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15/03/2010 | 09:38

Gerenciamento de projetos e as peculiaridades da gestão de projetos sociais do Terceiro Setor

Fabio Rocha é Colunista de Plurale (*)

A área social vem sofrendo uma grande transformação nestes últimos 10 anos, transitando de ações eminentemente assistencialistas para projetos sociais de alta complexidade.
 
Esta mudança gerou a necessidade de um aperfeiçoamento na gestão destas ações, demandando, mesmo que intuitivamente técnicas e ferramentas de gerenciamento de projetos.
 
Como se não bastasse, a riqueza desta temática (gestão de projetos) somou-se a heterogeneidade da área social, com instituições de diversas naturezas, portes, modelos de gestão, níveis de profissionalização e focos de atuação.
 
Estes projetos sociais tem sido realizados pelos mais diversos setores, o público, o privado e o não-governamental (terceiro setor). Vamos neste artigo nos ater a este último, em função da mescla de características que ele apresenta, em relação ao público e o privado.
 
O mais básico para entendermos esta nova perspectiva da gestão de projetos, é definirmos alguns conceitos básicos, como gestão, projetos e terceiro setor.
 
Este inclusive é uma das primeiras falhas apresentadas na gestão destes projetos sociais, que por falta de domínio conceitual, conduzem rotinas e serviços, como se fossem projetos.
 
Por gestão entende-se o processo de planejar , organizar, liderar e controlar o uso dos recursos para alcançar objetivos determinados.
 
 
Já em relação ao projeto, segundo definição da ONU : “um projeto é um empreendimento planejado que consiste num conjunto de atividades inter relacionadas e coordenadas , com o fim de alcançar objetivos específicos dentro dos limites de tempo e de orçamento dados.”
 
E por fim, terceiro setor é o conjunto de instituições privadas sem fins lucrativos, que administram recursos públicos e privados, aplicados em programas e projetos de interesses públicos nas áreas de educação, saúde, meio ambiente, cultura, saneamento, nutrição, arte, esporte, habitação, dentre outros
 
Raciocinando sobre o prisma dos conceitos supracitados, podemos ainda acrescentar as peculiaridades da gestão de projetos sociais, a luz do seu próprio conceito:
 
 
Um projeto social é um projeto que visa promover melhorias ou mudanças sociais, de preferência sustentáveis, isto é, melhorias ou mudanças sociais que permaneçam durante um período de tempo indefinido, além do prazo do projeto.
 
 
 
Uma melhoria social é a transformação de uma situação social problemática em outra menos problemática.
 
Ø                               Por exemplo: benfeitorias realizadas em localidades com condições precárias de infra-estrutura urbana.
 
 
Uma mudança social é uma diferença substancial observada em relação a situações, hábitos ou comportamentos sociais anteriores.
Por exemplo: quando adolescentes que cumpriram medida sócio-educativa de Liberdade Assistida não entram novamente em conflito com a Lei.
 
 
 
Esta riqueza conceitual e prática levam as organizações do terceiro setor e seus gestores a subestimarem as peculiaridades da gestão de projetos na área social, mesmo que apresentem variação em intensidade, dimensão e conseqüência.
 
Segue abaixo algumas destas peculiaridades encontrados de uma forma geral em projetos sociais de todo o Brasil. São elas:
 
Ø      A primeira e mais forte é a passionalidade. O envolvimento emocional com a causa do projeto social e/ou com a comunidade beneficiada, pode levar a tomada de decisões sem uma base racional;
 
Ø      A subjetividade está também presente, tornando a avaliação dos resultados, a definição de metas, algo extremamente complexo em relação a aspectos subjetivos de transformação social, como por exemplo, “a comunidade voltou a sonhar......”;
 
Ø      A terceira peculiaridade é a abrangência, ou seja, a teia entre o foco do projeto e uma série de outros públicos e/ou temáticas. Um projeto social voltado a melhoria do estado nutricional de crianças de 0 a 6 anos de idade, convivendo com problemas habitacionais, educacionais, de saneamento básico da família em que está criança está inserida. O irmão que está envolvido no tráfico de drogas, a mãe que é dependente química e o pai que está desempregado;
 
Ø      Peso das relações pessoais. As relações são totalmente baseadas nas pessoas, na confiança entre as pessoas. A figura institucional é bastante frágil. Relações da organização não-governamental e do seu gestor com a comunidade beneficiada e/ou parceiros dos projetos sociais, dependem muito de aspectos ideológicos, de posturas pessoais e até de elementos como a empatia; e


        Ø      Por fim, a cultura e história em relação a gestão, em que em função da ideia anterior que o que importava era realizar, atender, ajudar, sem definir qual o resultado desta ação, praticamente pauta-se por um grande amadorismo de gestão.

 Outras peculiaridades existem, mas, o que mais preocupa são as “sequelas” de não levar em conta as mesmas para o sucesso dos projetos e para adequação de todo ferramental de gestão a estas características.
 
Portanto, o único caminho é a profissionalização da gestão, entendendo profissionalização como a ação de profissionalizar(-se); dar o caráter de coisa profissional a; tornar-se profissional e/ou adquirir caráter de profissional. E isto só é possível através das ferramentas de gerenciamento de projetos.
 
(*) Fábio Rocha (fabio@damicos.com.br) é Colunista de Plurale, colaborando com um artigo sobre Sustentabilidade por mês. É sócio-diretor da Damicos Consultoria de Negócios. Bacharel em Administração e Pós-Graduado em Comunicação Social, ambos pela Unifacs. Mestre em Responsabilidade Social e Sustentabilidade pela UFF. Consultor de várias empresas.
 

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