14/07/2009
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O futuro do livro
14/07/09
Ana Cláudia Ribeiro
Li, há um ano, um artigo do economista Paul Krugman[1], que comparava o livro eletrônico ao Brasil. Dizia, em tom jocoso, que a nossa máxima “O Brasil é o país do futuro –- e sempre será” se aplicava bem aos e-books. Notícias sobre o assunto pipocavam aqui e acolá, esporadicamente, mas nada que realmente fosse capaz de sacudir o mundo editorial. Motivos para essa falta de interesse não faltavam. A leitura de textos longos na tela do computador é desconfortável e cansativa, e em geral a impressão em papel feita em casa torna o livro mais caro que sua bem-acabada versão industrial. Os “readers” (aparelhos para leitura do livro eletrônico) eram pequenos, com pouca qualidade de imagem e softwares que exigiam a reformatação do texto original para leitura, desfigurando gráficos e tabelas.
Finalmente, parece que o “futuro” chegou. Novidades sobre e-books e versões eletrônicas, agora, aparecem diariamente nos veículos de comunicação. Os novos aparelhos têm telas maiores, com uma tecnologia (e-ink) que não emitem luz, possibilitando uma leitura mais agradável. Eles já suportam o formato PDF nativo, o que elimina as reconstruções do texto. E grandes empresas já estão interessadas nesse nicho. A Sony está lançando uma nova geração do seu leitor de livros eletrônicos, com visor touch screen e luz embutida. O Google, com seu programa de digitalização de livros, fechou recentemente acordo milionário com editoras e autores americanos. A Amazon investe em seu e-book reader Kindle, uma proposta que conjuga o aparelho com uma plataforma de venda de livros conectada via internet.
A indústria editorial tradicional, em especial a brasileira, dá fracos sinais de envolvimento nessa nova onda, talvez por achar que isso ainda não lhe diz respeito, ou por temer a pirataria cibernética. Dos três grandes players citados acima, nenhum é editora. A que mais se aproxima do setor editorial é a Amazon, que nasceu como livraria e se transformou numa enorme varejista de internet.
Clayton Christensen, pesquisador da Harvard Business School, usa o termo “tecnologia disruptiva”[2] para tratar de uma nova tecnologia, em geral mais simples e barata, que muda o paradigma de concorrência e acaba dominando o mercado. Essa mudança, que vem de baixo, acaba fazendo com que grandes empresas, que oferecem produtos mais caros e sofisticados, entrem em colapso, pois não conseguem adaptar seus modelos de negócios às novas regras. O exemplo da indústria fonográfica é emblemático: grandes gravadoras, que antes concentravam todos os lançamentos de novos grupos musicais, foram suplantadas pelo MP3 player e pela internet. O arrebatador Ipod foi lançado não por uma gravadora, mas pela Apple, uma empresa de informática. Artistas famosos como Madonna, hoje, já assinam contratos diretamente com empresas produtoras de eventos.
Segundo o Citigroup, “o Kindle, da Amazon, é o Ipod dos livros”[3]. É bastante provável que os e-books sejam essa tecnologia disruptiva para a indústria editorial. Seus impactos serão sentidos em toda a cadeia produtiva: fabricantes de papel, gráficas, editoras, distribuidores, livreiros, autores. A discussão do copyright sairá dos domínios do livro universitário e será colocada em evidência, já que as versões eletrônicas têm um apelo forte à cópia ilegal. Se cópias não autorizadas invadirem o mercado todos perdem, inclusive os autores, que, diferentemente dos músicos, não são dados a espetáculos...
Toda grande mudança demanda adaptações, e essas adaptações não são nada fáceis. Uma grande editora, por exemplo, tem laços de confiança com livrarias que poderão ser quebrados caso resolva investir no digital. Para estar preparado para a mudança, é preciso conhecer os fatos e planejar estratégias. Aqueles que investirem e acompanharem as inovações tecnológicas, sem perder de vista o mercado, certamente terão chances muito maiores de êxito nessa ruptura. Vamos ler e aguardar.
Ana Claudia Ribeiro é designer,
mestre em Engenharia de Produção na Coppe/UFRJ
e sócia-fundadora da Editora E-papers.
[1] KRUGMAN, Paul. Bits, Bands and Book. The New York Times, June 6, 2008. Disponível em <http://www.nytimes.com/2008/06/06/opinion/06krugman.html>