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André Trigueiro fala com exclusividade à Plurale sobre o suicídio, tema de seu novo livro

Por Sônia Araripe, Editoria de Plurale

Acostumado ao frisson de pedidos de fotos de fãs e ao burburinho de jovens alunos, o jornalista André Trigueiro, uma das principais vozes atualmente da mídia sustentável, está bem longe de ser uma celebridade inatingível, no sentido pejorativo do termo. Afável, cordial e, acima de tudo, engajado, Trigueiro tem procurado "mergulhar" em temas tão polêmicos quanto relevantes. Já rodou meio mundo para mostrar bons exemplos de iniciativas sustentáveis e não se cansa também de denunciar a realidade dura e crua de comunidades sem voz nos rincões deste Brasil. É, sem dúvida, um voluntário em causas que valem a pena. E não são poucas.

Autor de quatro livros - todos best-sellers - o jornalista, com longa trajetória de cerca de 30 anos em diferentes redações, se prepara para lançar mais um. Desta vez, de um tema realmente tabu: o suicídio. Trigueiro atua como voluntário-colaborador na ONG Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade com 53 anos de trabalho sério na causa. No livro - "Viver é a melhor opção" -, que será lançado no próximo dia 11 de maio, na Livraria da Travessa, do Shopping Leblon, o jornalista fala de sua pesquisa e militância em torno de um assunto tão sério quanto urgente. Todos os direitos autorais do livro serão para o CVV.

"A prevenção do suicídio é um assunto urgente, e ausente. São mais de 800 mil casos por ano, 2.200 por dia, um a cada 40 segundos", adverte o autor. Nesta conversa exclusiva com Plurale, Trigueiro fala sobre a abordagem do assunto e também deixa uma mensagem otimista para quem algum dia pensou em se suicidar. "Acho importante a gente se dar conta de que toda dor, por mais aguda que seja, passa. Se demorar a passar, procuremos ajuda. Muita gente que já pensou várias vezes em se matar, hoje consegue tocar a vida muito bem sem esse pensamento."

Plurale - O livro trata de um tema-tabu. Como teve a ideia de abordar este assunto?
André Trigueiro - É desafio do bom jornalismo enfrentar tabus em nome da vida, da saúde e da paz. A prevenção do suicídio é um assunto urgente, e ausente. São mais de 800 mil casos por ano, 2.200 por dia, um a cada 40 segundos. Quase ninguém sabe que o suicídio é considerado caso de saúde pública no mundo, e também no Brasil. Outra informação importante amplamente desconhecida é a de que o suicídio é prevenível em 90% dos casos, quando há intercorrência com patologias de ordem mental diagnosticáveis e tratáveis, principalmente o transtorno de humor, popularmente conhecido como depressão. Apesar de tudo isso, permanece o tabu na sociedade e nas mídias. Suicídio continua sendo um assunto invisível, mesmo quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça em sucessivos relatórios o papel estratégico da comunicação para que se reduza o número de casos. Os profissionais de saúde sabem que prevenção se faz com informação. É possível reduzir a incidência de dengue, tuberculose, hanseníase, doenças sexualmente transmissíveis e outros males que atingem a Humanidade com informação clara e objetiva. O mesmo se dá quando o assunto é suicídio. É preciso saber o que dizem os especialistas, mapear os riscos, identificar os sinais de alerta e procurar ajuda quando necessário. Tudo isso só é possível com informação. Neste caso em particular, a informação correta pode salvar vidas. Essa é a principal contribuição do livro.

Plurale - O que o livro aponta? Os suicídios no Brasil aumentam....quais seria as suas principais causas?

André Trigueiro - As taxas oscilam muito, sempre num patamar elevado, razão pela qual o suicídio é considerado caso de saúde pública no mundo(pela OMS) e no Brasil (pelo Ministério da Saúde). O último levantamento é de 2012 , quando 804 mil pessoas cometeram suicídio no mundo, 2.200 casos por dia, um a cada 40 segundos. É um número de óbitos superior a dos homicídios ou de mortos em conflitos armados. Em números absolutos, o Brasil aparece em 8º no ranking mundial de suicídios com 11.821 óbitos por suicídio (em 2012), o que dá uma média de 32 casos por dia. A taxa de crescimento desse gênero de morte em nosso país é superior à do crescimento da população. Importante dizer que estes números não expressam a realidade das ocorrências, há na verdade muito mais suicídios acontecendo por aí, já que as próprias autoridades de saúde reconhecem o problema da subnotificação, ou seja, muitos atestados de óbito são preenchidos de maneira imprecisa, atribuindo a "causa indeterminada" ou "acidente" o que na verdade foi suicídio.

Plurale - Você acredita que há uma certa hipocrisia da sociedade em torno do suicídio? Como se empurrasse para debaixo do tapete um tema tão sério?

André Trigueiro- É um tabu, e enquanto for um assunto invisível, as estatísticas permanecerão preocupantes. No livro compartilho as orientações da OMS aos profissionais de imprensa sobre como falar de suicídio nas mídias. Entre outras recomendações, sugere-se não destacar esse tipo assunto com manchetes e fotos, não informar o meio empregado para consumar o suicídio, não enaltecer as qualidades morais do suicida, e sempre abrir espaço para as informações que aludem a prevenção. As pessoas precisam saber que o suicídio é prevenível em 90% dos casos, devem estar cientes das patologias que inspiram maior atenção e vigilância, as situações de risco, onde procurar ajuda especializada e quais os serviços de apoio emocional e prevenção do suicídio que existem no Brasil (como é o caso do Centro de Valorização da Vida, www.cvv.org.br – 141). É importante dizer que o jornalismo tem uma função social, ele precisa ser útil à sociedade, e neste capítulo da prevenção do suicídio, é preciso fazer mais e melhor

Plurale - Você é voluntário-colaborador na causa e está doando os direitos autorais para o CVV. Acha que falta um pouco mais de comprometimento de voluntários na causa?

André Trigueiro - Acho que falta informação. Quanto mais pessoas souberem que esse problema existe, maior será a mobilização da sociedade para evitar a ocorrência de novos casos, maior será também a cobrança para que a "Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio", lançada há mais de 10 anos pelo Ministério da Saúde, saia do papel e seja uma política pública de verdade. É um efeito dominó: informação gera reflexão e atitude. Todos podemos fazer alguma coisa em favor da vida. Se o "meio ambiente começa no meio da gente", como disse certa vez um escritor goiano, o suicídio é um desastre ecológico. Quem defende a ecologia planetária, não pode descuidar da ecologia profunda. É preciso defender a vida em todos os planos da existência, que por sinal, estão interligados e são interdependentes.

Plurale - O que você diria para quem já pensou ou está pensando em se suicidar?

André Trigueiro - A maioria das pessoas já pensou alguma vez em suicídio – pelas mais diversas razões – e nunca perdeu muito tempo com essa ideia. Quando esse pensamento é recorrente, acende-se a luz amarela. Acho importante a gente se dar conta de que toda dor, por mais aguda que seja, passa. Se demorar a passar, procuremos ajuda. Muita gente que já pensou várias vezes em se matar, hoje consegue tocar a vida muito bem sem esse pensamento. Muita gente que já tentou se matar conseguiu superar esse trauma para seguir em frente com ânimo revigorado. Em boa parte dos casos quem pensa muitas vezes em suicídio se isola da família e dos amigos, vai vivendo num mundo paralelo. Isso é ruim. Considere o benefício do desabafo. Todos nós precisamos ter a chance de desabafar com alguém, falar abertamente sobre o que nos incomoda ou atormenta. O ideal é que seja alguém que nos escute sem julgamentos, condenações ou receitas prontas para resolver os nossos problemas. Em não sendo possível encontrar esse alguém – cada vez mais raro nos dias de hoje - ligue para o CVV (141) e experimente os efeitos positivos desse contato. Se nada disso lhe parecer interessante ou convincente, vale lembrar que todas as religiões ou tradições espiritualistas do ocidente e do oriente classificam o suicídio como um erro gravíssimo. Sou espírita há 30 anos e resumirei aqui o que esta doutrina em particular assinala sobre as consequências do suicídio no mundo espiritual: o arrependimento é certo, o sofrimento se agrava barbaramente e em nenhuma hipótese o autoextermínio significa alívio ou solução para os problemas. Pense nisso. Por que não se dar de presente uma nova chance? Você merece!
Agenda de lançamentos mais próximos do livro:
- Santa Maria (RS), próximo sábado, 9/5, na Feira do Livro
- Rio de Janeiro, 11/5, segunda-feira, a partir das 19h - Livraria da Travessa do Shopping Leblon
- São Paulo,18/5, segunda-feira, 18/5, com gravação de talk show da Rádio CBN das 19h às 20h e depois autógrafos - Livraria Cultura do Conjunto Nacional - Avenida Paulista 2.073




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2 comentários | Comente

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Luiz Gaulia |
Tema doloroso, tabu. Gostei da entrevista e acho válido mergulhar nesse tema que muitas vezes não é percebido de forma clara pela sociedade. O suicida pode ser um solitário, uma voz que ninguém escuta, que pede socorro através de um ato extremo, mas pode ser também um fumante inveterado, um viciado em álcool que circula nas rodas sociais aparentemente de bem com vida - mas vai se matando aos poucos com doses de veneno. Parabéns Trigueiro e Sonia pelo bate papo sobre o tema. Esse livro eu quero ler!

04/05/2015 16:06
Ótima entrevista. Esse assunto é realmente muito difícil, as pessoas ainda tem muito preconceito para falar sobre suicídio abertamente, é muito raro a pessoa assumir que já pensou nisso alguma vez. Acho que a maior dificuldade está aí , na pessoa assumir a condição de doente e aceitar ajuda. Parabéns Trigueiro pelo livro e parabéns Plurale por divulgar .