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O envolvimento responsável e a prática do cuidado

Luiz Antônio Gaulia é Colunista de Plurale (*)

Algumas palavras têm a capacidade de perder sentido e cair muito rapidamente num imenso vazio. Desconfio que “sustentabilidade” é uma delas. Bem como o tal “desenvolvimento sustentável” que carrega em si mais perguntas do que respostas.

Numa análise mais crítica, vamos perceber que não existem empresas sustentáveis. Mesmo porque ninguém atingiu o perfeito equilíbrio entre as dimensões sociais, ambientais e financeiras que fazem o tripple bottom line e sua nova contabilidade para uma geração de valor de longo prazo. Por certo, temos boas práticas em construção e uma saudável busca por novos modelos de gestão. A questão, contudo, permanece cheia de interrogações.

Diante delas, faz-se necessário não somente um novo modelo mental, como defende o Prof. Evandro Ouriques, mas também um permanente pensar sobre a ética e a responsabilidade nos negócios, como já escreveu a Profª Patrícia Almeida Ashley. Lembrando que responsabilidade significa ter habilidade de resposta. E nós ainda não temos habilidade suficiente para responder questões que envolvem o aquecimento global, processos de produção industrial menos danosos ao meio ambiente e ao homem, soluções globais para a miséria, a corrupção, a agressão ao direitos humanos fundamentais, entre outras. Talvez nem tenhamos consciência de que nos falta tal habilidade.

Diante disso, vejo que uma nova terminologia poderia ser muito mais útil para tratar de dimensões ainda tão distantes da nossa realidade, de nossas rotinas coletivas e individuais. A começar pelo Desenvolvimento Sustentável. Pergunto se des - envolver não seria exatamente a contramão do que prega a sustentabilidade, enquanto rede de conexões e interdependências de diferentes atores sociais? Des-envolver, neste sentido, seria um termo que alavanca a fragmentação e que vai contra a visão sistêmica necessária ao entendimento dos impactos de nossas ações sobre as variáveis sociais, ambientais e econômicas. Além das variáveis culturais, emocionais e por que não, espirituais.

Acredito que precisamos de um movimento cada vez mais interativo, colaborativo e integrado de...envolvimento! Envolvimento como sinônimo de cuidar. O envolver-se com questões globais mas também com a sociedade local, com a diversidade de ideias, numa relação permanente entre múltiplos atores. Uma proposta de maior responsabilidade por nossos atos diante da vida, de hoje e de amanhã.

E o que dizer então de uma prática do cuidado como o melhor exemplo para fazer acontecer, de fato, a sustentabilidade? Não seria essa uma forma mais popular, simples e direta, de traduzirmos o “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades” (como define o Relatório Brundtland)?

Porque o cuidar é um processo que requer atenção, que abrange a percepção de riscos. O saber cuidar, já descrito de maneira tão preciosa por Leonardo Boff e antes dele por Martin Heidegger, ainda vai poder reunir a questão dos afetos, outra vertente não levada em conta pela maioria das empresas. Mesmo as que já trazem, em sua declaração de missão, visão e valores, o sonho da sustentabilidade.

Ou seja, fica aqui a provocação para o uso de palavras menos complicadas ou já exauridas pelos excessos do marketing e da publicidade. Ter clareza na linguagem é uma exigência de modelos, como o da Global Reporting Initiative que estimula práticas baseadas na transparência e na facilidade de entendimento dos discursos e dos relatos de sustentabilidade. Ao facilitarmos o entendimento de conceitos fica mais fácil responder como podemos ser “sustentáveis”? Cuidando melhor das pessoas, dos bichos, das plantas, da rua, do bairro, da cidade. Numa crescente integralidade da nossa atenção para com o outro.

Portanto, que o envolvimento responsável torne-se a prática do cuidado, verdadeira construção da sustentabilidade pois antecipação criteriosa de projetos futuros e prudência vital na administração de projetos (individuais ou coletivos) em curso. E que o cuidado seja assimilado, mais rapidamente, tanto no meio acadêmico, quanto no ambiente empresarial. E também no nosso próprio dia a dia, como cidadãos.

(*) Luiz Antônio Gaulia é Colunista de Plurale, colaborando com artigos sobre Sustentabilidade. Jornalista, publicitário, professor da ESPM RJ e Gerente Comercial da Vectorial – Consultoria e Gestão de Benefícios.





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10 comentários | Comente

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Shaulla Figueira Rodrigues |
Gaulia, excelente texto e totalmente inserido na nossa realidade. A palavra sustentabilidade está na moda, mas ser sustentável é muito mais do que o próprio significado da palavra quer dizer. Infelizmente no Brasil ainda estamos engatinhando neste processo, mas grandes potências como Alemanhã e Japão (apesar do Tsunami E terremoto) já são bons exemplos dentro e fora do mundo corporativo de como o assunto pode ser tratado.

Carlos |
Pesquisando agora vi o artigo e resolvi comentar: "palavras exauridas". É interessante como alguns conceitos tornam-se aparentemente vazios de forma muito rápida. Mas devemos ficar alertas e esperançosos. Há muito que se fazer, "envolver" e educar para uma nova mentalidade planetária!

Andrea Trotti |
Gostaria de parabenizá-lo pelo excelente texto!!! Muito boa reflexão!!!

Luiz Gaulia |
Flávia, "encontrar sentido" é uma busca permanente num mundo que parece substituir o potencial humano pelo "capital humano", a ética e os direitos fundamentais do homem pelo "resultado finenceiro de curto prazo". O cuidar me parece um ato preventivo, prudente e de atenção em relação ao Outro. Nelson, obrigado pelo comentário. A antiga "propaganda enganosa" chama-se hoje "greenwash". Mais do mesmo: falta de coerência entre discurso e prática. Professora Patrícia: muito obrigado pelo comentário. Minha tentativa é simplificar para contagiar: traduzir terminologias de forma mais prática para ser colocada no cotidiano, me parece uma proposta válida. O "cuidar" é ato fraterno de envolvimento contínuo, permanente. Sustentabilidade para mim é dessa forma uma "gestão do cuidar". Abraços. Luiz

Patricia Almeida Ashley |
Gaulia, você clarificou muito em sua abordagem sobre o que estamos passando no Brasil e no mundo nesse movimento pela sustentabilidade, responsabilidade social e des-envolvimento. Sim, precisamos de envolvimento responsável, alinhado com territórios mentais como proposto por Evandro Ouriques que comungue dos valores mais humanos que são o do saber cuidar, como nos alerta Leonardo Boff. Estimado Gaulia, vou citar seu texto na proposição desses terminologia mais clara e paupável: envolvimento responsável. Saudações, Patricia.

Nelson Tucci |
Muito boa a abordagem, Gaulia. Hoje em dia todo o mundo corporativo fala em "sustentabilidade" e eu próprio já comprovei: p´ra ser generoso, METADE NÃO TEM IDEIA do que se trata. Confundem práticas sustentáveis com "plantar coqueiros" no jardim da empresa... Também acredito que seja um processo em construção e que ainda vai durar muuuuuuuuuito ! Abs

Luiz Gaulia |
Obrigado pelos comentários! Suzana, com certeza, nossas ações podem falar mais alto que nossas palavras e a magia do discurso pode seduzir, mais do que fazer refletir e engajar as pessoas de forma ativa. Valeria, concordo com vc que a educação é a alavanca fundamental dessa proposta. Educação como um "religar" dos saberes com já escreveu Edgard Morin.

Flávia Lobato |
Interessante a estruturação de suas ideias a partir da des-construção da terminologia: do desenvolvimento ao envolvimento! Para propagar ideais, precisamos difundir ideias claras, esclarecedoras. A comunicação com qualquer finalidade não pode prescindir da linguagem. Mais do que novas palavras, que a gente encontre novas formas para que o mundo faça e seja "sentido".

Suzana Liskauskas |
O artigo explora um ponto que deve fazer todo mundo refletir. Resultados não são medidos pela complexidade do discurso, mas pelo rol de atos e decisões corretas.

Valeria Ferrari |
Prezado Luiz Antonio, Você foi muito feliz com seu artigo. "O envolvimento responsável e a prática do cuidado", reconheço e compartilho com você que o cuidado com o outro é ser sustentável. Aceito a provocação de usar palavras menos complicadas, mais plenas e com sentido muito mais completo "de como podemos ser “sustentáveis”?", a palavra é EDUCAÇÃO pois, para mim, prática sustentável, consciência ambiental, social e fiscal (tomo liberdade de incluir essa última por entender que o tributo é a parte que cabe ao Estado da contribuição do cidadão para com a sociedade) é consequência da formação integral de todos nós e que se refletem nas nossas ações sejam elas sociais, ambientais, financeiras, emocionais e por que não, espirituais. Abraços, Valeria Ferrari Educação Fiscal .