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PLURALE EM REVISTA, Ed 58 - Especial Pantanal : a preservação transformando vidas

Equipe de Plurale retorna à Reserva Sesc Pantanal, no Mato Grosso, que completa 20 anos

Por Isabel Capaverde, da RPPN Sesc-Pantanal (MT)

Fotos de Isabel Capaverde e Luciana Tancredo, de Plurale

Por duas vezes, em 2010 e 2012 (edições 15 e 28) Plurale visitou o Sesc Pantanal que se estende pelos municípios de Poconé, Rosário Oeste e Barão de Melgaço, no Mato Grosso, formado pelas unidades Hotel Sesc Porto Cercado, Parque Sesc Baía das Pedras, Parque Sesc Serra Azul, Sesc Poconé e a Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN Sesc Pantanal, a grande estrela do complexo. A beleza do bioma foi registrada pelas lentes da fotógrafa Luciana Tancredo que tem encantado os leitores com flagrantes da natureza desde o lançamento da revista. Pois agora, nos 10 anos de Plurale, voltamos ao Sesc Pantanal, que completa 20 anos de um trabalho contínuo de monitoramento, prevenção e conservação da região. Acompanhamos avanços e ficamos felizes ao reencontrar personagens importantes de nossas reportagens que nos ajudam a contar esta história.

Conservação da biodiversidade - O Sesc Pantanal está localizado no Mato Grosso, e a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com 107.996 hectares, é a sua principal unidade de atuação. É uma relevante iniciativa do Serviço Social do Comércio (Sesc), participando da política nacional de conservação da biodiversidade, ao proteger significativa parcela do Pantanal, área com características e belezas extraordinárias.

Ao acompanhar as mudanças no contexto ambientalista no Brasil e no mundo, a atuação do Sesc na área socioambiental, através do Sesc Pantanal, fortalece o seu esforço de construção da cidadania em todo o Brasil. Além da RPPN, integram o Sesc Pantanal o Hotel Sesc Porto Cercado, com 140 unidades habitacionais; o Parque Sesc Baía das Pedras, com 4.200 hectares; o Sesc Poconé, com 4.350 metros quadrados; o Parque Sesc Serra Azul, com 5.700 hectares; e a Base Administrativa, em Várzea Grande, vizinha a Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso.

Antonio Oliveira Santos, Presidente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e dos Conselhos Nacionais do Sesc e do Senac, é um dos maiores entusiastas do Sesc Pantanal. “Este empreendimento demonstra a capacidade do Sesc, em face dos inadiáveis desafios sociais, econômicos e ambientais de nosso país. Reafirma a confiança no futuro do Brasil e seu compromisso fundamental com a valorização da vida”, afirma.

O Sesc Pantanal está situado nos municípios mato-grossenses de Poconé, Barão de Melgaço e Rosário Oeste. Singular em sua organização, atua com nativos, com a comunidade indígena, com pesquisadores, universidades, institutos de pesquisas e organizações não governamentais. A tônica é a sustentabilidade ambiental. O compromisso é com a melhoria da qualidade de vida dos que habitam ou trabalham no Pantanal.

Como a apresentação institucional destaca, a pesquisa no Projeto Sesc Pantanal amplia o conhecimento técnico-científico necessário a uma gestão ecológica sustentada. Para isto, são estabelecidas parcerias com universidades nacionais e internacionais, instituições de pesquisa, escolas, organizações da sociedade civil de interesse público, dentre outras, para o apoio à projetos de pesquisa científica na RPPN sobre a fauna, flora, recursos hídricos, solos, clima, turismo, organização social e educação ambiental.

Serviços ecossistêmicos – Administradores destacam que a implementação da Reserva vem possibilitando a manutenção de serviços ecossistêmicos vitais à reprodução da dinâmica do Pantanal, contribuindo para o provimento de água em quantidade e qualidade, manutenção da biodiversidade, adaptação às mudanças climáticas e diminuição de riscos associados aos fenômenos naturais extremos, serviços que a natureza promove e que são possíveis mediante o manejo e cuidado das áreas protegidas, especialmente áreas mais extensas, como é o caso da RPPN Sesc Pantanal.

Além destes impactos positivos, a Reserva se constitui ainda numa das bases sobre a qual se sustenta a economia da região, possibilitando o progresso econômico e social das comunidades em seu entorno e do município como um todo. Sua existência contribui para o ICMS Ecológico, um recurso financeiro destinado ao município pelo Estado, que tem como base de cálculo a extensão de áreas protegidas em seu território.

O biólogo Fábio Fogaça, apaixonado por cobras desde a infância em Sorocaba(SP), está mapeando a área de vida e o padrão de movimento da sucuri-amarela. Seu objetivo é desmistificar a sucuri, abordando diretamente os moradores ribeirinhos.

Palco de pesquisas como o da sucuri-amarela e objeto de mais de 130 publicações científicas

Em 20 anos a Reserva recebeu inúmeros projetos de instituições de ensino do Brasil e do exterior que resultaram em mais de 130 publicações científicas. Para aceitar qualquer projeto, o Sesc tem como requisito básico que ele apresente uma contrapartida social ou ambiental para as comunidades locais. Atualmente, um dos projetos é do biólogo Fábio Fogaça, apaixonado por cobras desde a infância em Sorocaba(SP), que está mapeando a área de vida e o padrão de movimento da sucuri-amarela. Seu objetivo é desmistificar a sucuri, abordando diretamente os moradores ribeirinhos. “No período das águas, quando o Pantanal fica 70% alagado, as sucuris buscam alimento e invadem as casas dos ribeirinhos. Elas que normalmente comem aves, peixes, roedores e capivaras, atacam animais da criação doméstica dos moradores e acabam sendo mortas por eles que temem pela segurança das suas famílias. Tenho visitado residências e explicado os hábitos do animal. O pessoal pensa que a sucuri mata quebrando os ossos de sua presa. Isso não é verdade. Ela mata por sufocamento”. Fábio mostra a sucuri-amarela que está em tratamento de uma inflamação na boca. “Essa cobra estar aqui conosco é a prova de que os ribeirinhos estão entendendo e se conscientizando. Ela entrou num galinheiro por um buraco na tela e comeu uma galinha. Ao tentar sair, ficou presa. O ribeirinho ao invés de matar nos chamou. Como vimos que ela estava com a boca muito inchada, trouxemos para tratar. Breve ela estará de volta ao seu habitat”. O biólogo explica que para estudar os hábitos do animal, existem oito sucuris com chips implantados sendo monitoradas na Reserva.

Da vida de peão ao mundo das borboletas

Há espaços para educação ambiental no Hotel Sesc Porto Cercado, como o Borboletário, onde encontramos João da Silva, ou simplesmente, João do Borboletário. João foi peão e tocou muita boiada. Há 15 anos deixou essa vida para trás. Do tempo de peão restaram apenas o chapéu e um cordão cujo pingente é a cabeça de um cavalo. Fala que no início a família estranhou a mudança de atividade. Mas lidar com as borboletas, tudo que aprendeu sobre elas e sua importância na preservação do Pantanal, lhe deixou um homem menos "durão". Hoje o seu mundo é o laboratório, local onde ovos, lagartas e pupas, as formas juvenis de borboletas são mantidas até o nascimento, o viveiro de plantas que alimenta lagartas e borboletas e o viveiro de visitação, uma área que abriga cerca de duas mil borboletas de 20 a 30 espécies diferentes. No viveiro de visitação há um jardim em que é possível sentar em bancos e ao som de uma pequena cascata, apreciar as borboletas voando ao redor.

As borboletas também mudaram a vida de Leonite Mendes dos Santos que desde 2003 faz parte do projeto social que liga a cidade de Poconé ao Borboletário. Ela preside a Associação de Criadores de Borboletas de Poconé que reúne 25 famílias que criam as borboletas em suas casas e recebem mensalmente R$ 850 reais. Para isso precisam cultivar em seus quintais plantas como maracujá, jaborandi, bananeira, para assim alimentar cerca de 290 crisálidas. “As borboletas nos ensinam, pois elas são frágeis e fortes ao mesmo tempo e estão em transformação. São como a vida em constante transformação”. Como existem espécies mais fáceis de criar e outras mais difíceis, as famílias participam de um sorteio para saber qual espécie levarão para casa. Sorteio realizado nas dependências do Sesc Poconé, mais conhecido como CAP – Centro de Atividades de Poconé.

Na vizinhança da Reserva

Pelo SESC Poconé, situado quase na entrada da rodovia Transpantaneira, circulam cerca de mil pessoas diariamente, segundo seu gerente, Marcus Vinicius. Oferece entre outros serviços, uma escola para 400 crianças, um parque aquático recentemente inaugurado, promoveram o primeiro festival internacional de circo, o Ispiaí – que já entrou para o calendário da cidade - e breve terão um espaço de criação, aberto a população, com computadores e impressoras 3D. Neste espaço a pessoa poderá desenvolver o seu produto e levá-lo pronto.

Menos impacto na natureza

Buscando causar a cada dia menos impacto na natureza o Sesc Pantanal está construindo uma usina fotovoltaica que deverá produzir 992.800 KW/mês. A estimativa é que ela possa substituir de 35% a 50% da energia oriunda da concessionária. Essa oscilação deve ocorrer nos meses de dezembro/ janeiro/ julho onde o consumo energético aumenta. Hoje entre as práticas sustentáveis 100% das garrafas pet, vidros de doce, óleo de cozinha, orgânicos, alumínio (latinhas), papelão são reciclados ou compostados. Em torno de 80% dos plásticos não reciclados e vidros são utilizados para embalar os resíduos (lixo) e vidros oriundo de quebra de janelas, por exemplo. Resíduos de obra, ambulatoriais e contaminantes (eletrônicos, elétricos, óleos de motor, pilhas e baterias) são destinados a empresas qualificadas e licenciadas para tratamento. Práticas importantes para quem em 2016 recebeu 25 mil visitantes, contabilizando nos dois últimos anos um aumento de 40% no número de hóspedes no hotel.

Antônio Coelho é monitor ambiental na seção de Recreação e Passeios do Hotel Sesc Porto Cercado

“Quero ser o melhor intérprete do Pantanal para quem o visita”

Nossas histórias - de Plurale e da RPPN Sesc-Pantanal - se cruzam. Basta dizer que a imagem escolhida para ser a representação dos 20 anos, estampada nas camisetas dos monitores ambientais é uma foto da nossa Editora de Fotografia, Luciana Tancredo: a vista aérea da imensidão verde dos aproximadamente 108 mil hectares da Reserva. Fomos reencontrar pantaneiros que nos receberam nas outras duas ocasiões como Antônio Coelho e Agno Antônio de Oliveira e conhecer outros homens e mulheres que dedicam seus dias a preservação, conscientes da importância do que realizam.

Antônio Coelho era barqueiro no Sesc Pantanal e hoje é monitor ambiental na seção de Recreação e Passeios do Hotel Sesc Porto Cercado. Conta que ganhou uma bolsa de estudos do curso na Escola Técnica Estadual, em Poconé, onde se formou em 2014. Mostra orgulhoso a carteira de guia de turismo cadastrado no Ministério do Turismo que leva no peito, pendurada como crachá.

Tem estudado ornitologia, pois quer se especializar nas aves da região e já vem sendo reconhecido até nos hotéis da vizinhança como um guia de aves do Pantanal. Durante um passeio guiado por ele, pede ao motorista que pare a Van para os turistas verem a tachã, a ave símbolo do Mato Grosso, observarem o voo do tuiuiú, símbolo do Pantanal, as garças, emas e outras tantas espécies que povoam o lugar que vive de maio a setembro seu período de seca. Fala com propriedade sobre os jacarés do Pantanal, onças, a vegetação típica. Nenhuma pergunta que lhe fazem fica sem resposta.

No sexto semestre da faculdade de Gestão Ambiental da Unisul – Fundação Universidade do Sul de Santa Catarina, cursando a distância, Antônio diz que quer adquirir mais conhecimento. Tem planos de aprender novos idiomas. “Sinto que os visitantes estão cada dia mais interessados e exigentes. Não só os estrangeiros. Também os brasileiros”, avalia. Observa que o jovem que vem com a família chega mais bem informado e preocupado com a conservação. Então, ele precisa estar preparado. “Quero ser o melhor intérprete do Pantanal para o visitante”.

“Tenho saudades da RPPN, mas volto de vez em quando”

Agno Antônio de Oliveira foi guarda-parque da Reserva por 10 anos. Deixar o trabalho na RPPN foi uma opção para ficar mais perto da família que mora em Cuiabá. Casado, três filhos, ele chegava a passar até 18 dias sem ir em casa. “Principalmente na época da seca, era preciso ficar de olho nos focos de incêndio. A gente não podia se afastar, o que diminuía a escala de folgas”, lembra. Participou de processo seletivo interno no Sesc e passou para o setor de Compras e Patrimônio que fica no escritório em Várzea Grande. Como uma das funções de Agno é fazer conferência do Patrimônio, de vez em quando ele volta a Reserva de onde confessa ter saudades.





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