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EXCLUSIVO / Mudanças climáticas – a humanidade em crise/ Por Carlos Rittl

O maior desafio da Humanidade não tem fronteiras

De São Paulo

Já faz tempo que as “Mudanças Climáticas” deixaram de ser um tema extravagante de ecologistas que eram vistos como catastrofistas. Além de ganhar os palanques eleitorais e programas de governo, a questão inspira grande número de documentários. A 6ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, que se realiza de 1º a 14 de junho em São Paulo, selecionou um recorte das melhores produções recentes realizadas no mundo todo. Quem faz a apresentação dos filmes para o catálogo da Mostra é o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, num texto que Plurale reproduz, com exclusividade.

Mudanças climáticas – a humanidade em crise

O maior desafio da Humanidade não tem fronteiras

Por Carlos Rittl (*)

Em 2015, duas semanas antes do início da COP21, que selou o Acordo de Paris, líderes do G20 estiveram reunidos em Antalya, na Turquia, em seu encontro anual. Em uma resposta à mobilização e expectativa globais crescentes por um grande acordo climático rumo à Conferência de Paris, a declaração conjunta ao final da reunião afirmava que “as mudanças climáticas são um dos maiores desafios de nosso tempo”. De fato, as mudanças climáticas não são apenas um dos maiores desafios de nosso tempo. São inequivocamente o maior desafio da humanidade no século XXI.

O Acordo de Paris definiu o objetivo de limitar o aquecimento global bem abaixo dos 2°C em relação a níveis pré-industriais até o fim deste século, e empreender esforços para o que o aumento não ultrapasse 1,5°C. No ano de 2016, o mais quente já registrado, ultrapassamos 1°C de elevação da temperatura média da Terra. Acima de 1,5°C, a elevação potencial do nível do mar coloca em grave risco a sobrevivência de nações inteiras, como pequenas ilhas dos Pacífico. Mas somadas todas as metas de cortes de emissões de gases de efeito estufa assumidas pelos países antes da aprovação do Acordo de Paris, chegaríamos a 2100 com pelo menos 3°C.

As consequências do aquecimento global já observado são muito severos severas. De acordo com o Fundo Global para Redução de Desastres e Recuperação (GFDRR), o impacto dos desastres naturais ligados ao clima equivalem a uma perda anual de mais de US$ 500 bilhões em consumo[1]. E, principalmente, representam um enorme retrocesso contra os esforços globais de redução de desigualdades, pois forçam cerca de 26 milhões de pessoas em direção à pobreza a cada ano.

Caso não encaremos a crise climática com urgência, prioridade e responsabilidade proporcionais ao nível da emergência atual, nós e as futuras gerações vamos, todos, testemunhar impactos muito mais graves, crescentes, generalizados e irreversíveis. Mas o pior de tudo terá sido saber que poderíamos ter evitado suas maiores consequências.

O quinto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas – IPCC[2] trouxe três importantes mensagens: não há dúvidas de que as mudanças climáticas são provocadas pela ações humanas e já provocam impactos perigosos em todo o mundo; se a comunidade internacional agir agora, o aquecimento global ainda pode ser mantido abaixo de 2°C; a capacidade de assegurar um futuro seguro para o clima não só é possível, mas também é economicamente viável.

O estudo mais recente publicado pela Comissão Global para a Economia e o Clima, que congrega ex-chefes de estado, ministros e especialistas em economia, negócios e finanças, chamado The Sustainable Infrastructure Imperative[3], conclui que temos uma oportunidade histórica para promover o crescimento econômico inclusivo, eliminar a pobreza e reduzir o risco de mudança climática. Mudanças transformadoras são necessárias na forma como construímos nossas cidades, produzimos e usamos energia, transportamos pessoas e bens e administramos nossas paisagens. A tarefa exige mudança radical no rumos dos investimentos globais em infraestrutura tradicional (energia, transportes, construções, água, saneamento etc.) e infraestrutura natural (paisagens florestais, zonas úmidas, proteção de bacias hidrográficas etc.). Segundo a Comissão, serão necessários investimentos da ordem de US$ 90 trilhões em 15 anos, sendo que 2/3 teriam de ser feitos em países em desenvolvimento.

No Brasil, dois estudos coordenados por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)[4] também são muito claros em suas conclusões: a redução das emissões de gases de efeito estufa é boa para o clima e para a economia do Brasil.

A 6a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental foi muito feliz na seleção de filmes sobre mudanças climáticas. São quatro ótimos documentários, que retratam o assunto sob aspectos distintos e complementares.

A Era das Consequências, de Jared P. Scott, foi produzido quando ainda tínhamos os Estados Unidos empenhados no diálogo para o enfrentamento do aquecimento global, sob a gestão do ex-presidente Barack Obama. O documentário entra em território pouco abordado no debate geral sobre mudanças climáticas ao expor a conexão entre mudanças climáticas e segurança, sob uma perspectiva militar americana. Demonstra de forma muito objetiva o papel das mudanças climáticas como acelerador de conflitos em ambientes de instabilidade social ou pobreza extrema, como na Síria, Oriente Médio e leste da África. Mostra a contribuição do aquecimento global no surgimento de grupos como o Estado Islâmico e o Boko Haram, e na onda migratória maciça de pessoas fugindo dos conflitos e/ou da miséria daquelas regiões para a Europa.

Scott levanta questões de extrema relevância e que hoje não fazem parte do debate geral sobre o presente e o futuro do clima do planeta: estamos preparados para lidar com múltiplos desastres, de grandes dimensões, ao mesmo tempo? O que acontecerá em um quadro em que centenas de milhões de pessoas tornam-se refugiados climáticos, como potencialmente pode acontecer com grande parte da população de Bangladesh?

No contexto atual, com Trump na Casa Branca e uma onda nacionalista radical em diferentes regiões do mundo, devemos ver um cenário de maior instabilidade e insegurança, com muros sendo erguidos para separar países e uma escalada militar crescente para defender interesses e fronteiras nacionais. Mas a crise climática não dá a mínima para o negacionismo do governo americano e também não reconhece fronteiras. Nem mesmo com a “mãe de todas as bombas”, usada por Trump em ataque recente, acabaremos com o aquecimento global.

É muito importante, portanto, que o debate sobre mudanças climáticas incorpore questões relacionadas à segurança nacional e global. Se feito com o equilíbrio que falta ao mundo neste momento, o resultado pode ser o necessário aumento da ambição climática global e do sentido de urgência e o fortalecimento do multilateralismo para evitarmos impactos crescentes e conflitos mais graves.

O filme Furacão – A Odisseia do Vento, dirigido por Cyril Barbançon, Andy Byatt e Jacqueline Farmer, narra a saga de Lucy, tempestade que se forma na costa oeste da África, atravessa o Oceano Atlântico, se transforma em furacão e atinge Porto Rico, Cuba e os Estados Unidos. Sua fotografia bela e impactante traz imagens de Lucy a partir da Estação Espacial Internacional, imagens durante a tempestade e ventos nas cidades, florestas e áreas costeiras e após o fim do evento.

Por vezes, a narrativa adquire tons líricos e é feita em primeira pessoa, pelo próprio vento que “controla o destino de todos por cujo caminho cruza”. Em outros momentos, os protagonistas são os cientistas, que monitoram o fenômeno 24h por dia tentando, angustiados, antever por onde e com que intensidade o furacão irá passar, a fim de evacuar as áreas de risco e prevenir perdas de vidas humanas. A imprevisibilidade dos impactos mostra nossa imensa vulnerabilidade e a superioridade implacável da natureza sobre nós. Em outros momentos, são as vítimas que assumem o papel principal, nos escombros de suas casas destruídas por Lucy. E mesmo em meio ao caos, alguns tentam encontrar uma perspectiva positiva diante da catástrofe: a natureza que se renova após a tempestade e pessoas que se sentem fortalecidas, pois se foram capazes de suportar este furacão, podem, também, superar o próximo. É preciso ter esperança.

Samuel Entre as Nuvens, de Pieter Van Eecke, é um lindo documentário sobre a história de um senhor (Samuel) que trabalha há muito tempo recebendo turistas e esquiadores na estação de esqui mais alta do mundo, em Chacaltaya (5.421 m de altitude), montanha próxima a La Paz, na Bolívia. Samuel é testemunha e vítima do efeito crescente do aquecimento global sobre as grandes massas de gelo do planeta. A montanha foi perdendo sua neve eterna e o pouco que sobra não sustenta mais a atividade turística de anos anteriores. Ele continua subindo a montanha para trabalhar, com a esperança de que em alguns anos a neve volte e junto traga os turistas. Mas cientistas que trabalham na região trazem a difícil mensagem de que o aquecimento global terá efeitos por muito tempo e a neve em Chacaltaya não voltará a ser como antes. Mesmo diante desse choque de realidade, Samuel se recusa a deixar a montanha. Chacaltaya é sua vida.

Este filme me tocou pessoalmente. Visitei Chacaltaya em 1995 e foi lá onde, pela primeira vez, ouvi cidadãos comuns falando sobre os impactos do aquecimento global em suas vidas. Guias de turismo e trabalhadores da estação de esqui já notavam a redução significativa das massas de gelo da montanha e temiam que o aquecimento global, em algum dia no futuro, deixasse tão pouca neve que a estação pudesse fechar. De fato, a estação de esqui fechou suas portas em 2007 e hoje, além de Samuel, alguns equipamentos enferrujados recebem os poucos turistas que sobem a montanha.

Segundo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a Bolívia é responsável por apenas 0,12% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa[5], ou seja, sua responsabilidade sobre o problema é insignificante. E segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o país está em 118o lugar no ranking global de Índice de Desenvolvimento Humano[6]. Samuel Entre as Nuvens nos leva a refletir sobre a dimensão, a velocidade e a injustiça do aquecimento global.

É Hora de Decidir, de Charles Ferguson, mostra que frente ao desafio das mudanças climáticas, não temos tempo a perder e temos soluções ao nosso alcance. Transita entre as ameaças do aquecimento global, suas causas, a corrupção e interesses pesados de setores com muito poder econômico, como o lobby dos combustíveis fósseis e a indústria de alimentos, e as soluções à nossa disposição: as energias renováveis são cada vez mais competitivas e geram mais novos empregos do que as fontes fósseis de energia em todo o mundo.

Ferguson mostra como grandes conflitos e guerras de nosso tempo estão vinculados diretamente à exploração de carvão mineral, petróleo e gás natural: só o gasto anual militar para proteger as principais rotas de exportação de combustíveis fósseis chega a US$ 80 bilhões. Aborda o papel do agronegócio nas emissões globais de metano e desmatamento, seja na Mata Atlântica e Amazônia brasileiras (o Ministro Blairo Maggi é retratado como o bilionário da soja que virou político num dos estados que mais desmatam no Brasil, o Mato Grosso), ou na Indonésia, onde a exploração de óleo de palma destrói maciçamente as florestas de turfa (peatlands), imensos reservatórios de biodiversidade, carbono e metano.

Por fim, o filme traz inovadores, como Muhammed Yunus (Nobel da paz em 2006), que ajudou a instalar a baixo custo painéis solares em 1,5 milhão de casas em Bangladesh; Jesse More, da empresa M-Kopa, que deve chegar a 1 milhão de telhados no Quênia com seus painéis solares instalados em 2017, e Lyndon Rive, CEO da SolarCity, empresa que tem 250 mil clientes nos Estados Unidos. A solução está ao nosso alcance, seja em países ricos, seja nos muito pobres.

O mundo passa por uma crise climática sem precedentes, que exige mais compromisso, políticas, medidas e ações de governos, empresas e cidadão cidadãos e nenhum passo atrás. Mas sofremos a ameaça de enormes retrocessos. Nos Estados Unidos, Trump e o lobby fóssil que o apoia querem acabar com a regulação de emissões das termoelétricas, ressuscitar o carvão mineral e tirar os Estados Unidos do Acordo de Paris. No Brasil, a bancada ruralista, grande aliada do presidente Michel Temer, quer aprovar a redução de milhões de hectares em áreas protegidas (já aprovaram em comissões especiais a redução de 1,1 milhão de hectares), acabar com o licenciamento ambiental (e gerar uma fábrica de Samarcos no país) e destruir os direitos de povos indígenas.

A Mostra Ecofalante deste ano nos brinda com bons filmes sobre mudanças climáticas. Os quatro selecionados nos proporcionam uma jornada de reflexão sobre as causas, as consequências e as soluções para enfrentar o aquecimento global e reduzirmos seus impactos. O engajamento e o compromisso de governos, empresas, instituições de pesquisa e em espacial especial dos cidadãos – de cada um de nós – é condição essencial para sermos bem sucedidos nessa árdua tarefa. A grande tarefa de nossa geração. O primeiro passo é nos conscientizarmos: a emergência é grave e o desafio é imenso. Temos a chance e a responsabilidade de fazer as escolhas certas. Mas não temos tempo a perder.

* Carlos Rittl é secretário-executivo do Observatório do Clima desde 2013. Formado em Administração Pública pela FGV e doutor em Biologia Tropical e Recursos Naturais pelo INPA, atua na área de mudanças climáticas há 12 anos, tendo liderado a Campanha de Clima do Greenpeace no Brasil (2005 a 2007) e o Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil (2009 a 2013).


[4] Opções de Mitigação de Emissões de Gases de Efeito Estufa em Setores-Chave do Brasil, acessível em http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/354029/Opcoes_de_Mitigacao_de_Emissoes_de_Gases_de_Efeito_Estufa_GEE_em_Setores_Chave_do_Brasil.html, e Implicações Econômicas e Sociais: Cenários de Mitigação de Gases de Efeito Estufa 2030, acessível em http://www.centroclima.coppe.ufrj.br/index.php/estudos-e-projetos/encerrados/94-ies-brasil-implicacoes-economicas-e-sociais-cenarios-de-mitigacao-de-gee-2030





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