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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 57 - A influência da cultura na relação com o meio ambiente

Por Liliana Tinoco Bäckert, Especial para Plurale em revista/ Edição 57

A cultura guia o comportamento dos povos e ajuda a diferenciar os grupos, funcionando como um marcador importante das sociedades. Valores culturais são tão arraigados que passam despercebidos pela maioria dos indivíduos; geralmente não se pensa no assunto até a primeira viagem internacional, quando o cidadão se depara com uma multidão incomum, que se veste, fala e se porta de outras maneiras.

O famoso iceberg da cultura, desenvolvido por Edward Hall em 1976, é uma analogia que explica a profundidade dos traços culturais, implícito em cada ato escolhido. O modelo mostra que apenas 20% desses traços são perceptíveis, acima da linha do mar no iceberg. Esses seriam mais facilmente identificáveis, como a comida, a língua ou o clima. Entretanto, 80% das evidências encontram-se submersas e constituem a parte mais complexa e genuína de um grupo social, como por exemplo a noção de modéstia, as formas de liderança e de comunicação. Não se consegue, à primeira vista, avaliar e entender essas diferenças; mas não se engane, elas cumprem um importante papel e irão influenciar como as pessoas tomarão determinadas atitudes e não outras.

Consequentemente, a preocupação e o cuidado de alguns grupos com a qualidade do ar que respiram ou com a participação efetiva em medidas diárias que contribuam para a preservação de uma espécie de animal não podem ser totalmente descartadas de um traço cultural. É preciso incluir, claro, decisão e vontade política, leis vigentes, situação econômica etc. Mas essas não estariam também conectadas com os traços culturais?

Estudo de 2013, dos economistas George Halkos e Nickolaos Tzeremes, publicado no Journal of Environmental Economics and Policy Studies, avaliou a influência na relação entre as principais dimensões culturais e a eficiência ecológica e detectou uma correlação interessante. Durante os últimos dez anos, os esforços para quantificar o desempenho ambiental de um país foram conduzidos através de Índices de Desempenho Ambiental (EPIs) - formalmente reconhecidos como "scorecards" desenvolvidos em resposta aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e usados ??para classificar as políticas ambientais de um país em diferentes categorias.

Foram examinadas a relação entre as emissões de dois grandes gases de efeito estufa (dióxido de carbono e dióxido de enxofre) e quatro das categorias mais amplamente reconhecidas da cultura, utilizando o modelo de Dimensões Culturais de Hofstede: que divide as culturas entre as categorias masculinidade versus feminilidade, distância de poder, individualismo versus coletivismo e evitamento da incerteza. Geert Hofstede é holandês e especialista em estudos Interculturais.

Na análise, uma sociedade masculina é definida como aquela que valoriza o sucesso e o progresso material, enquanto a mais feminina prioriza a modéstia e o cuidado com os outros. A distância de poder representa pontos de vista sobre a desigualdade: a alta distância de poder traduz-se na crença de que os poderosos têm privilégios e podem herdar sua posição por meio de força; as sociedades com baixa distância de poder acreditam que a pujança poder deva ser distribuída igualitariamente. Os povos coletivistas valorizam os interesses dos grupos em relação aos interesses individuais e permitem que o Estado desempenhe um papel importante no sistema econômico, enquanto as sociedades individualistas esperam que seus membros cuidem de si mesmos. Por fim, evitar a incerteza significa o grau de tolerância da sociedade para situações desconhecidas. As sociedades de alta evasão lutam contra a incerteza com muitas leis e regras precisas e geralmente reprimem os protestos dos cidadãos.

Com exceção da masculinidade e feminilidade, cada fator teve um efeito estatisticamente significativo nas métricas de desempenho ambiental. A hipótese prioritária ao estudo era a de que as sociedades femininas exibiriam alta pontuação de ecoeficiência devido a uma forte identidade e atenção da comunidade não se comprovou. As categorias distância de poder e o individualismo foram que a mais exerceram influência sobre o resultado. Embora os autores tivessem levantado a hipótese de que a mentalidade de pensamento coletivo dos países coletivistas encorajaria a competência ecológica, verificou-se que os países individualistas prevalecem, talvez por imbuírem em seus cidadãos um maior senso de dever e autoempoderamento. Nessas sociedades, há uma maior tendência ao comportamento consciente em relação ao meio ambiente, enquanto a maioria dos países de baixa eco-eficiência é caracterizada por noções coletivistas e um papel dominante do governo.

Não se sabe se o Brasil foi avaliado na pesquisa, mas ao dirigir a análise para o país e comparar com modelo de cultura de Hofstede, pode-se dizer que integramos a lista das nações com grande distância de poderes, alta tolerância à incerteza e características coletivistas. Algumas questões desse assunto, entretanto, precisam ser comentadas: infelizmente não há muita literatura sobre o tópico; e é tendencioso atribuir a nações determinados estereótipos por integrarem uma ou outra categoria cultural. No entanto, conectando os pontos do estudo com observações diárias entre as culturas brasileira e suíça, comparadas com a literatura do antropólogo Roberto DaMatta, leva-se a crer que o conteúdo se interconecta.

Saindo da teoria para o lado prático, é importante mencionar que o aspecto hierárquico brasileiro do “sabe com está falando” leva a uma interpretação diferenciada da lei: a de que alguns têm mais direitos que outros. Afinal, quem se acha com poder de desrespeitar uma regra porque se sentir em posição superior aos demais está praticando a hierarquia de poderes, quebrando um protocolo que deveria ser seguido. Essa premissa não nos remete a alguns personagens brasileiros, que acreditam poder lançar mão de determinados privilégios por serem quem são?

As categorias culturais avaliadas por Halkos e Tzeremes têm suporte nos estudos do antropólogo brasileiro Roberto DaMatta que, consequentemente, respalda a Pesquisa Social Brasileira, relatada no livro A Cabeça do Brasileiro, de Alberto Carlos Almeida. O autor mostrou que DaMatta estava certo: “o Brasil é hierárquico, familista, patrimonialista e se encaixa em vários outros adjetivos que significam arcaísmo, atraso. De acordo com Almeida, a chave do abismo que coloca o Brasil na direção do atraso é a baixa escolaridade. E como a maior parte da população sofre desse mal, os erros se repetem. Como o próprio livro cita o estudo empírico de Ronald Inglehart e Christian Welzel, mais riqueza e educação levam as pessoas a rejeitar a autoridade superior, relações sociais verticais em benefício de relações de poder mais horizontais e a buscar formas de “autoexpressão,

Portanto, tomo emprestado o pensamento de Almeida, ao relatar em seu livro a análise da sociedade brasileira e a comparação com a americana por DaMatta. No Brasil, onde a sociedade é hierárquica, no qual a posição e a origem social são fundamentais para definir o que se pode e o que não se pode fazer; para saber se a pessoa está acima da lei ou se terá de cumpri-la. É assim que a herança escravista se manifesta no Brasil: os brasileiros lidam mal com a igualdade. E brilhantemente o autor exemplifica o país igualitário com a frase “Quem você pensa que é? Quem você acha que é para poder estacionar nesse lugar”. Ideia que irrita muitos estrangeiros aqui na Suíça, quando querem cometer uma pequena infração e são chamados atenção pelo suíço comum, que passa casualmente no momento e presencia a transgressão.

Exatamente o contrário dos povos individualistas, que acreditam menos no Estado, mas mais no seu poder de atuação para modificação da sociedade. Voltando ao estudo de Halkos e Tzemeres, que verificou a prevalência da competência ecológica em nações individualistas, é possível conectar novamente com os achados de DaMatta e de Almeida. Se em sociedades individualistas, a escola é valorizada, provavelmente há enfraquecimento da religião, tornando as pessoas mais céticas, menos tolerantes com o abuso, cientes do seu papel e mais aptas a lutarem por seus ideias e destinos de uma forma sustentável.

A minha proposta, ao escrever esse texto, não é afirmar uma verdade, mas a de estimular a reflexão sobre como alguns traços culturais podem estimular o retrocesso brasileiro. Pequenos atos e crenças, repetidos há gerações, têm o poder de levar uma nação inteira a repetir erros que não cabem mais no século XXI, num mundo em que os recursos naturais já apresentam falência. E se cultura é fluida e se modifica o tempo todo, vale a pena entender para tentar mudar o que não está bom.

(*) Liliana Tinoco Bäckert é jornalista e treinadora intercultural, com mestrado em Comunicação pela Universidade de Lugano. Radica na Suíça há 12 anos, dirige a empresa de Treinamento Adapte-se.





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1 comentário | Comente

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Juliana Leite Lila |
Excelente reflexão. "Os brasileiros lidam mal com a igualdade", não há afirmativa mais correta. Em uma cultura em que as pessoas estão sempre preocupadas em se dar bem, em levar vantagem, como esperar um comportamento igualitário ou de preocupação com o bem coletivo? Mudar o comportamento de uma sociedade é o trabalho muito profundo que passa, como Liliana bem afirmou, pela educação, direito do qual nós brasileiros carecemos muito. Parabéns, pelo ótimo texto!