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Da Era das Coisas, cansei!!!

Por Patricia Almeida Ashley, Colunista de Plurale

No interior, sonham com o Rio de Janeiro, imitam como se faz e se veste e se fala nas novelas, com a diferença que não tem os espaços e ambientes reais da situação metropolitana. Vivem como simulacros metropolitanos, em que ilustro: compram carros, orgulham-se de muitas vagas de garagem no imóvel residencial, cobrindo a terra de pedra ou cimento para as rodas de seus veículos. Uma vantagem no interior: pelo menos é fácil encontrar leite sem aditivo de sódio, só embalado em sacos de leite pasteurizado nas padarias e supermercados.

No metropolitano real do Rio de Janeiro, o noticiário local Bom Dia Rio é mais ou menos metade de seu tempo dedicado ao trânsito, engarramentos, minutos para a travessia da Ponte Rio Niteroi, velocidade em cores dos eixos de trânsito, com uso de recursos de multimídia, helicópteros, weblink, câmeras, centro de controle, tudo para o noticiário do trânsito, fora os acidentes que interrompem seus fluxos e as obras para um Rio que possa ter mobilidade urbana até 2016.

Passamos nos pontos de fluxo de pessoas e todos, sem exceção, correm ou passam rápido, sem se olharem, só olhando no máximo as telas de seus smartphones e tablets, falando sozinho ao parar, ao passar nas calçadas ou atravessar ruas, mas sem tempo para falar ou disposição de sorrir ou olhar ou cumprimentar pelo menos com a cabeça ou uma expressão de rosto aos que estão no seu entorno aguardando o ônibus, a barca, o metrô, o trem.

A tensão no ar e os receios de perder o tempo, de perder a mochila, de perder o relógio, os aparelhos de comunicação, mas aliviados de não perder a vida sua e de seus, retornam para casa gratos por poderem estar em casa, mais aliviados ainda quando todos os familiares chegam bem ou na mesma situação.

O entretenimento social seguro situa-se nos shoppings e lá podemos nos perder e esquecer do tempo de lá de fora, percorrendo corredores, escadas rolantes, olhando as vitrines, observando os lançamentos de coisas sem fim e muitas sem fins algum, sentindo o cheiro perfumado no ar, tomando um café, almoçando e jantando e até encontrando pessoas ‘pessoalmente’ que poderemos, enfim, ter tempo para tocar, cumprimentar e dialogar com calor humano.

Contas chegam mensalmente, fiéis às famílias. Nos vangloriamos (incrível, não?) ao nos libertamos das contas de ‘Combos’ que vem junto mesmo quando apenas queremos acessar a internet e, ao, enfim, conseguirmos devolver o decodificador da tv a cabo e o roteador de internet, dizemos calados ‘Combo nunca mais’ e partimos para a mobilidade de 4G e roteador sem fio aos que conseguem necessitar de somente 5MB/seg e até 12 GB de tráfego ao mês (já escuto os risos por isso...).

E as novas gerações e juventude, como estão nessa tragédia de mudanças climáticas e de guerra por água, mas entretidas em suas redes sociais que exigem mais e mais de seu tempo, de sua atenção, intenção e expressão (limitada a 150 ou 255 caracteres, é claro)? Na hora e nos lugares para a sociedade participar presencialmente das decisões sobre questões públicas, do interesse comum e coletivo, faz-se o quê? Somente votar de quatro em quatro anos? Se nem isso anima a esperança da juventude por um Brasil mais justo, ecológico e soberano. Pergunto-me o futuro das novas gerações e os jovens que agora buscam formação ambiental, mas cercados ao redor das pressões culturais, econômicas, tecnológicas e políticas para que nunca terminem sua participação efetiva no enredo de rodamoinho da Era das Coisas.

Então, numa tentativa de reinvenção de percursos vindouros nessa vida, experimento descoisificar (como é difícil), retirando e doando e me desfazendo do que não uso, não usarei e outros poderão precisar. O que fica a partir da mudança de lugar, de ambiente e de postura sobre as coisas que se vão, é uma sensação de apatia, necessária para imersão e emersão romântica da alma, ouvindo, vendo, sentindo os cheiros e os sons de um tempo que anuncia o colapso da Era das Coisas. O silêncio torna-se o amante da alma que, letárgica, aguarda e percebe o tempo da catarse que virá em sons e letras da criação.

Fica o meu desejo e a minha oração: Que as pessoas experienciem o descoisificar no cotidiano, com prazer e alegria da descoberta de um novo tempo. No tempo de fim da Era das Coisas, a simplicidade torna-se o maior tesouro a carregarmos na comunhão da fraternidade.

Rede EConsCiencia e Ecopolíticas – www.ecopoliticas.uff.br. Professora Associada, vinculada ao Departamento de Análise Geoambiental do Instituto de Geociências da Universidade Federal Fluminense. Contatos: redeeconsciencia@gmail.com





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Luiz Gaulia |
Esta é a nossa incrível viagem pelo mundo que transforma tudo em objeto e paisagem. Mas nós não somos apenas os escolhidos ou seduzidos. Nós escolhemos e queremos nos seduzir por esse mundo de coisas. Falar sobre as coisas é mais simples que falar sobre o sentir, o pesar, o amar...Que belo artigo!