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PLURALE EM REVISTA , ED 58 - A compreensão dos jovens sobre essa tal sustentabilidade

Por Dario Menezes, Colunista de Plurale

“Eu tenho pressa

Tanta coisa me interessa

Mas nada tanto assim”

Kid Abelha – Nada tanto assim

Como professor eu sempre tive a curiosidade de entender o alcance das minhas aulas sobre sustentabilidade. Entender se de fato estou conseguindo fazer os jovens terem compreensão da relevância, alcance e magnitude do tema para o nosso futuro comum e para as suas iniciativas de empreendimento.

Ao longo dos meus quase 10 anos como mestre, pude constatar que quando falamos sobre sustentabilidade existem geralmente três grupos bem distintos de alunos: (i) os que já tem contato com o tema, praticam atitudes sustentáveis e defendem o tema, (ii) os que ainda não conhecem do tema e portanto tem curiosidade sobre o tema e dúvidas naturais da sua aplicabilidade e dos fatos relacionados aos temas e (iii) os céticos que expressam a sua desconfiança sobre o poder do dinheiro fazer valer a sua força sobre todas as decisões. E aqui cabe uma reflexão: eu particularmente acredito que ninguém nasça cético. Infelizmente, o ceticismo é resultado direto de um sistema de ensino básico e de nível médio ineficientes no tocante as discussões sobre sustentabilidade, fazendo com que o aluno não tenha formado a sua consciência sobre o tema. Simples assim.

Voltando aos grupos listados acima, confesso que tenho conseguido (a) não decepcionar os apaixonados, fazendo eles entenderem mais sobre o tema, (b) conscientizar a maioria dos que ainda não conheciam sobre o tema, levando a eles conhecimento, perspectivas e alternativas e (c) pelo menos fazer os céticos entenderem que existem outros valores na nossa vida além do dinheiro. Esse resultado tem me feito feliz e prazeroso da minha atividade. Mas uma dúvida sempre persistiu: e como será a avaliação, conhecimento e consciência dos demais jovens sobre essa tal da sustentabilidade? Dos que não tem a mesma oportunidade de aprender sobre o tema? E aí como diz a música mencionada acima, dentro das diversas frentes de conhecimento que eu tenho para mim, nada é tão importante quanto entender o olhar, o pensar, o compreender do jovem sobre o tema sustentabilidade.

Bem para melhor entendimento do tema, junto com a minha turma de sétimo período de graduação de Jornalismo, arregaçamos a luta e fomos a campo. Apresentados aos poucos, aos diversos conceitos que compõem a sustentabilidade, os alunos perceberam a falta de conhecimento prévio do grupo àquele respeito e, surpresos com o fato de não saberem muito sobre esse assunto, cuja relevância social é tão grande, decidiram realizar uma pesquisa, para verificar a hipótese de que, fora do ambiente acadêmico avançado ou do ambiente corporativo, as pessoas têm pouco ou nenhum contato com informações sobre a sustentabilidade. A pesquisa foi aplicada entre em Maio deste ano, e recebeu 150 consideradas válidas, dentro dos filtros pré-estabelecidos para o estudo.

A conclusão da análise fundamenta a teoria dos alunos: o público jovem conhece pouco sobre sustentabilidade. Sustentados por noções gerais sobre o assunto, os alunos reproduziam um discurso pouco específico e baseado em estereótipos, por pura falta de familiaridade com o tema. Por exemplo quase 80% dos entrevistados não estavam familiarizados com o conceito do Triple Bottom Line, também chamado de Três “Ps” (people, planet and profit - pessoas, planeta e lucro, em tradução livre), formulado na década de 80 pelo consultor e sociólogo John Elkington.

Para 80% dos entrevistados, o conceito de sustentabilidade significa apenas “desenvolverem hábitos de consumo mais conscientes”, e 78% dos entrevistados acreditam que “consumir produtos que não agridem o meio ambiente e a saúde humana” são a melhor definição de consumo sustentável. Além disso, o estudo também mostrou o que os jovens compreendem como hábitos sustentáveis, o uso de transporte público, a redução de consumo, reciclagem e separação de resíduos.

O resultado da análise das respostas evidencia a falta de educação prévia e de veiculação de informações sobre um tema cuja importância remete à sobrevivência, não apenas dos seres humanos, mas de todos os ecossistemas que dependem do planeta.

Muitas empresas adotam um discurso de postura sustentável e/ou demonstram preocupações em se adaptar aos padrões internacionais de sustentabilidade, mas a sensação de incoerência entre o discurso de responsabilidade social das marcas e as práticas de fato adotadas por elas foi de incríveis 60% entre os entrevistados, o que indica uma descrença na aplicabilidade das práticas sustentáveis e o descrédito dos discursos corporativos.

Outro dado bastante significativo: 90,7% disseram que deixariam de utilizar os serviços e/ou consumir os produtos de uma marca caso soubesse que a empresa pratica algum tipo de exploração dos trabalhadores. Em contraponto, 38% dos entrevistados não se consideram consumidores conscientes, ou seja, não levam em conta a postura das marcas em relação à saúde humana e ambiental e às relações justas de trabalho, no momento da escolha de produtos e serviços. Voltamos nesse ponto a questão do sistema de ensino falho que não está formando devidamente os nossos futuros líderes sobre as questões essenciais de sustentabilidade.

Os que responderam recusar o consumo ou a utilização de serviços de marcas que ferem práticas da sustentabilidade indicaram os seguintes motivos para esta atitude: utilização de mão de obra escrava, extração de recursos naturais em áreas preservadas, uso de animais para testes químicos e utilização de produtos não recicláveis.

A pesquisa quis saber sobre a percepção das empresas pelos jovens. Para eles, as que que mantém práticas sustentáveis são: em primeiro lugar, a Natura; em segundo, a Coca-Cola; em terceiro, O Boticário; o quarto lugar ficou empatado entre as empresas Itaú, a Ipê, Bioderm, Lolla Cosmetics e a Avon e, o quinto lugar ficou com a Nestlé.

Nesta classificação, nota-se uma divergência na percepção sobre a imagem das

empresas e o posicionamento pessoal frente às práticas das corporações revela uma boa intenção dos 90% que dizem se importar com as práticas trabalhistas das empresas, mas, em contradição há 38% que se consideram “consumidores inconscientes”.

A confusão trazida nas respostas, evidencia falta de educação, conscientização e de conhecimento sobre o que é sustentabilidade, de modo geral Além da relação com as empresas, a pesquisa buscou compreender posturas individuais, como a preocupação com descarte apropriado do lixo. Mais da metade dos entrevistados (56%) não procuram locais adequados para o tratamento de lixo. No entanto, os que demonstraram preocupação com o descarte, afirmaram que apenas de um a três fabricantes dos produtos que consomem viabilizam retorno ou fornecem orientação sobre o descarte apropriado e apenas 10% disseram conhecer mais de seis fabricantes que praticam esta ação. Pensando no universo de marcas que gravitam ao redor dos jovens, esse resultado de apenas um a três fabricantes é desalentador.

Desta forma, embora o debate sobre sustentabilidade tenha aumentado nos últimos anos, há um claro lapso de compreensão sobre o tema e pouco esclarecimento por parte das grandes mídias e do governo. A sustentabilidade não pode ser vista como uma prática inalcançável, quando, sem ela, nos colocamos no papel causadores de externalidades sem criação de medidas de contenção dos efeitos provocados.

Junto com Plurale, estamos planejando outras pesquisas para o segundo semestre de 2017. Vamos à luta visto que o tema nos interessa como professores e cidadãos conscientes.

(*) Dario Menezes (dario.menezes@ig.com.br) é Colunista de Plurale, colaborando com artigos sobre sustentabilidade. Tem mestrado em Administração e é professor da Fundação Dom Cabral, Fundação Getúlio Vargas e IBMEC. Atuou como Diretor de Novos Negócios do Reputation Institute além da experiência executiva na área de Marketing na VARIG e na Vale. Consultor de empresas e palestrante. Mais infos - http://performancesustentavel.com/





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