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PLURALE EM REVISTA, Ed 58 - Um ano depois de uma volta ao mundo

Por Giuliana Preziosi, Colunista de Plurale (*) / Foto na Índia, durante o Holy Festival

E se pudesse viajar pelo mundo por quase dois anos passando por diferentes países, buscando histórias e exemplos de quem faz a diferença, encarando realidades distintas, aprendendo com a pobreza e com a riqueza e enfrentando frente a frente as questões socioambientais que desafiam o Planeta em que vivemos? Esse era o dilema que passava pela minha cabeça em 2014 quando tomei uma das decisões mais difíceis da minha vida ao sair de um emprego que eu adorava e tinha uma carreira promissora, trabalhando com sustentabilidade há mais de 10 anos.

Foi ali que surgiu o projeto Histórias pelo Mundo, uma viagem de 530 dias pelo mundo com um objetivo muito simples: entender o mundo em que vivemos. Inocente eu em achar que teria uma resposta fácil para uma questão tão complexa como esta. Mas ter a oportunidade de conhecer pessoas, experimentar novas culturas, passar por situações contraditórias, ora ameaçada pela escassez ora regida pela abundância, e aprender sobre realidades que nos fazem sair da nossa zona de conforto, foi sim a experiência mais incrível da minha vida.

Faz um ano que voltei para o Brasil. A volta de qualquer viagem é sempre regada de muitas emoções. Para mim a saudades se misturou à angustia de um novo recomeço e ao espanto de um país em crise e quase à beira do caos. A sensação de que o tempo voa, naquele momento era explicada pela velocidade dos meus pensamentos quando me dava conta de tudo o que aconteceu em quase dois anos de viagem.

Era como se eu estivesse dentro de um filme e voltava para vida real. Imagina o Neil descobrindo que a Matrix era só um sonho ou Peter Pan voltando definitivamente da Terra do Nunca. Um momento fácil de se perder e mergulhar em dúvidas, mas também uma fase de mudanças e redescobertas. Foi neste momento que eu me dei conta de quanto o mundo tem a nos ensinar.

Somos apenas 7 bilhões de pessoas em um único planeta dentro de um universo com 100 trilhões de galáxias, segundo estudo da Astrophysical Journal. E o principal problema é que a gente acha que o “meu” é sempre o mais importante do que o “seu”. Queria eu um dia poder viajar pela galáxia, mas por enquanto fiquei pelo Planeta Terra mesmo. Viajar assim fez com que me desprendesse do meu “eu” e entendesse um pouco mais o “outro”. Foi viajando que eu descobri um novo sentido para a palavra “nosso”.

Pensando neste Planeta tão singular em que vivemos, uma vez me perguntaram quais seriam as características comuns que eu destacaria entre todos os povos que conheci, independente de religião, raça, idade, local. Algo como o que de fato nos une quando falamos em humanidade. Posso não ter as soluções para os complexos problemas que enfrentamos ou as ideias que precisamos para resolver dilemas em um mundo à beira de um colapso de valores e quebras de paradigmas, mas, depois de viajar por tanto tempo descobri características que alimentam a esperança em acreditar que ser humano pode ser menos “eu” e mais “nosso”.

A primeira característica é a Fé. Conheci budistas, hinduístas, mulçumanos, islamistas, católicos, evangélicos, ou seja, praticantes das mais diferentes religiões. Em todas elas o que predomina é a fé. Isso é tão forte que algumas cidades criaram templos dedicados a todas as religiões, são ambientes sagrados de adoração a Deus, qualquer que seja Ele.

Em Nova Deli, na Índia, conheci o Bahai Lotus Temple, um templo lindo e impressionante com uma arquitetura no formato de uma flor de lótus. Lá o objetivo é exatamente esse, um templo da fé, para qualquer que seja o seu Deus.

Na Tailândia, em Chiang Rai, o chamado Templo Branco desperta interesse justamente pela sua diversidade. A exótica mistura de personagens da ficção dos filmes americanos, desde Batman à Harry Porter, que decoram o jardim se mistura com uma sala de espelhos, um teto pintado de céu e ensinamentos budistas. Construído em 1997 foi criado por um artista tailandês que queria representar o céu e o inferno em sua obra. Independente de estar ligado ao budismo, o lugar atrai pessoas pela sua originalidade.

A fé tem o poder de nos unir como humanos, na crença de algo além deste plano e, principalmente, na esperança de um mundo melhor, independente de religião.

A segunda característica é a solidariedade. Mesmo em meio a escassez de recursos, as pessoas se ajudam, seja para carregar um balde de água ou para dar alimento ao seu vizinho. Nos países mais pobres percebi um senso de comunidade que me surpreendeu, as pessoas que tem situações semelhantes de carência acabam se reunindo para ter acesso aos recursos básicos porque juntos são mais fortes para enfrentar os problemas. Conheci famílias no Quênia e em Uganda com um senso de coletividade extremamente superior à maioria que vive em cidades grandes. Pessoas andando mais de seis ou sete quilômetros carregando baldes de água na cabeça, não para serem usados em suas casas exclusivamente mas para encher o poço do vilarejo. O ser humano é egoísta para muitas coisas, mas numa situação de emergência ele se sensibiliza e se mobiliza para ajudar aquele que mais precisa.

E, por fim, a terceira característica é a esperança no amanhã. Mesmo com todas as catástrofes e desastres que têm ocorrido em nosso Planeta, e olha que não são poucas, as pessoas em geral têm esperança em um futuro melhor, por mais difícil que isso possa parecer.

Saí do Nepal dois dias antes do terremoto que destruiu o país em 2015, foi a primeira vez que vivi o sentimento da perda pelo “nosso”. Pessoas que eu mal conhecia, mas que eu tinha conversado, ou que tinham gentilmente me abrigado em suas casas, crianças que passei a tarde brincando, poderiam não existir mais. Lugares onde eu tinha tirado fotos há dois dias, estavam destruídos. Diferente de quando perdemos alguém da família é a perda pela coletividade. Mas, depois de ouvir histórias de reconstrução e mobilização social em prol de uma vida digna, a superação dos nepaleses me mostrou que problemas também vêm acompanhados de oportunidades.

Ao chegar em Samoa, no meio do oceano Pacífico, o jornal estampava a manchete “Ciclone a caminho”, por um momento a tensão tomou conta e minha preocupação era encontrar um local seguro para passar aquela noite. Olhava a estrutura do hotel fazendo suposições mentais do que poderia acontecer sem nenhuma expertise técnica sobre o que meus pensamentos me mostravam. Ao ver população se mobilizando para superar esse desafio e conversando com as pessoas da região que de alguma forma estavam acostumadas a passar por aquilo, a tranquilidade veio e a certeza de que juntos passaríamos pelo ciclone me trouxe conforto e coragem de enfrentar a noite chuvosa e barulhenta que tive pela frente. No dia seguinte, após a passagem do ciclone a população se reunia nas diversas igrejas espalhadas pela ilha para a tradicional missa de domingo enquanto agentes do governo limpavam as estradas e desbloqueavam caminhos que haviam sido interrompidos pela força da chuva.

A esperança é a chama que precisamos manter acesa porque seu poder é necessário para enfrentarmos as mudanças que estão por vir. Se esta chama um dia se apagar será o fim de tudo.

Hoje tenho clara a minha missão, o mundo me ensinou que não adianta reclamar dos problemas ao nosso redor e ficar no sofá assistindo as notícias do dia a dia sem fazer nada. É fácil ser pessimista e dizer que o mundo vai acabar um dia, o difícil é ser otimista e lutar para mudar as coisas que nos incomodam.

(*) Giuliana Preziosi (giuliana@preziosi.com.br) trabalha com Responsabilidade Socioambiental e Sustentabilidade há mais de 13 anos. Formada em Comunicação Social, tem especialização em Planejamento Estratégico pela Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA) e MBA em Gestão da Sustentabilidade pela FGV. Trabalhou na Arno e Bradesco. É palestrante no tema. Saiba mais em www.giulianapreziosi.com.br





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