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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 56 / José Carreras, uma voz pela arte e pela esperança

Uma das vozes mais importantes do planeta faz este ano sua última turnê pela América Latina, que inclui quatro concertos no Brasil. Mas José Carreras vai muito além dos palcos quando se trata de solidariedade: à frente da Fundação que leva seu nome, tornou-se um dos maiores símbolos mundiais da luta contra a leucemia

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

De Barra Mansa, RJ

Fotos do Arquivo Pessoal de Guida De Finis e Divulgação/ José Carreras

Desde 1988, o tenor José Carreras se divide entre os mais importantes palcos da ópera no mundo e os hospitais, instituições, centros de diagnóstico e casas de apoio a pacientes de leucemia. Viver essas duas vidas em uma foi uma escolha consciente e inabalável. Ao fazê-la, Carreras sabia perfeitamente que, muito além da arte, teria um papel decisivo e transformador na luta contra a doença da qual se curou, por meio de um transplante de medula óssea realizado em Seattle, EUA.

Julho de 1988: o centro de Barcelona está tomado por uma multidão enorme, que aguarda o concerto mais esperado do ano. Ali, no coração da cidade, José Carreras celebra a vida e lança a Fundação Internacional José Carreras para a Luta contra a Leucemia, dedicada a pesquisas científicas, treinamento e capacitação de profissionais da área médica em prol da cura da doença. O objetivo, expresso em sua missão, é conseguir que a leucemia, algum dia, seja uma doença 100% curável, para todos e em todos os casos.

Hoje, a Fundação Carreras é uma das maiores entidades beneficentes privadas do mundo, com sedes em Barcelona, Seattle, Genebra e Munique. No próximo ano, a Fundação comemora seus 30 anos com um trabalho de peso, que tem feito toda a diferença na busca incansável da cura da doença em termos mundiais: além de manter um dos mais importantes Bancos de Doadores de medula óssea, a entidade também mantém o Banco de Cordão Umbilical e desenvolve pesquisas científicas em várias frentes.

Vidas transformadas

É 7 de julho de 1990, véspera da final da Copa do Mundo na Itália. Vejo, num intervalo comercial, que uma emissora de TV brasileira vai transmitir, ao vivo, um inusitado concerto nas Termas de Caracalla, para comemorar o encerramento da competição: Os Três Tenores, com Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e José Carreras. A regência é do heróico Zubin Mehta, à frente de duas orquestras: Maggio Musicale Fiorentino e Orquestra do Teatro da Ópera de Roma.

À hora combinada – e era bem tarde, por causa do fuso horário – me posto diante da TV e sou contagiada por toda aquela atmosfera – as ruínas iluminadas, a noite do mais negro azul, a música se desenhando no ar, com os acordes variados da afinação das orquestras, a partir do tom dado pelo spalla, e a entrada triunfal do mágico e sempre confiante Zubin Mehta.

Logo em seguida, José Carreras sobe ao palco - e o mundo se desfoca para mim. Só, singelo, pequeno e suave em sua beleza aparentemente fragilizada, domina inteiramente a cena com uma profunda delicadeza ao cantar o Lamento di Federico, da ópera L’Arlesienne, de Francesco Cilea.

Aquele Carreras estava diferente de tudo aquilo que eu já vira. Magro, muito magro sim, mas potente, como se uma força infinita saísse de dentro dele e obscurecesse todo o resto.

Daí por diante os tenores se alternariam naquele que se tornaria um marco no mundo dos espetáculos e que seria repetido inúmeras vezes mundo afora. Árias conhecidas, como Recondita Armonia e E lucevan le stelle, da Tosca de Puccini; canções napolitanas vivas na memória de todos, como Core ‘ngrato e O Sole Mio; trechos de zarzuelas, como No puede ser, de..., e muito mais. Quase todo mundo viu, adorou e repetiu a dose. Milhares de jovens se viram atraídos para o mundo da ópera a partir daquele dia, no mundo inteiro. E Os Três Tenores viraram um fenômeno de mídia.

Para mim, contudo, o que ficou e marcou mais fortemente foi a imagem de José Carreras, tão diferente do exuberante e talentoso artista que conquistara o mundo anos antes. Não nego minha ignorância: só depois desse dia é que fui investigar e descobri, atônita, que Carreras se curara de uma leucemia há menos de um ano, e que o concerto, em princípio, tinha o objetivo de celebrar seu retorno aos palcos e de angariar fundos para a fundação que o tenor acabara de fundar, entre outras benemerências.

Mas aquele foi um momento de virada para mim, que passei a me interessar vivamente por aquela “segunda vida” de Carreras. A partir daí, aprofundei-me em sua obra artística e em sua bem-sucedida epopeia solidária, à frente da Fundação. Conhecemo-nos em 1991, na Argentina e, desde então, acompanho essa nobre saga, que tem desdobramentos importantes aqui no Brasil.

Guida De Finis: um nome para guardar, quando o assunto é medula óssea

Guida De Finis (na foto com o Tenor José Carreras e a jornalista Maurette Brandt) era uma das centenas de pessoas que se aglomeravam no estacionamento coberto do InCA, durante a visita de José Carreras à instituição, em março de 1996. Discreta e elegante, aguardava o momento de ver pessoalmente o tenor que a inspirara, seis anos antes, a mudar radicalmente sua vida e se engajar na luta contra a leucemia.

Em meio ao empurra-empurra e sob os olhos vigilantes de três seguranças alemães, José Carreras chegou ao local. Guida guardava uma respeitosa distância quando, do nada, um dos seguranças do tenor passou o braço em torno dela e a puxou gentilmente para um círculo privilegiado, bem ao lado de Carreras.

- Para mim, foi a mão de um anjo – relembra a voluntária que em poucos anos conseguiu reunir, em torno de si, uma respeitável rede de voluntários que atua em várias frentes, não apenas em medula óssea mas junto à ABTO – Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos e várias outras instituições ligadas ao universo dos transplantes e seus pacientes.

- Foi a experiência de ver o Carreras ali naquele palco em Caracalla, pequeno, humano e ao mesmo tempo tão grande, que me fez acreditar que eu poderia e iria fazer alguma coisa para ajudar os pacientes – conta.

Guida e eu nos aproximamos naquele mesmo dia e começamos a desenvolver uma colaboração interessante. Eu, jornalista, escrevia; ela, mais atuante no dia a dia, divulgava as principais informações em sua rede e em seus círculos de atuação. Nesses vinte e poucos anos, aproveitamos todas as oportunidades possíveis para divulgar campanhas de doação, eventos para transplantados e, sobretudo, o trabalho do REDOME, que hoje é um órgão federal e motivo de justo orgulho para todos os brasileiros.

REDOME , presença e esperança no Brasil e no mundo

Fundado em 1993 no Hospital das Clínicas, sob a égide do Governo de São Paulo, o REDOME - Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea - chegou a ser fechado em 1997.

Não havia um apoio real, consistente e efetivo - conta Guida. – E naquela época havia poucos registros importantes no mundo: na prática, era o Bone Marrow Donors Worldwide/BMDW, dos EUA, o REDMO, da Fundação José Carreras; o ZKRD, da Alemanha, e só. Então, pra nós, perder o pouco que tínhamos, com o fechamento do REDOME, foi um duro golpe – relata. – Mas a luta para reabri-lo começou quase que imediatamente - acrescenta.

A tão sonhada reabertura só viria a ocorrer em 2000, desta vez como órgão subordinado diretamente ao Ministério da Saúde. A partir daí, o REDOME estabeleceu convênios com hemocentros de todo o país e passou a oferecer gratuidade nos exames básicos para verificar compatibilidade de familiares e não aparentados.

- A partir de 2000, quando foi reaberto pelo Ministério da Saúde, que o REDOME ganhou força, cresceu muito e se tornou não só o terceiro maior registro do mundo, mas o também o primeiro em diversidade – orgulha-se Guida.

Ao REDOME se somou o REREME – Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea, cadastro geral de pacientes em busca de compatibilidade, que tem abrangência internacional. O REDOME também criou e passou a gerir uma forte rede de bancos de cordão umbilical, espalhados pelo país inteiro.

- O cordão umbilical é a fonte mais pura para o transplante de medula óssea – esclarece Guida De Finis. – O mais importante é que os cordões umbilicais já estão prontos para ser usados, sem a necessidade de se buscar doadores. Mesmo com as restrições relativas ao peso do paciente a ser transplantado – é ideal para crianças ou adultos de compleição mais franzina – o cordão umbilical pode ser usado imediatamente e tem um índice de rejeição bem menor do que quando se transplanta a medula de um doador.

A diversidade racial é um ativo importante para o Registro, pois amplia muito as possibilidades de se conseguir doadores “não aparentados”, ou seja, pessoas fora da família do paciente. - Em menos de 20 anos, o REDOME está entre os registros mais importantes do mundo e colabora muito com eles – relata Guida. – E já viabilizou, com sucesso, 2145 transplantes entre não aparentados! Este é um número incrível, um resultado espetacular mesmo.

No entanto, apesar de sua forte atuação e dos resultados que vem alcançando, o REDOME ainda não é muito conhecido pelos brasileiros, de modo geral.

Esta é uma falha grave – aponta Guida. – Afinal, é um serviço gratuito avançadíssimo, e ter acesso a ele é um direito de todos os brasileiros. A gente tem o dever de divulgar isso melhor.

O REDOME comunica regularmente seus resultados e promove campanhas para ampliar o número de doadores de medula óssea. E tem uma madrinha de peso: a atriz Cissa Guimarães. Além dela, outras celebridades - como a atriz Drica Moraes, que também se curou de uma leucemia após um transplante – têm participado de campanhas da instituição.

Com mais de 4, 26 milhões de doadores castrados e a meta de conseguir outros 250 mil só este ano, o REDOME busca avançar na miscigenação e obter mais doadores nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Estender sua abrangência além das nossas fronteiras é outra meta importante.

- É importante priorizarmos doadores com características genéticas que hoje não têm tanta representatividade no registro – observa o Dr. Luís Fernando Bouzas.

- Como hoje a maioria dos doadores cadastrados é das regiões Sudeste e Sul, há predominância da raça branca. Desejamos intensificar também os esforços nas regiões de fronteira, de modo a incluir os indígenas brasileiros e também os países vizinhos, pois o REDOME pode auxiliar muito nas buscas de doadores na América Latina – informa.

Os jovens entre 18 e 30 anos são outra prioridade. – Além dos transplantes terem mais chances de sucesso com doadores dessa faixa etária, eles permanecem no cadastro por mais tempo, já que a idade-limite para doar é 60 anos – lembra o Dr. Bouzas.

Para ser um doador, o indivíduo deve ter entre 18 e 55 anos e gozar de boa saúde. – Para se cadastrar, basta procurar o hemocentro da cidade onde mora – informa o coordenador. – O processo é gratuito e indolor.

Carreras vem aí em maio: será mesmo a última vez?

A turnê “A Life In Music”, com a qual Carreras pretende encerrar sua carreira nos palcos, está em cartaz há três anos e chega à América Latina em menos de dois meses. Entre o final de maio e o início de junho deste ano, estão agendados concertos no Brasil (Rio, São Paulo e Fortaleza), na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. Os ingressos já estão à venda.

- Esse negócio de “última turnê” tem um gostinho de despedida, mas ao mesmo tempo é motivo de celebração de uma vida inteira dedicada à música – observa Guida De Finis. - Mas não tem como a gente separar a música de Carreras da luta contra a leucemia, que é a causa da vida deste grande artista. Meu sonho sempre foi associar a presença de José Carreras, que mudou minha vida e meu modo de pensar, a uma grande campanha que mude e transforme outras vidas aqui no Brasil – revela. – Queremos muito que a marca da passagem de José Carreras por aqui, este ano, possa unir a sua música e a sua obra solidária em eventos que toquem o coração do brasileiro – completa.

É minha hora de sorrir. Não que a posição de repórter me impeça de sonhar; ao lado de Guida, vivi momentos inesquecíveis na esfera da solidariedade, em concertos do tenor. A homenagem feita em telões nos concertos de 2010, no momento em que Carreras cantava “Aquarela do Brasil”, não me sai da memória – assim como o momento em que, juntas, Guida e eu entregamos a ele uma caixa feita à mão com centenas de origamis contendo mensagens destinadas a pacientes de leucemia na Espanha.

Como será se pudermos, de alguma forma, lançar mais luz sobre o papel e a importância do REDOME / REREME com uma grande campanha solidária durante a turnê de José Carreras, que está batendo à porta, já no final de maio? Conseguiremos nós, com a força de um sonho, reunir parceiros que comunguem de nossas esperanças – uma poderosa rede de comunicação, agências de publicidade, empresas patrocinadoras – para mostrar ao país inteiro tudo aquilo que, juntos, podemos fazer para garantir aos pacientes de leucemia chances maiores de superar a doença, por meio do trabalho de um órgão como o REDOME, que já existe e funciona aqui no Brasil?

Que venham os parceiros, pois o sonho já está em ação!





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