Atenção

Fechar

Artigos e Estudos

PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 54/ Governança, uma introdução sem fim

Luiz Fernando Bello, Colunista de Plurale

Como conciliar interesses individuais e coletivos? Como conciliar interesses públicos e privados? Perguntas que se repetem há alguns milhares de anos sem respostas de caráter conclusivo. A partir do momento no qual seres humanos se agruparam, tornou-se inevitável estabelecer regras de convívio, com o objetivo de evitar que os conflitos de interesse individuais viessem a inviabilizar a vida em grupo. A morte do adversário ou o roubo de seus bens não poderiam ser a solução para todas as desavenças sob pena de extermínio completo dos seres que, hoje, ocupam todo o planeta e acreditam erroneamente que o dominam.

Em artigo publicado recentemente no jornal Valor Econômico, Delfim Netto expõe com clareza a questão: ”um rápido olhar nos últimos 10 mil anos sugere que as condições de sobrevivência material de grupos mais numerosos exige uma organização social que estimule (pelo incentivo), ou obrigue (pela força), alguma cooperação entre eles, o que deu nascimento às várias formas de “Estado””.

Ao longo dos tempos, foram criadas diversas instituições que regulam e/ou resolvem os conflitos inerentes a vida em sociedade. A força destas instituições se expressa no respeito ao que elas determinam como regra ou como solução. De uma maneira geral, os países mais ricos e desenvolvidos contam com instituições fortes e respeitadas. O esforço de aprimorar a gestão de organizações e direcionar sua ação para o benefício de todos é contínuo e permanente. Neste ambiente e no final do século passado, estabeleceram-se de princípios de governança corporativa, visando conciliar o interesse das organizações e de seus gestores com o interesse coletivo.

Em sua definição clássica, governança corporativa é o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas. Teoricamente, as boas práticas de governança corporativa convertem princípios básicos em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor econômico de longo prazo da organização, facilitando seu acesso a recursos e contribuindo para a qualidade da gestão da organização, sua longevidade e o bem comum.

Os princípios básicos de governança são transparência (disponibilizar para as partes interessadas as informações que sejam de seu interesse e não apenas aquelas impostas por disposições de leis ou regulamentos; equidade ( tratamento justo e isonômico de todos os sócios e demais partes interessadas –stakeholders; accountability (as prestações de contas dos gestores devem ser claras, concisas, compreensíveis e tempestivas, com a administração assumindo integralmente as consequências de seus atos e omissões e atuando com diligência e responsabilidade no âmbito dos seus papeis); e responsabilidade corporativa (os agentes de governança devem zelar pela viabilidade econômico-financeira das organizações, reduzir as externalidades negativas de seus negócios e de suas operações, e aumentar as positivas, levando em consideração, no seu modelo de negócios, os diversos capitais envolvidos - financeiro, intelectual, humano, social, ambiental,etc.

Nos últimos anos, pressionadas pelos acionistas e pela sociedade, cada vez mais empresas e organizações adotaram, vem adotando ou dizem praticar os princípios de governança corporativa. Estão dispendendo recursos humanos e financeiros na elaboração de seus códigos ou manuais de governança corporativa.

A presença do dono (proprietário onipotente - no caso de grandes empresas) já é rara nos Estados Unidos, vem se reduzindo na Europa e começa a minguar no Brasil, conforme as famílias controladoras vão se ampliando, o que torna fundamental a adoção de regras claras de gestão. Afinal, administradores profissionais também têm seus interesses individuais, o que gera novos problemas, como, por exemplo, as remunerações escandalosas de conselheiros e executivos.

Fora isto, a realidade vem conspirando contra o que dizem as empresas e organizações que publicamente afirmam observar princípios de governança. Quais os princípios de governança praticados pelos maiores bancos do mundo ao vender ao público em geral e/ou entesourar títulos de crédito de qualidade duvidosa? Quais princípios foram observados pelas agências de rating que classificaram tais títulos como de baixo risco ou das seguradoras que lastrearam os créditos?

Uma das maiores montadoras de carros desenvolveu sistema para “enganar” equipamentos de aferição de poluentes emitidos por motores a diesel e, paradoxalmente, adota regras de governança tão rigorosas que está com dificuldades para tomar as providências cabíveis à reestruturação necessária para reparar os danos que provocou: sua governança é abrangente a ponto de conceder a representantes dos empregados a metade dos assentos de seu Conselho de Administração. E as medidas necessárias podem gerar desemprego... A Volks acabou de anunciar a demissão de 30 mil empregados!

Sem dúvida, a adoção, a observação, o respeito e a efetiva prática dos princípios de governança corporativa fazem parte da solução do eterno conflito. Mas ainda há muito a fazer para que as organizações em geral saiam da eterna introdução aos princípios de governança e passem a vivê-los.

(*) Luiz Fernando Bello (luizbello1@gmail.com) é Colunista colaborador de Plurale. É economista e sócio-gerente da ABConsultores, empresa que fomenta e busca financiamentos para projetos de inovação e sustentabilidade. Geriu os investimentos do Grupo Sul América e da AIG Brasil. Foi também Superintendente Financeiro e de Captação de Recursos da FINEP e Presidente da FIPECq - Previdência Privada.





Ir para lista de artigos e notícias


Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório

Verificação - digite os caracteres da imagem no campo abaixo *



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!