
Fotos de Luciana Tancredo/ Plurale em site
Da esquerda para a direita: Carlos Franco (Plurale); Saturnino Braga (escritor e ex-senador); Ana Beatriz Patrício (Fundação Itaú Social); Sônia Araripe (Plurale), Rodrigo Baggio (CDI) e Claudia Jeunon (Sistema Firjan)
Da Equipe Plurale
Fácil de começar, dificílima de concluir. Os mineiros é que costumam dizer que boa prosa é assim. Foi neste clima, de boa prosa, que aconteceu hoje, pela manhã, o primeiro de uma série de eventos programados por Plurale em revista e Plurale em site. "Brasil em transformação Como é possível mudar realidades através de programas socioambentais, trabalhando em rede" foi o tema do debate de estreia.
Em comemoração aos dois anos de Plurale, a edição número 14, recém-lançada, tem o mesmo tema. E para debater o que já está sendo feito e o que ainda falta para esta rede finalmente ter todos os pontos dados é que estiveram reunidos especialistas em Sustentabilidade, na ESPM-Rio. Roberto Saturnino Braga, escritor e ex-senador, engajado em movimentos sociais através do Instituto Brasileiro; Ana Beatriz Patrício, diretora da Fundação Itaú Social; Claudia Jeunon, chefe da Assessoria de Responsabilidade Social do Sistema Firjan e Rodrigo Baggio, fundador do CDI (Comitê de Democratização da Informática).
Na plateia, comunicadores, especialista em Meio Ambiente e ONGs, estudantes e quem gosta do tema Sustentabiliade. Plateia atenta e participante. Otimista incorrigível quando o assunto é Brasil, Roberto Saturnino Braga, justifica sua posição citando uma série de testemunhos políticos acumulados ao longo dos seus 78 anos de vida.
“Passei a vivenciar a política brasileira a partir da redemocratização da Constituição de 1946. Cheguei a presenciar currais eleitorais como numa fazenda em Mangaratiba, em que os peões depois de comer um farto churrasco que lhes foi oferecido, saiam todos com pequenos envelopes que continham votos já preenchidos e prontos para serem colocados na urna. Vi o confronto de 64 e o período deprimente que se seguiu. Depois veio a abertura e o desencanto da política neoliberal que priorizava o indivíduo, desprezando o coletivo. Agora estou assistindo a esse renascimento com uma nova dimensão democrática ocorrida com a eleição do Lula. Esse homem, que veio do agreste e foi operário da indústria automobilística, sindicalista e se elegeu Presidente, tem uma enorme capacidade de negociação. O Brasil não era um país sério e passou a ser considerado. É algo novo mundialmente. Por isso tudo joguei o pessimismo na lixeira”.
Saturnino destacou a relevância da Educação - e especificamente do professor- como o caminho certo para se avançar na inclusão e na democratização do conhecimento. O público quis saber se diante de políticos corruptos não fica difícil acreditar em participação mais ativa da sociedade civil na construção em redes, uma vez que quem deveria zelar pelo bem público está mais preocupado com os interesses privados e, muitas vezes, escusos. O ex-senador lembrou que foi relator do processo há alguns anos quando o então também senador José Arruda, hoje governador do Distrito Federal, envolvido em denúncias recentes de suborno e caixa 2 na campanha, burlou o painel de votação. "Este senhor tem histórico de caráter duvidoso." E defendeu a participação ativa de jovens hoje, ativistas de movimentos socioambientais, como os militantes de sua geração. "Eles fazem e farão diferença."
Na seguida, foi a vez de Ana Beatriz Patrício, mais conhecida como Bia, diretora da Fundação Itaú Social, contar como tem funcionado na prática programas de apoio à Educação. Este tem sido o foco principais da Fundação, desde 2000 quando foi constituída, por ser o Brasil ainda um país em desenvolvimento, com tantos jovens protagonistas do presente e do futuro. Apresentou o case das Olimpíada do Conhecimento, que, em parcerias com setor público e ONGs, procura incentivar professores e jovens e lidarem cada vez mais com a escrita e a leitura. O projeto acaba de ganhar um prêmio internacional.
"E como é fazer este processo em uma geração que parece já nascer com chip implantado?", quis saber Sônia Araripe, diretora de Plurale e moderadora do debate. Bia explicou que computadores podem e devem ser usados, é claro e ajudam muito no processo, mas nada que substitua o valor da oralidade e, principalmente, da boa escrita. "Trabalhamos junto com os professores, procurando incentivar, de forma lúdica, este conhecimento." E lembrou que as tecnologias de educação e gestão da Fundação Itaú são disponíveis gratuitamente para download no site.
O engajamento das empresas - grandes e também pequenas e médias - foi destacado por Claudia Jeunon, da Assessoria de Responsabilidade Social do Sistema Firjan. Ela relatou o trabalho que tem sido desenvolvido pela entidade para justamente envolver cada vez mais e mais companhias nesta direção. "Muitos de nossos associados, cerca de 75%, é do setor de metal-mecânica e são pequenas e médias empresas ligadas à cadeia do petróleo." É justamente trabalhando em toda a cadeia produtiva que ela acredita ser possível irradiar os conceitos de Sustentabilidade, inicialmente mais aplicados por grandes companhias, como Vale, Coca-Cola e CSN.
Falou também do desafio de consolidar redes e de compartilhar vitórias e erros. "Não vejo porque alguém ficar feliz porque sua equipe conseguiu algum mérito ou resultado em projeto socioambiental. Este é um feito de todos, do coletivo e não para ser de um ou de outro." Com a experiência de quem milita há anos nesta área, Claudia Jeunon advertiu que se uma empresa provoca um fortíssimo efeito negativo na comunidade por conta de demissões, como aconteceu, por exemplo, em Volta Redonda logo após a privatização da empresa, a hora é de reunir esforços e concentrar o foco em geração de renda, qualificação profissional e atuação em rede com a sociedade. "Por favor, nada contra o mico leão dourado. Mas o foco, neste caso, precisa estar nas pessoas, a comunidade. Depois de tudo pronto podemos pensar também em outras causas muito dignas também."
Recém-chegado de uma viagem internacional para países árabes, onde foi estabelecer parcerias sociais, Rodrigo Baggio, fundador do CDI, falou como a inclusão digital se transforma em inclusão social. Com esta parceria na Arábia Saudita (onde uma ONG local já existente se transformou em CDI na Arábia Saudita), Jordânia e Egito será possível compartilhar experiências e cases de sucesso. Depois de 15 anos de sucesso por aqui, o projeto chega à sua fase internacional: do Brasil para a aldeia global. "Tecnologia de gestão social verde-e-amarela e mais: o CDI é carioca, Flamengo e Mangueira", brincou.
A partir do relato de casos reais, Rodrigo mostrou como a inclusão digital transforma mesmo vidas. E lembrou da trajetória de Ronaldo, um dos primeiros sequestradores do Rio que passou anos preso e conheceu o CDI dentro do presídio. Quando saiu, liderou a implantação de um comitê na comunidade onde vive, em São Gonçalo (RJ). Passou a atuar na profissionalização e inclusão de ex-detentos como ele e transformou-se em liderança comunitária. O fundador da ONG, entusiasmado, sugeriu que ele se candidatasse à uma bolsa da Fundação Ashoka. Mas Ronaldo teve seu primeiro pedido negado, Insistente, o jovem Rodrigo no primeiro encontro com o fundador da Ashoka, Bill Drayton, procurou defender a sua indicação. O dirigente da Fundação advertiu que se tratava de um serial killer. Mas, diante do relato do fundador do CDI, acabou convencido. Conclusão: Ronaldo é hoje um fellow da Ashoka e multiplica seu conhecimento por onde passa.
São relatos de um Brasil real, em transformação. Na prática. Debate acalorado, público participando. Mais detalhes em nosso twitter.
E, para quem não pode comparecer, uma boa notícia. Teremos outros ao longo de 2010: não só no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo e Belo Horizonte.
