou inundando o twitter com uma hashtag de ordem?
Camila Pessoa - Muita gente pode ver esse tipo de ação como preguiçosa. Mas é preciso pensar no contexto em que estamos inseridos hoje. Vivemos em uma sociedade 2.0, onde a comunicação se baseia na internet e no imediatismo, na nuvem, no maior número de pessoas/seguidores possível a ser atingido com uma simples e criativa ação, na mídia espontânea gerada por compartilhamentos, retweets e 'curtidas'. E não só a comunicação de hoje está baseada na internet, como as formas de trabalho, de ganhar dinheiro, de se fazer política (vide a primeira eleição de Barack Obama e, mais recentemente, o Papa com perfil no Twitter), e inclusive de protestar e lutar por causas, sejam elas quais forem. Como jornalista e comunicadora social, posso dizer que as redes sociais e as plataformas on-line hoje são o principal instrumento que temos para divulgar e tornar públicas importantes questões sociais, humanas e ambientais, reunir pessoas e ideias, angariar ativistas e apoiadores, e organizar ações cujos efeitos e resultados extrapolam o meio virtual.

É claro que então parte-se para o segundo ato: sair do computador e ir para a ação concreta. Todo voluntário que eu conheço nunca fica preso somente ao ato de assinar petições, usar hashtags de ordem e panfletar no Facebook. Todos nós também temos o nosso momento de arregaçar de mangas. Mas é hipocrisia negar que tudo começa na internet. Como mais seria possível reunir até 400 mil pessoas de vários países do mundo, de vários idiomas, discutindo sobre as mesmas urgências ambientais? E isso culminou numa ação além-internet: em um documento oficial entregue nas mãos dos Chefes de Estado na Rio+20.

E como esse, temos tantos outros exemplos de ativismos on-line que extrapolam as fronteiras dos computadores e tomam as ruas e as casas e as vidas das pessoas. Como, por exemplo, a Hora do Planeta, organizada anualmente pela WWF, que é mobilizada em sua maior parte pela internet, e termina na internet com a divulgação dos resultados nas redes sociais e no site, mas que consegue apagar as luzes do Cristo Redentor e da Torre Eiffel (e de tantos outros símbolos e casas) ao mesmo tempo, em sinal de protesto. Ou como as ações globais contra os combustíveis fósseis da 350.org, que faz com que milhões de pessoas ao redor do mundo, em um mesmo dia, em um mesmo momento, saiam às ruas de bicicleta, patins, a pé, pranchas de surfe a tiracolo, carrinhos de rolimã e tudo mais de criativo que se possa pensar, com as caras pintadas, interditando vias, gritando e cantando pela mesma causa. E a lei da Ficha Limpa? Começou na internet, encabeçada pela Avaaz Brasil, organização da qual também já fui voluntária e que consegue coisas inimagináveis ao redor do mundo, baseando-se em petições online. Vê? O ativismo on-line é apenas mais uma forma de atingir mais gente em menos tempo. É usar o poder da internet ao nosso favor. Mas quem é voluntário tem isso no sangue e nunca fica só no sofá!

Nós da Comunicação - Dizem que o brasileiro é solidário - em momentos críticos está sempre disposto a ajudar - mas não é voluntário. Você concorda com essa afirmação. Por quê?
Camila Pessoa - Para ser sincera, não sei muito dos números do voluntariado no Brasil. Mas não é isso que sinto quando olho ao meu redor. Pelo menos no meu convívio social conheço e sei de muitas pessoas que se dedicam a trabalhos voluntários. Mas acho que isso é uma tendência das novas gerações, a juventude de hoje está mais solidária. Aqui em Goiânia, onde vivo, tenho muitos amigos que são 'Doutores da Alegria' e vão uma vez por mês a hospitais vestidos de palhaço para alegrar as crianças; tem muita gente que se dedica à causa dos animais, contra a violência, o abandono, a matança; muitos profissionais de diversas áreas - médicos, dentistas, psicólogos, terapeutas holísticos - que atendem gratuitamente à população carente em seus consultórios ou em clínicas sociais periodicamente; pessoas que dedicam seu tempo livre a comunidades religiosas e casas de recuperação de dependentes químicos; disseminadores da Cultura de Paz, e muitos outros ativistas on-line, enfim, a lista não acaba.

Eu, por exemplo, estou sempre que possível transitando e me envolvendo em todas essas diferentes atividades, justamente por sempre conhecer alguém que precisa de uma mão a mais. Já me enfiei em cada ação, que chega a ser engraçado. Meu gosto pelo trabalho voluntário começou dentro de casa. Lembro que quando eu era criança a minha mãe era voluntária no Cada - Casa de Apoio e Desenvolvimento ao Doente de Aids. Naquela época, Aids era um tabu e cercada de preconceito, muito mais do que é hoje. E os doentes muitas vezes eram pessoas completamente solitárias, abandonadas pelas famílias, que não tinham a quem recorrer. E minha mãe ia lá sempre, almoçar com eles, conversar, fazer festa, ver filme, fazer companhia, escutar o que eles tinham a dizer... e ela sempre me levava. Eu acho que eu era a única criança que convivia com eles, e isso os emocionava muito, porque as pessoas nunca deixavam uma criança perto de um aidético. Mas a minha mãe me ensinava que não havia risco nenhum em estar perto deles e que a nossa companhia fazia bem. Nunca me esqueci disso.

Nós da Comunicação - Quais dicas você daria para desenvolver o senso de voluntariado em casa, nas escolas, universidades e no empresariado?
Camila Pessoa - Acho que não tem muito segredo. Como eu disse antes, voluntariado é uma coisa que está no sangue, é um desejo intrínseco de cada pessoa de querer ajudar, fazer alguma coisa boa para o próximo, para sua comunidade, para o mundo em que vive. Tempo livre a gente sempre tem, vida corrida é a de todo mundo e basta saber organizar e se programar.
Se você passa horas por dia conectado, trabalhando no computador, ou mesmo à toa na internet, no Facebook, Twitter etc. por que não ser um ativista on-line e otimizar o tempo que você passa conectado? A própria ONU tem um site só para cadastro de voluntários com demandas constantes de ações para todos os países e regiões do mundo.
Se você quer fazer parte desses movimentos globais ambientalistas, de ações pontuais como a Hora do Planeta e a 350.org e a Avaaz, que eu citei, basta seguir na internet as organizações, acompanhar as datas dos eventos, e organizar algo interessante no seu bairro, na sua escola, empresa ou comunidade, no dia combinado.
Mas se você gosta mesmo é de arregaçar as mangas e sair da sua casa uma vez por semana para fazer algo que considera importante, é só procurar na sua cidade, no seu bairro. Sempre terá um grupo, uma escola, uma comunidade religiosa, uma ONG, alguém precisando de você. Basta escolher a sua causa e, mais uma vez, utilizar-se da internet como meio de busca para localizar o que tem sido feito perto de você. Escolha uma causa em que você acredite, ou um lugar que você acha que precisa muito. Tem muita gente que pensa: 'Ah, mas eu não sei fazer nada!' Sabe sim! Tem lugar que precisa de cozinheiro, palhaço, contador de história, acompanhante, professor, tradutor, organizador de evento, faxineiro, motorista, sorriso, abraço... Às vezes a sua simples presença e companhia, ou a sua assinatura numa petição já fazem toda a diferença.

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