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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 52/ Amoliva viabiliza produção de azeite de Visconde de Mauá

Por Celina Côrtes, Especial para Plurale em revista

De Visconde de Mauá (RJ)

Fotos de Celina Cortes e Gustavo Donati

Se o último encontro reuniu nove associados, dessa vez foram 22 participantes. Fundada em fevereiro de 2014 com uma dúzia de sonhadores, a Amoliva, Associação dos Olivicultores da Serra da Mantiqueira na região de Visconde de Mauá, agregou mais quatro participantes ao grupo de oito produtores em sua última reunião, além de interessados em entrar para este seleto círculo. Com inegáveis doses de sonho, os produtores investem todas as suas fichas em um projeto que chegou ao Brasil há mais de 30 anos, com as primeiras mudas produzidas pela Empresa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), em Maria da Fé, a mais de 400 km de Belo Horizonte e a 200 km da Serra da Mantiqueira. A olivicultura já começa a dar resultados em regiões como o Sul do país, que até o fim de 2014 ostentava 1.400 hectares de área cultivada e cinco fábricas de azeite em operação. Um único grande produtor gaúcho já consegue prensar até 30 mil litros do mais puro azeite extra virgem.

O encontro, realizado em 6 de março no Sítio Auto das Paineiras, no Vale das Flores, em Visconde de Mauá, semeou novas ideias e ajudou a estruturar projetos em estágios diversos, onde cada um já consegue aprender com os erros alheios. Um dos mais antigos produtores do grupo, o empresário paulistano Luiz Carlos Nascimento, 69 anos, dono de um terreno de 30 hectares – correspondente a 30 campos de futebol – no Vale da Santa Clara, em Maringá, foi um involuntário exemplo aos demais. Ao lado de frondosas castanheiras portuguesas, ele plantou há sete anos 450 pés de oliveiras, sob a cartilha da Epamig.

Entusiasmado com o projeto, adquiriu em 2010 uma prensa de origem alemã, quando o dólar ainda estava baixo e, sem se dar conta, acabou enfrentando dificuldades para desenvolver sua plantação. A oliveira, que no Brasil leva quatro anos para dar os primeiros frutos, já começa a produzir economicamente no sexto ano. Nascimento, porém, adquiriu uma espécie de baixa produtividade e comprou o equipamento antes de ter a matéria prima para processá-la. O resultado foi uma floração pífia na safra de 2014, que não rendeu mais do que cinco litros de azeite. Em 2015 o volume foi ainda menor. Nem por isso o empresário desanimou e já planeja novos cultivos. “Meu maior erro foi não dar a devida atenção à agricultura, por isso tive de refazer a plantação”, admitiu.

Cultura nova no Brasil - Esse tipo de erro não surpreende o consultor, produtor e engenheiro agrônomo mineiro Luiz Engênio Santana Mattos, 46 anos, há 20 dedicado à pesquisa das oliveiras, com mestrado e doutorado na Europa sobre o tema. “A cultura de oliveiras passa por um reposicionamento técnico. Os conceitos de adequação estão sendo revistos, como o espaçamento e a fisiologia da planta, que são diferentes dos europeus. Ainda é uma cultura muito nova no Brasil”, argumenta Mattos. No seu entender, o cultivo das oliveiras foi precocemente tirado no Brasil do status de pesquisa. “Coisas que estão sendo feitas agora já deveriam ter sido feitas no início, como um maior espaçamento entre os pés, porque ainda não existem estratégias de adequação consolidadas, a exemplo da cultura do café, na qual já se sabe o que fazer”, completa.

E é justamente este tipo de incerteza que ajuda a fortalecer os vínculos entre os associados da Amoliva. Uma das decisões tomadas no encontro foi a de cada produtor criar um banco de dados, com informações diárias sobre o comportamento das oliveiras diante do clima, do solo, da incidência de chuvas, da temperatura, da adubação e demais características do cultivo de cada um. A própria empresa de Luiz Eugênio forneceu aos proprietários informações sobre a declividade e composição geológica dos terrenos; a necessidade de um espaçamento médio de sete metros entre cada pé, a predominância local da acidez e a saturação por alumínio, o excesso de nitrogênio foliar que contribui para acidificar ainda mais o solo. Ou seja, a correção do solo é fundamental para a qualidade da produção. Mattos também assessora grandes produtores do Rio Grande do Sul – o estado mais organizado do país no cultivo de oliveiras, onde foi criado, em agosto de 2015, o Programa Estadual de Desenvolvimento da Olivicultura – e do Sudeste.

Turismo é aliado - O Sul e o Sudeste, especialmente a região da Mantiqueira, têm em comum o clima frio, que favorece o cultivo. Quando a olivicultura começou a ser desenvolvida no país, a referência era o cultivo no semi-árido do Mediterrâneo, de solo alcalino. Na região de Visconde de Mauá, Rio Preto, Aiuruoca e Alagoa – as duas últimas localidades já começaram a produzir azeite, com cerca de 20 mil pés plantados – o solo é predominantemente ácido e necessita de permanente correção. Mattos, que assessora oito produtores da Amoliva, no entanto, é especialmente otimista em relação ao futuro da produção de azeite na região. “São propriedades que podem fazer volume e qualidade. Além disso, há um predomínio do turismo, o que agrega valor ao azeite. O plantio, a colheita e cada etapa da produção podem ser atrações turísticas, como ocorre na Itália, Espanha e Portugal”, exemplifica.

Em relação a Visconde de Mauá, onde está a maioria dos associados da Amoliva, pelo menos três deles são do ramo da hotelaria. É interessante observar que a primeira atividade econômica da região foi o carvão, seguido da pecuária de leite e do turismo, não só pela beleza local, como pela mão de obra, que preferiu os serviços de hotelaria ao pesado trabalho de ordenha.

A família de Rudolf Bühler, 74 anos, estava entre os alemães que chegaram a Mauá em 1913, com a proposta de desenvolver frutíferas européias, como a maçã, pêra e pêssego. Se havia frio, faltava solo de qualidade e o jeito foi partir primeiro para a pecuária e depois para a hotelaria. O Hotel Bühler, localizado em Maringá, é um dos mais tradicionais da região. Rudolf adquiriu uma terra perto à Pedra Selada para viver sua aposentadoria e está entre os novos sócios da Amoliva. Em dezembro plantou 500 pés e quer chegar a mil, sem correr o risco de repetir os erros do passado, quando a cultura de frutíferas revelou-se um fiasco. “Estou aqui com muitas perguntas e nenhuma resposta”, anunciou, com simplicidade e disposição.

Ao lado de Cláudio Henrique Dias da Costa, 46 anos, cuja família tem a Pousada Xangrilá, no Vale das Flores, que planeja plantar 500 pés em seu sítio, outro do ramo da hotelaria é Osvaldo Caniato, 63 anos, dono da Pousada Mauá Brasil, uma das mais sofisticadas da região, também presidente da Mauatur. Mais experiente, com 600 mudas plantadas, foi um que arrancou risos dos participantes quando falou de uma tendência à “ejaculação precoce” entre os produtores. “Todos saímos correndo para plantar. Houve quem parou e voltou atrás, até que apareceu o chefe da Embrapa e nos fez chorar com os erros que cometemos, porque ninguém tinha conhecimento técnico”, lembrou.

Caniato aprendeu a importância do permanente acompanhamento do solo, lembrou que cada um plantou um blend – mistura de espécies, sendo a Arbequina (espanhola) a mais cultivada, a Kouroneikie (grega), Grapolo (italiana) e a Maria da Fé (brasileira) as mais usadas na região entre uma variedade de mais de 200 espécies -, e que a Amoliva ainda discute a definição de um blend único para a região. “É um cultivo que requer muita paciência”, pondera o empresário, que conhece muito bem o potencial de Visconde de Mauá, capaz de receber 10 mil turistas em um grande feriado, o que escoaria toda a produção da Amoliva em um único fim de semana.

Cultivo orgânico - Um tema também discutido no encontro foi o cultivo orgânico, adotado pela maioria dos produtores, como o novo associado Celso Guimarães, 69 anos, acadêmico da UFRJ da área de Design, proprietário do sítio que sediou o encontro. Quando ele voltou de um pós-doutorado em Portugal, no ano passado, ainda estava sem saber como explorar seu terreno de 40 hectares, até descobrir que dois vizinhos já cultivavam olivas. Além de visitar as plantações, buscou a assessoria de um engenheiro florestal do Viveiro Pedra Selada, em Rio Preto, que o poupou de cometer erros já praticados por seus pares. Já plantou 400 das mil mudas adquiridas e pretende buscar informações sobre equipamentos para prensar as olivas em uma próxima viagem a Portugal, equipamento que será rateado entre os sócios para criação do lagar (área de produção do azeite) da Amoliva. “Estou fazendo tudo certinho, os pés estão brotando e só preciso de paciência para esperar a hora da prensagem”, diz.

Outro que conhece bem o potencial local é o presidente da Amoliva, Gustavo Donati, 58 anos, que utiliza desde 1993 a Fazenda Rio Preto, com 126 hectares, da família de sua mulher, como área de lazer. Até que um dia viu na Intranet da empresa onde trabalha no Rio de Janeiro informações sobre a olivocultura. Visitou propriedades e no início de 2013 plantou seus primeiros 500 pés de oliveira. Este mês de março vai plantar mais 300. “Aqui na Mantiqueira temos o mesmo microclima de Maria da Fé. Se compararmos a produção de azeite com o gado leiteiro, a garrafa de um litro vai passar de R$ 1 para mais de R$ 100. O solo a gente corrige, o principal é o clima frio. Na Itália, eles falam no Km 0, a comercialização na própria área de produção, sem necessitar de escoamento”. Luiz Eugênio Mattos assina embaixo: “tudo se encaixa com a maneira como está sendo organizada a produção. Haverá volume suficiente para uma demanda crescente”, acredita.

O consumo de azeite continua a crescer no mundo, com uma média per capta de 22 litros por ano, e a Grécia está entre os países de maior consumo. O Brasil ocupa o terceiro lugar entre os maiores importadores mundiais, mas o consumo ainda é incipiente: passou de 40 mililitros per capta para 200 mililitros anuais, ou seja, é um excelente mercado potencial. Por outro lado, um alto percentual do azeite comercializado no país é adulterado. De acordo com Mattos, a adulteração de azeite é a segunda maior máfia do mundo, não apenas misturando o produto a óleos de girassol e canola, como por comercializar um produto como “extra virgem”, que para isso deveria ser fruto de uma primeira prensagem. “O azeite é o suco da azeitona, sem processamentos. O azeite mais novo é o de melhor qualidade. O maior problema continua a ser a criação de uma cartilha técnica, porque se trata de um cultivo muito novo no país. A oliva foi símbolo do império romano e é milenar na Europa, mas aqui no Brasil ainda engatinha”, conclui.





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1 comentário | Comente

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diogo |
Olá, Pelo que entendi Visconde de Maua tem várias vilas https://www.viscondedemaua.blog/visconde-de-maua. Qual vocês sugerem ficar hospedado? Vi que existe uma região chamada Cachoeiras do Alcantilado. Consigo chegar nelas sem carro 4x4? É seguro ir com crianças pequenas? Obrigado!