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São Sebastião e as 7 flechadas

Por Nelson Tucci, Colunista de Plurale

São Sebastião crivado / Nublai minha visão / Na noite da grande / Fogueira desvairada” – Estação Derradeira, de Chico Buarque.

Janeiro começa assim: Massacre em presídio de Manaus deixa 56 mortos. O mundo, estarrecido, assiste a um degradante espetáculo promovido por detentos do Complexo Anísio Jobim, no Amazonas. Flecha 1.

Na semana seguinte, outros 26 presos são mortos – com decapitação, inclusive – na penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte. Nesta última semana, de 16 a 21 de janeiro, assistimos à barbárie explícita, com os presos dando o tom da “orquestra”. Enquanto as TVs filmavam o que podiam do presídio (literalmente) fincado nas areias potiguares e as autoridades competentes decidindo se entravam ou não nos domínios do crime organizado, outros tantos foram executados. Até o fechamento deste artigo não se sabiam quantos (o chute variava entre 2 e 10) mais tinham morrido; e a rebelião continuava. Flecha 2.

Especialistas de tudo quanto é lugar aparecem nessas horas. Um deles, na TV Gazeta, chegou a afiançar que existem hoje no país mais de duas dezenas de facções tocando o terror por aí. A jornalista Maria Lydia, que o entrevistava, estimou em 27. Digamos que a margem de erro possa ser considerada com 3 pontos percentuais para cima ou para baixo... Neste mesmo Brasil existem hoje 35 partidos políticos registrados. Ou seja, numericamente a coisa está muito próxima. Flecha 3.

Os números não são exatos pra quase nada nessa área, por isso a ministra Cármen Lúcia – que preside o Supremo Tribunal Federal – tem projeto para realização do censo carcerário no país. O custo (estimado em R$ 18 milhões) pode ser um impeditivo, mas a ideia está posta. “Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por MÊS (grifo nosso) e um estudante do ensino médio custa R$ 2,2 mil por ANO. Alguma coisa está errada na nossa Pátria amada”, disse ela, em novembro último.

Calcula-se (com base no censo anterior), que existam mais de 640 mil presos no país (3,7% dos quais mulheres), dos quais 67% seriam negros/pardos e, do total geral, 53% com o curso fundamental incompleto. Atrás de Estados Unidos (2,2 milhões), China (1,6 milhão) e Rússia (680 mil), o Brasil é o quarto país no mundo com mais presos. Flecha 4.


Em 1993 eu entrevistei para a extinta Revista Visão (grupo Maksoud e depois DCI) Walter Fanganiello Maierovitch. À época juiz de Direito e bem depois desembargador do TJ de São Paulo e secretário nacional antidrogas da Presidência da República. Simpático ao falar, conhecia bem a situação criminal na Itália, através de estudos e intercâmbios. Maierovitch bateu muito na questão do “estado paralelo” e lançou vários alertas. Nesse período ouvia-se falar, muito raramente, em uma ou duas facções e assim mesmo praticamente restritas ao estado do Rio. Ele estudava e fazia analogias com o modus operandi da histórica máfia italiana já naquela época. E se mostrava incomodado com a falta de firmeza das autoridades brasileiras para se matar a coisa ruim no nascedouro. De lá para cá se passaram 24 anos e muita gente achava que a pior coisa que acontecia era o Sebastião Lazaroni dirigir a seleção canarinho. Flecha 5.

O sistema prisional tupiniquim está botando gente pelo ladrão. Faltam vagas e sobram candidatos. Há quem veja na construção de novos cárceres a resolução dos problemas. Flecha 6.

Morreu o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF, mas o processo deverá continuar, com delações, apurações e, talvez, novas prisões. O país aguarda, ansioso, por novas revelações e espera enxergar o fim dessa “operação limpeza” em algum momento. Já o investidor internacional fica acabrunhado em investidor seu dinheiro na turbulência. Como o país não tem poupança interna, depende da grana dos gringos, que por sua vez dependem do andar da carruagem nestas verdejantes – e não raras pantanosas – paisagens. Enquanto não sabem quem está no controle, lá vem mais uma flecha. A de número 7.

E à turminha aqui do andar de baixo resta rezar para São Sebastião – aquele mesmo, patrono do Rio de Janeiro e que inspirou o nome de Lazaroni que, por sua vez, antecedeu o Felipão dos 7x1.

Glorioso mártir São Sebastião, protegei-nos contra a peste (da febre amarela, da dengue e da chikungunya), a fome (de emprego de quase 13 milhões de trabalhadores) e a guerra (das facções, dentro e fora dos Presídios e Prostíbulos); defendei as nossas plantações e os nossos rebanhos, que são dons de Deus para o nosso bem e para o bem de todos. E defendei-nos do pecado (da corrupção), que é o maior de todos os males”.

No sincretismo, vamos de Okê! Okê Arô! Oxóssi. Salve o Grande Caçador !





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8 comentários | Comente

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Dra. Samira Wakim |
Totalmente demais. Triste ver um país em total decadência mais e mais. Terra que tudo tem e tudo dá, mas a corrupção e os desmandos dos que comandam esta terra destroem com destreza o que poderia ser, por excelência, o melhor país para se viver. Estamos a mercê e vulneráveis a tantos absurdos. O que será de nós, quem será por nós? Só Deus, Ele tentou enviando seu Filho, mas foi em vão na época até os dias atuais. Continua tentando, enviando guerreiros como Sebastião e Jorge e muitos outros. Vamos gritar pelos Orixás e todos os Santos para estarem a nossa frente nesta guera sem fim. Um grande abraço meu querido amigo.

Waldemar Pluschkat Neto |
A natureza tem horror ao vácuo! O Estado criou o vácuo e o crime ocupou. Construir mais presídios não é a solução, mas parte da solução. Temos a quarta população carcerária, mas somos a quinta população mundial, ou seja, não há nada de errado em estar em quarto lugar, posto que, proporcionalmente prendemos menos gente que o Uruguai. O problema principal da criminalidade é impunidade. Na verdade aqui no Brasil pune-se pouco e mal.

Josemar Gomes da Silva |
Ótimo texto, análise perfeita. Parabéns.

Sônia Martinêz |
E só estamos em janeiro!!!! Parabénsss pelo texto!

Darcy Grillo di Franco |
A flecha de Oxóssi é certeira, este artigo também. Infelizmente, só resta rezar e pedir para Oxóssi interceder por nós ,nesse caos em que estamos mergulhados.

Tiago Recaman |
Ótimo texto, comparativo perfeito, e ficamos a deriva indo para onde o vento levar.

Marco Panza |
Uma flechada certeira na dura realidade do País. Muito bom!!!

Luiz Gaulia |
“Um preso no Brasil custa R$ 2,4 mil por mês e um estudante do ensino médio custa R$ 2,2 mil por ANO. Alguma coisa está errada na nossa Pátria amada”, disse Carmen Lúcia. Correto. Qual o projeto de país que temos? Vencer a próxima eleição? Carmen Lúcia deverá em breve substituir Temer e conduzir o país para as eleições de 2018. Que escolhamos bons candidatos, sem populismo barato e com uma mínimo de vergonha na cara. De qualquer forma é interessante e "alarmante" saber que a população carcerária cresceu muito nos últimos quinze anos. Ou seja, para pensarmos: as políticas sociais assistencialistas não deram conta? Enfim, belo artigo, mas teremos mais flechadas neste 2017... e infelizmente, mais violência após a prisão do grande chefe. Abs.