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PLURALE EM REVISTA, ED 55 / O empreendedorismo social é um negócio

Por Marcus Quintella, Colunista de Plurale

O Empreendedorismo Social pode ser definido como o conjunto de ações empreendedoras que visam a melhoria da sociedade e, ao mesmo tempo, proporcionam lucro financeiro. Em outras palavras, Empreendedorismo Social significa um negócio lucrativo, que, ao mesmo tempo, traz desenvolvimento social. Diferentemente das organizações não governamentais (ONGs), das organizações da sociedade civil de interesse público (OSCIPs) e das empresas tradicionais, as empresas verdadeiramente sociais utilizam mecanismos de mercado para buscar soluções de problemas sociais, por meio de suas atividades principais, sem depender de doações e patrocínios. Essas empresas sociais geram receitas pela venda de seus produtos e serviços, com objetivos claros de autossustentação financeira e de ajuda às pessoas.

Alguns sociólogos e economistas enquadram os empreendimentos sociais em posição situada entre o segundo e o terceiro setores, ou seja, entre as atividades empresariais e as atividades sem fins lucrativos. Seria como o setor “dois e meio”, lembrando que o primeiro setor engloba as atividades estatais. Naturalmente, essa nomenclatura não é consensual e muitas organizações e empresas promotoras de bem-estar social não fazem separação entre negócios lucrativos ou aqueles sem fins lucrativos.

O termo Empreendedor Social foi cunhado por Bill Drayton, fundador e presidente da Ashoka (ashoka.org.br), ao perceber a existência de indivíduos que combinam pragmatismo, compromisso com resultados e visão de futuro para realizar profundas transformações sociais. A Ashoka é uma organização mundial, sem fins lucrativos, pioneira no campo da inovação social, trabalho e apoio aos empreendedores sociais – pessoas com ideias criativas e inovadoras capazes de provocar transformações com amplo impacto social. A Ashoka está presente em mais de 60 países e foi criada na Índia, em 1980. Os empreendedores sociais da Ashoka fazem parte de uma rede mundial de intercâmbio de informações, colaboração e disseminação de projetos, composta, atualmente, por mais de 3.500 empreendedores localizados em diversos países. No Brasil, essa rede é composta por cerca de 320 empreendedores sociais, em todas as regiões do país.

Os empreendimentos sociais estão presentes em vários setores econômicos e oferecem produtos e serviços de qualidade à população, bem como ajudam no combate à pobreza, além de serem economicamente rentáveis. Esses tipos de negócio têm como objetivos sociais a inclusão social, a geração de renda e a qualidade de vida da população e pautam suas estratégias em valores sustentáveis. Diversas instituições têm colaborado para a conceituação e fomento desse novo modelo de negócio. Além da Ashoka, a Artemisia (www.artemisia.org.br) e a Fundação Schwab (www.schwabfound.org), responsável pelo prêmio Empreendedor Social no Brasil, são importantes entidades que apoiam e estimulam o desenvolvimento de negócios sociais.

A revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios, de maio de 2013, apresentou os negócios sociais como tema de sua reportagem de capa e mostrou uma tabela com as principais diferenças entre os tipos, as motivações e as formas de distribuição dos lucros de sete tipos de negócios sociais (http://revistapegn.globo.com/Revista/Common). Outra dica é o filme Quem se Importa (www.quemseimporta.com.br), que, na verdade, é um verdadeiro movimento em prol do empreendedorismo social, que inspira as pessoas a serem transformadoras. Esse movimento intitula-se como uma plataforma de divulgação do Empreendedorismo Social, que pretende ajudar a divulgar a mensagem do filme para escolas, empresas, redes sociais e quaisquer pessoas interessadas em potencializar o seu próprio poder de transformação.

Pesquisando na Internet, encontrei no site Meu Sucesso (https://meusucesso.com) alguns casos de empreendedorismo social, com objetivos claros de ajuda aos seres humanos e ao ambiente, bem como de alavancagem de transformações positivas na sociedade brasileira. Um dos casos mais interessantes foi a iniciativa do oncologista pediátrico Antonio Sergio Petrilli, que, em 1991, criou a organização Graacc (www.graacc.org.br), e, desde então, vem ajudando a combater o câncer infantil no Brasil. A Graacc já tratou mais de 5 mil pacientes, com uma taxa de cura em torno de 70%, graças a uma gestão empresarial competente, cujo atendimento envolve pesquisadores de universidades, a iniciativa privada e a sociedade.

Outro caso de sucesso é o projeto Jovens Falcões (www.jovensfalcoes.com.br), criado por Eduardo Lyra, nascido na periferia de São Paulo, que resolveu a trabalhar para proporcionar melhorias na vida de crianças que tiveram as mesmas dificuldades que enfrentou na infância. O projeto Jovens Falcões vem influenciando a vida de 30 mil estudantes por meio das ações do projeto, cujo objetivo principal é promover o protagonismo dos jovens na transformação da sociedade.

O blog Conta Azul (https://blog.contaazul.com) menciona a TOMS Shoes, empresa referência mundial em empreendedorismo social, criada pelo americano Blake Mycoskie, em 2006, durante uma viagem à Argentina, onde observou crianças pobres crescendo descalças, sem acesso a sapatos. Considerada inovadora, a proposta da TOMS Shoes é a seguinte: a cada par de calçados vendido pela empresa, um novo par é doado para crianças de baixa renda. Com isso, os calçados modernos, com design arrojado, são sucesso de venda e, até hoje, mais de 60 milhões de pares já foram doados, tornando a TOMS Shoes um caso de sucesso comercial, que proporciona grande contribuição para comunidades de baixa renda.

Outro caso citado pelo blog Conta Azul é o da empresa brasileira Geo Energética, que desenvolveu uma fonte de energia inovadora e sustentável a partir do biogás, obtido em um processo biotecnológico, pelo reaproveitamento de resíduos da agroindústria sucroalcooleira. Produzido em escala industrial, esse biogás serve como fonte elétrica renovável ou produz biometano, substituindo o óleo diesel. Trata-se de uma relevante proposta social de tecnologia limpa, que é vendida no mercado livre e encontra-se integrada à rede do Operador Nacional do Sistema (ONS), trazendo grandes benefícios ambientais.

Além dos casos acima, gostei muito de um artigo capturado no site da INC Empreendedor (www.incorporativa.com.br), de autoria do prof. Gledson Magalhães, no qual existem recomendações de procedimentos a serem colocados em prática pela empresa que deseja ser reconhecida como socialmente responsável, e que, para atingir esse objetivo, precisa promover mudanças radicais em sua cultura empresarial e nas atitudes de seus líderes em relação aos colaboradores da empresa. Em resumo, essas recomendações são as seguintes: (a) alinhar os salários em relação ao mercado, se possível, um pouco acima da média; (b) praticar preços de venda justos e adequados ao poder de compra do público-alvo; (c) controlar os estoques e comprar o suficiente para um determinado período, de forma a não agredir o meio ambiente; (e) ser responsável por uma praça ou parque na região, para proporcionar preservação do meio ambiente e oferecer lazer para a sociedade; (f) comprar matérias-primas com certificações ambientais; (g) participar de ações comunitárias na região, gerando benefícios sociais; (h) utilizar cada vez mais energia renovável; (i) abolir o uso de plásticos e utilizar embalagens recicláveis.

Entendo que seria um grande avanço para a sociedade brasileira se os seus milhões de empreendedores entendessem a importância da prática da responsabilidade social e mudassem suas atitudes duras, frias e obsessivas pelo lucro a qualquer preço, para, então, conseguirem resultados ainda mais positivos, de forma justa, limpa e humanitária, da mesma forma que os casos citados acima.

Hoje, vivemos inseridos em um mercado altamente competitivo, em que os consumidores não conseguem perceber as diferenças entre os produtos e serviços oferecidos pelas empresas, em virtude da semelhança de qualidade, preço e condições de pagamento, e, dessa forma, consomem sem saber a razão de suas escolhas. Entretanto, cada vez mais, as pessoas estão preocupadas com aquilo que consomem e passaram a dar mais valor às empresas que praticam a responsabilidade social.

No Brasil, o candidato a empreendedor social pode recorrer ao SEBRAE, que tem o propósito de apoiar e disseminar os conceitos desse tema, bem como capacitar os empreendedores a lidar com a gestão de negócios sociais. Assim como ocorre com o empreendedorismo tradicional, o negócio social precisa de estudo, pesquisa e preparo por parte do empreendedor. Para isso, o SEBRAE possui cursos, capacitações, consultorias e informações técnicas. Confira no seguinte site: http://www.sebrae.com.br/momento/quero-abrir-um-negocio/negocios-sociais/sebrae-nos-negocios-sociais. Agora, que você já conhece o Empreendedorismo Social, pesquise mais sobre o tema e considere a possibilidade de entrar nesse negócio, ou mesmo transformar a sua empresa em uma empresa reconhecida como socialmente responsável. Ganhe dinheiro e ajude o próximo e o ambiente.

(*) Marcus Quintella (mvqc@uol.com.br) é Colunista de Plurale, colaborando com artigos sobre Mobilidade. É Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, mestre em Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia, considerado um dos principais especialistas em transportes urbanos. Professor da FGV e do IME.





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