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17/07/2009 | 00:00

Desenvolvimento, Responsabilidade e Justiça

17/07/09

Alba Regina Neves é Colunista de Plurale (*)
Foto da Amazônia

A Revista Plurale  publicada em abril/maio de 2009,  “Amazônia. O valor de manter a floresta em pé”, mostra  a imagem de uma Região que deixa em estupor a maioria das pessoas que a visitam. A beleza da mata e de toda a riqueza que ali está  não pode deixar indiferentes  aqueles que vislumbram um país mais justo para todos. A maior floresta tropical, reduto de 20% de toda a água doce do planeta, como lembra Sônia Araripe em sua matéria sobre o tema,  é de uma beleza singular. 

“Do alto, avista-se um tapete natural verde, formado pelas copas das  árvores mais altas, interrompido apenas pelo desenho irregular e belo dos rios em tons de marrom entrecortando a paisagem”. A viagem estava apenas começando. Na  comunidade de São Francisco do Caribi , Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã,  os visitantes foram recebidos pelos moradores com cantos, rezas e emoção. Uma imagem de uma comunidade que se assemelha a tantas outras pelo Brasil afora. 

A fartura que existia em Caribi   “os peixes como o tucunaré, peixe-boi e até tartaruga”,  antes da construção da hidrelétrica de Balbina, em 1988, como coloca  um dos primeiros moradores, mostra um tempo que parece não voltar mais. As  lembranças que os ribeirinhos da Amazônia guardam nas suas memórias e revelam, com uma certa nostalgia,  aos seus visitantes  fazem parte da  história de um país rico que teve o  desenvolvimento regional pautado no modelo centro-periferia,  de acordo com o modelo dominante. 

As pessoas que vivem distante da capital- 360 quilômetros, 16 horas de barco-,  conhecem bem as mudanças que afetaram as suas vidas e o significado dessa  busca desenfreada pelo que se chamou de desenvolvimento. São pessoas com outros valores e formas de agir sem a cegueira do individualismo. É numa outra direção que caminham. E com outro olhar. Para aqueles que já que tiraram a venda dos olhos,  a população ribeirinha de Caribi  coloca no cenário nacional  e internacional uma questão que sempre acompanha, ou deve acompanhar, o debate e as ações para a preservação da floresta. 

Como vivem as pessoas que  cuidam da floresta?  O cenário do mundo globalizado é bem diferente e o jogo internacional de poder é bem mais complexo. Mas a vida cotidiana de alguns desses moradores  parece ser aquela que  no final do anos 70, ou  um pouco mais, distinguiam as pequenas e agradáveis cidades do interior das cidades de porte médio e dos grandes centros urbanos. 

É talvez por aí que o debate sobre  sustentabilidade deva caminhar, tendo em vista a complexidade de um mundo que se transforma e que traz nesse jogo de poder uma dimensão utilitarista da justiça e uma despolitização da questão social.  Mas que mostra também  nos  gestos, hábitos costumes, valores, modos e estilos de vida de indivíduos e grupos   novas formas de solidariedade que podem reverter os traços de  um País distorcido
[1]

Para alguns um olhar distante do mundo real. Para outros, estratégias de grupos de poder que se colocam hoje em defesa de idéias que antes eram  rotuladas de esquerda.  Mas atentos às diferenças e  à complexidade das relações de poder local/global, grupos se formam e caminham em prol desse novo amanhecer,  sempre com uma atenção especial para questões como  desenvolvimento, sustentabilidade e justiça.  Como mostra Agnes Heller em um dos seus argumentos que sustentam a questão da justiça, tema central do seu livro:
[2] “enquanto justiça pode ser uma precondição de vida legal e normal, a vida constitui algo além da Justiça”.  Atender aos apelos dos ribeirinhos de Caribi  pode ter  um significado que vai além da visão utilitarista de justiça.                                   


[1] Título do livro de Milton Santos publicado em 2002. “ O País distorcido. O Brasil, a globalização e a cidadania”. Organização, apresentação e notas   de Wagner Costa Ribeiro; ensaio de Carlos Walter Porto Gonçalves.- São Paulo: PUBLIFOLHA, 2002
 
[2] Heller, Agnes. Além da justiça  . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1998.


(*) Alba Regina Neves Ramos é Colunista de Plurale, colaborando com um artigo por mês. Professora titular da Universidade Salvador- UNIFACS e integrante do novo time de colunistas fixos de Plurale. Doutora em Sociologia pela Universidade Université de Paris-III Sorbonne Nouvelle. Foi Diretora do Centro de Pesquisas- CRH-UFBA. Coordenou a Pesquisa sobre o Trabalho Infantil na Bahia.Coordenou a Câmara de Ciências Humanas da FAPESB.

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