Atenção

Fechar

estante

Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil

Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil

Autor: Cristina Serra
Editora: Record
Publicação: 2018
Páginas: 462
Preço sugerido: R$ 59,90

Assim que a auxiliar de serviços gerais Paula Geralda Alves ouviu pelo rádio comunicador de uma caminhonete a informação entrecortada “a barragem rompeu”, ela não pensou duas vezes: correu para a sua moto do tipo scooter e, apesar dos apelos dos colegas de trabalho para que ficasse, acelerou o máximo que pôde na direção de Bento Rodrigues, vilarejo de pouco mais de 600 habitantes, onde morava com seus pais e o filho de cinco anos. Além de salvar sua família, Paula alertou amigos e vizinhos. Eles conseguiram correr para as partes mais altas do vale para se proteger do mar de lama tóxica que varreu o povoado de mais de trezentos anos do mapa. Se não fosse pelo ato heroico, talvez o saldo de vidas humanas perdidas na maior tragédia ambiental de todos os tempos pudesse superar a casa da centena. Em Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil, a jornalista Cristina Serra revisita a história de descaso e, neste aniversário de três anos, alerta para a possiblidade de outras catástrofes como a que afetou o Rio Doce possam acontecer novamente, afinal, ao contrário do que se poderia esperar, o licenciamento ambiental se tornou ainda mais flexível.

Na época do rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, Cristina Serra ainda era repórter do Fantástico, da TV Globo. No total, ela fez seis reportagens para o programa dominical. Apesar da cobertura extensiva dedicada ao tema, o volume de informação, assim como a indignação, eram tão grandes que a repórter decidiu transformar a reportagem num livro essencial para entender não apenas o episódio como também o irresponsável jogo de faz de conta do licenciamento ambiental no Brasil. Com base em páginas e mais páginas de documentos e em depoimentos das fontes entrevistadas ao longo da apuração, Tragédia em Mariana reconstitui minuciosamente os dias que se sucederam ao desastre. O esforço dos primeiros promotores de se criar uma Lava-Jato no setor ambiental e, finalmente, as manobras dos culpados para se livrar da responsabilidade criminal. Cristina Serra revela ainda a relação de parlamentares e políticos mineiros com o setor da mineração, quando ainda não havia restrições para o financiamento empresarial de campanhas eleitorais.

O livro relata também as tentativas frustradas de se entrevistar os dirigentes das instituições de licenciamento ambiental que, nas palavras do promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, do Ministério Público de Minas Gerais, peça-chave nas investigações, deram um “cheque em branco para a Samarco construir e operar uma barragem sem que o órgão tivesse ciência do projeto”. Carlos Eduardo Ferreira Pinto era o chefe da força-tarefa designada para investigar o caso, mas acabou afastado e passou a ser investigado por acusações que se provaram infundadas e que já foram arquivadas. Nesta entrevista, o promotor externa sua completa frustração com o engavetamento da proposta para mudar a lei.

“O projeto Mar de Lama Nunca Mais foi inspirado pelo projeto das dez medidas contra a corrupção, do MPF, dentro da Operação Lava Jato. Nós entendemos que a tragédia poderia deixar um lega­do para as futuras gerações mineiras, que seria uma legislação que traga efetividade na fiscalização e controle desses empreendimentos. E fizemos esse projeto de lei de iniciativa popular, que teve maciça adesão. Eram necessárias 10 mil assinaturas, e nós tivemos mais de 60 mil. Isso mostra que a sociedade quer um controle maior dessas atividades. Não estamos usurpando o papel do Legislativo, mas provocando uma discussão. A mudança, porém, esbarra no sistema político brasileiro. A maior parte dos deputados foi financiada pe­las empresas de mineração, e eles passam a ser agentes defensores dessa atividade”, declarou o promotor em entrevista à autora Cristina Serra.

Tragédia em Mariana se divide em capítulos curtos que ainda abordam o impacto da tragédia na reserva indígena dos Krenak, que acreditavam que o Rio Doce era habitado por espíritos sagrados, na vida daqueles que perderam seus familiares e no ecossistema fluvial. A descrição dos bastidores da reportagem transporta o leitor para o desolador cenário de devastação. Ao fim da leitura, o sentimento de indignação é ainda reforçado pela conclusão de que nenhuma efetiva foi tomada para prevenção de outras catástrofes, pelo contrário. O licenciamento, segundo o procurador, foi flexibilizado: “Até dá para entender que o licenciamento, muitas vezes, é burocrático, mas isso é por ausência de investimento e de política pública para os órgãos de licenciamento. Então, os órgãos perdem agilidade e se torna muito mais fácil mudar a legislação. Fato é que, do rompimento para cá, a legislação se tornou mais flexível e cada vez mais se exige menos dos empreendedores. Por consequência, se aumentou o risco para a sociedade. Nossos legisladores não entenderam a gravidade da situação”

Cristina Serra nasceu em Belém do Pará e formou-se em Jornalismo na Universidade Federal Fluminense. Trabalhou nas redações dos jornais Resistência, Tribuna da Imprensa, Leia Livros, Jornal do Brasil, da revista Veja e da Rede Globo. Na TV, foi repórter de política em Brasília, correspondente em Nova York e comentarista do quadro “Meninas do Jô”, no Programa do Jô. Em 2015, foi escalada para a cobertura do desastre em Mariana, pelo Fantástico. No começo de 2018, ajudou a fundar o canal digital My News. Atualmente segue carreira solo.





Voltar para a estante