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Plurale em Revista, Ed 39 / A força revolucionária da educação

Há mais de 20 anos o Instituto Steve Biko vem despertando a consciência de jovens negros da periferia de Salvador e abrindo um horizonte profissional através do acesso ao ensino superior. Mas a iniciativa vai muito além disso.

Há mais de 20 anos o Instituto Steve Biko vem despertando a consciência de jovens negros da periferia de Salvador e abrindo um horizonte profissional através do acesso ao ensino superior. Mas a iniciativa vai muito além disso.

Por Tom Correia
Fotos: Divulgação | ISB

Em 1992, um grupo de nove amigos do Movimento Negro começou a se reunir nos jardins da Faculdade de Economia da Universidade Federal da Bahia, no centro de Salvador. O objetivo era a criação do primeiro pré-vestibular no Brasil dedicado aos afrodescendentes da escola pública, numa época em que as chances de aprovação eram mínimas. Assim surgiu o Instituto Cultural Steve Biko, como uma forma de combate à desigualdade flagrante vista nas salas de aula das faculdades da capital baiana e, especialmente, com propostas que mais tarde se revelariam como uma revolução silenciosa e frutífera: promover a ascensão político-social da população negra por meio da educação e do resgate dos seus valores ancestrais.

Hoje, 22 anos depois, mais de 5 mil alunos oriundos da periferia cheia de problemas e limitações passaram pelas salas do instituto. Mais de 1 mil deles foram aprovados e tiveram oportunidade de ver seus nomes nas listas de presença das faculdades baianas. E, nesse universo, há os que se graduaram, se pós-graduaram, desenvolveram projetos voltados à inclusão digital, participaram de projetos de ações afirmativas, tornando-se como uma espécie de infiltrados conscientes de seus valores e da necessidade de mudança de paradigmas em ambientes que continuam apostando em modelos arcaicos, socialmente estagnados. E, não raro, discriminatórios.*

Envolvida com a Biko desde os primeiros anos de fundação, quando os recursos se resumiam a um quadro negro, giz, xerox de apostilas e muita determinação, a educadora e diretora pedagógica do instituto, Jucy Silva, destaca a importância de se formar multiplicadores no ambiente acadêmico e profissional. “Nosso interesse é proporcionar o ingresso de negras nas universidades com uma formação sólida em relação à conscientização. Mas queremos mais do que isso: a carreira deles deve estar a serviço da comunidade negra”, afirma.

Diferencial pedagógico

A lei 10.639, em vigor no Brasil desde 2003, prevê a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura da África e Afrobrasileira em escolas públicas e particulares do ensino fundamental ao ensino médio. A proposta era estabelecer novas diretrizes no currículo para valorizar desde as religiões de matrizes africanas até o pensamento dos intelectuais negros.

Na Biko, por sua vez, mais de dez anos antes da lei existir, já havia uma disciplina obrigatória para todas as turmas, considerada pelos educadores como o grande diferencial da instituição: Cidadania e Consciência Negra (CCN). Com enfoque no resgate da cultura afrobrasileira, destacando questões da religiosidade, ancestralidade e nomes de ativistas que são referências na luta contra as desigualdades, o CCN influencia a postura e pensamento dos jovens negros. Para a maioria deles, ter o contato com esse novo mundo de informações se transforma num divisor de águas. O depoimento do Administrador Michel Chagas para o livro comemorativo “Bikud@s – Histórias de Cidadania e Consciência Negra” ilustra o nível da mudança. “Na verdade eu não tinha referencial. Não tive um professor negro na faculdade e não sabia onde eu queria atuar. A Biko ampliou minha visão e me ensinou a ousar”, declara.

Além do pré-vestibular, os jovens bikudos e bikudas, como são conhecidos e como se tratam os alunos do ICSB, também podem participar de uma série de programas oferecidos eventualmente a partir de parcerias com outras instituições nacionais e estrangeiras. Nessas duas décadas, já foram desenvolvidas ações como o Oguntec [ciência e tecnologia], o Dhar [Antirracismo e Direitos Humanos] e o Pompa [Projeto Mentes e Portas Abertas para exercício da liderança], além de programas de intercâmbio culturais.

Um dos mais atuantes ex-alunos do Pompa é Paulo Rogério Nunes, 33. Nascido no Alto da Terezinha, subúrbio ferroviário de Salvador, vem desenvolvendo ações que vem se destacando pela seriedade e alto nível de engajamento. Foi um dos primeiros moradores do bairro a ter acesso ao nível superior e desde cedo esteve atento à configuração social desmedida que o cercava. Entretanto, ao concluir seu curso de Comunicação Social, ele não se acomodou.

Cheguei até a última etapa de uma seleção para um programa de Trainee de um grande banco privado, mas percebi que lá dentro eu poderia ter um bom emprego, mas não contribuiria diretamente para que jovens negros tenham oportunidades reais de crescimento”, declara. Além de ser um dos fundadores do Instituto Mídia Étnica, que se dedica à promoção da diversidade étnica nos meios de comunicação, Paulo Rogério foi além das fronteiras: recentemente concluiu um curso na Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, onde estudou Jornalismo e Novas Mídias com uma bolsa do programa da Fulbright. Conheceu os principais veículos de comunicação do mundo, como o The New York Times, Washington Post, Bloomberg e rede ABC, além de estagiar no Media Lab do renomado Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Prêmios coletivos e individuais

Os anos de atuação no combate à desigualdade renderam ao ICSB reconhecimento tanto para a instituição quanto para seus alunos. Em 1999, o Ministério da Justiça concedeu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos; em 2003, foi a vez do Prêmio Cidadania Mundial, outorgado pela Comunidade Bahái do Brasil. Ainda em termos de premiação, um destaque individual é Sheila Regina Santos, 32. Moradora de Paripe, um dos bairros mais populosos do subúrbio ferroviário, ela sempre estudou em escola pública. Entre 2000 e 2001, ela teve um encontro que mudaria radicalmente a sua trajetória, com grande impacto também sobre a sua família: ela descobriu as aulas do ISB. “Foi lá que a prendi a me valorizar enquanto mulher negra e a lutar pelos meus objetivos. A Biko tem um papel fundamental na minha autoestima e na minha formação técnica e política”, revela. Em 2008, ela desenvolveu o trabalho “Oguntec: uma experiência de ação afirmativa no fomento à educação científica”, que lhe valeu o Prêmio Jovem Cientista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [CNPq] e uma bolsa para um mestrado. Atualmente Sheila é professora substituta do Departamento de Estatística da Universidade Federal da Bahia [UFBA] com mestrado em Estatística pela Universidade de Campinas e doutoranda do programa de Pós-graduação em Educação da UFBA.

Tempo de despertar

Os ambientes dos shoppings mais sofisticados de Salvador, uma das cidades com maior concentração de negros, pardos e afrodescendentes do mundo, são um dos termômetros explícitos da assimetria social que carregamos nas costas há séculos: trabalhadores negros e afrodescendentes ocupam quase que exclusivamente postos de trabalho que exigem baixa qualificação e sem perspectivas de ascensão. Mas existem as exceções que escapam desse círculo vicioso e socialmente claustrofóbico.

Ariana Reis, 32, estudou na Biko em 2000 e fez parte do Oguntec em 2002. Tinha 15 anos quando precisou socorrer o sobrinho que havia levado um corte na testa. Um médico os atendeu, a princípio mostrando-se muito simpático e extrovertido, mas durante o procedimento, Ariana contou que estudava muito para ser médica como ele. A mudança foi radical. “Naquele momento houve um silêncio Achei que ele não tinha escutado e repeti a frase com a voz mais alta. Foi quando ele me olhou seriamente com um olhar de reprovação como se dissesse ‘ponha-se em seu lugar’”, relata.
O que aconteceu com a então adolescente sonhadora remete às palavras do ativista sul-africano que inspirou todo o conceito da ISB: “Vivi toda minha vida consciente dentro da estrutura de um ‘desenvolvimento em separado’, institucionalizado. Minhas amizades, meu amor, minha educação, meu pensamento e todas as outras facetas de minha vida foram formados e modelados dentro do contexto da segregação racial”.

A colação de grau da Drª. Ariana aconteceu no dia 31 de janeiro. Ela quer se tornar cirurgiã.

Saiba mais:
www.stevebiko.org.br | 71 3241-8708

BOX I

O legado de Steve Biko na Bahia

O sul-africano Steve Bantu Biko (1946-1977) foi um dos ativistas mais importantes na luta contra o regime de Apartheid em seu país. Pela sua atuação contra o sistema segregacionista, foi banido pelo governo, sendo constantemente vigiado e mantido incomunicável em sua casa. Foram proibidas citações de suas declarações e discursos até nas conversas informais nas ruas de Johanesburgo. Foi preso e acorrentado à uma janela da penitenciária, onde seria espancado até morrer aos 30 anos de idade. Biko acreditava que o resgate da autoestima da população negra era essencial para sua completa libertação.

BOX II

Investimento da Fundação Coca Cola pode acelerar o projeto da Faculdade Steve Biko

Pelas ações que vem desenvolvendo há mais de duas décadas, a Steve Biko foi uma das instituições brasileiras selecionadas pela Coca Cola Foundation para receber apoio financeiro visando novos projetos de inclusão. O investimento conjunto de R$ 5 milhões foi anunciado em janeiro deste ano e contou com a presença da presidente da CCF, Lisa Borders, neta de ativista de Direitos Humanos e o consultor Joe Beasley, que fez parte da comissão que selecionou as instituições beneficiadas. O apoio pode dinamizar um sonho antigo do ISB: a criação da Faculdade Steve Biko, que já conta com um imóvel no centro de Salvador doado pelo governo estadual em 2011. Entretanto, o antigo casarão de 504 m² precisa ser totalmente reformado.





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