Atenção

Fechar

Destaques

PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 58 - Especial Caminho de Santiago de Compostela

A Edição 58 de Plurale em revista trouxe Especial sobre o Caminho de Santiago de Compostela, na visão de dois jornalistas peregrinos - Vivian Simonato (que caminhou em companhia do seu pai, Ariston) e Hélio Araújo - que fizeram diferentes jornadas pelo Caminho Francês , pela Espanha, e o Caminho Português. Confira os dois relatos tão especiais e emocionantes.

Os seguidores de conchas: quando um sonho encontra-se com a realidade

Breve relato de uma filha com seu pai que andaram do O Cebreiro até Santiago de Compostela

Texto e fotos de Vivian Simonato, com participação de Ariston Breda Simonato

De Santiago de Compostela, Espanha

A primeira memória que tenho sobre o Caminho de Santiago de Compostela é de quando eu tinha pouco mais de seis anos e perguntava ao meu pai o que significava aquilo. Meu pai sempre foi minha conexão com um mundo maior, mais interessante. Com ele, sempre assisti documentários, filmes, especiais de TV, lia sobre diversos assuntos naquelas enciclopédias, cujos livros eram muito pesados e grandes para uma garotinha segurar sozinha. Lembro dele me explicando que pessoas, na maioria das vezes por questões de fé, andavam por dias até chegarem a Catedral de Santiago de Compostela, na região da Galícia, Espanha. O nome dado a essas pessoas, peregrinos, nunca saiu da minha cabeça.

No dia 7 de março desse ano nos dois entrávamos para esse grupo. Pela primeira vez na vida éramos peregrinos. Não somente por questões de fé, mas, porque um dia, lá atrás, prometemos que embarcaríamos nessa aventura juntos. Por vezes comentamos sobre esse projeto. No entanto, ele sempre parecia muito distante, inatingível e louco. Naquela terça-feira gelada, nosso sonho encontrou-se com nossa realidade e, mesmo andando um pequeno trecho do Caminho, às 8 horas da manhã, iniciávamos nossa jornada.

O Cebreiro

Uma neblina forte cobria O Cebreiro, nosso ponto de partida. Conforme andávamos o povoado ia se revelando. A praça, a igreja, um café, poucas casas. Tudo feito de pedra. Essa seria para sempre nossa primeira recordação dessa aventura. Eu, 36 anos. Meu pai, 68. Os dois carregando apenas o essencial em mochilões que pesavam não mais de oito quilos. Cerca de 155 quilômetros e sete dias nos separavam do nosso destino, a Catedral de Santiago de Compostela. Claro que existia o entusiasmo, a felicidade em estar ali. Mas, por um momento, senti medo. Uma sensação de estar fazendo algo muito grande, amedrontador, além das minhas condições e das condições dele. Meu pai, cheio de saúde, mas já um idoso. Eu, acostumada a vida de escritório, nunca participei nem dessas maratonas que hoje estão na moda. E se não aguentássemos? E se acontecesse algum coisa ruim? E se…

No entanto, tudo passou quando meu pai me chamou para dar um abraço, já que tínhamos começado a andar há alguns minutos sem desejar boa sorte um ao outro. “Vem aqui, peregrina, me dá um abraço que hoje o dia é muito especial porque estamos começando a realizar um sonho!”. Depois disso, não tive mais um segundo de dúvida, nenhuma outra incerteza ou medo. Nosso momento especial estava começando de verdade. Para ele, eu sempre serei aquela garotinha, que agora ele tinha a oportunidade de desbravar o mundo junto. Para mim, ele sempre será minha fortaleza, coisas que o tempo não muda. Mas também descobriria ao longo do Caminho que me transformei na fortaleza dele.

A jornada

Logo no primeiro trecho, até Triacastela, aprendemos que a trajetória era desafiadora e ao mesmo tempo libertadora, tanto física quanto mentalmente. Sem dúvida alguma as subidas eram árduas, mas, o pior eram as descidas, a concentração para se localizar, saber aonde ir. Esse era o momento que começávamos a entender a dimensão daquilo tudo, a importância do Caminho, sua multiplicidade, as várias razões pelas quais pessoas decidem embarcar nele. O aprendizado e exercício de desapego eram diários. Me descobri cuidadora do meu pai. Aprendi que ele precisava muito mais de mim do que eu pensava. Eu era sua tradutora, a que com visão melhor sempre achava primeiro a concha de Vieira ou a seta amarela quase apagada que nos guiava.

Sempre fui péssima com mapas, mas essa também foi tarefa minha checar nossa direção, o que nos esperava, juntamente com a de decidir quando íamos parar, aonde, por quanto tempo. A ele coube ditar o ritmo da caminhada, que por vezes eu não conseguia acompanhar. Ele também foi o campeão em bom humor, mesmo às cinco horas da manhã quando começávamos a andar e ele sempre me dava um “high-five” seguido de abraço dizendo: “Aqui são os peregrinos da alegria começando mais um dia”. Mesmo com sono, meio mal-humorada por acordar tão cedo, sem café, não tinha como não rir e entrar no clima dele, que já engatava contando suas histórias. Ele também foi o responsável pela trilha sonora de cada dia. A maioria das vezes fomos de Roberto Carlos. Outras, Tião Carreiro e Pardinho, Sergio Reis, Tonico e Tinoco. Mas, também, foram vários os momentos que ficávamos em silencio, em comunhão com a paisagem espetacular que nos acompanhou e a energia especial de nós dois juntos, realizando aquele sonho.

Por vezes também pensei que quando se faz algo tão grandioso o tempo passa diferente. A serenidade de cada um daqueles dias e a qualidade daqueles momentos nos nutria. Cada trecho concluído representava uma conquista, mesmo quando choveu, quando os nossos pés incharam e criaram bolhas, quando a comida acabou, quando ficamos perdidos e andamos quatro quilômetros a mais. Mas, esses foram percalços insignificantes diante das infinitas memorias felizes que levaremos pro resto de nossas vidas. A alegria dele aprendendo a tirar selfies ou realizando a maravilha de ouvir música pelo Spotify não importava aonde estivéssemos. Nós dois rindo quando ele sempre achava um jeito super criativo de pendurar no quarto a roupa que tinha lavado no chuveiro. Nossas considerações a cada dia sobre o melhor Menu do Peregrino.

Um café da manhã que pagamos três euros cada e quando achávamos que tinha terminado a moça trouxe mais outro tanto de tostadas (que olhamos um pro outro e começamos a embrulhar tudo pra levar). A visita ao monastério de Samos (que depois ele confessou que não entendia porque eu queria fazer um desvio de seis quilômetros para ver ruínas). Mas que, chegando lá viu que era uma construção linda, em funcionamento e que após nossa visita ele até foi convidado pelo Monge Lorenzo a voltar quando quiser pra organizar a farmácia do Monastério quando descobriram que ele era farmacêutico. A diversão dele quando eu gravava vídeos nossos e ele queria saber se muitas pessoas tinham curtido o vídeo com o “Peregrinão”, apelido carinhoso que dei a ele. Ele envergonhado respondendo “gracias” quando nos desejavam “Buen Camino!”. A felicidade em cada “selo” do peregrino que conseguíamos. A chegada em Santiago de Compostela…nós dois exaustos, emocionados, ouvindo a canção “Amigo” do Roberto Carlos e olhando a Catedral sem acreditar que tínhamos conseguido, que havíamos realizado um sonho e que agora éramos oficialmente peregrinos.

...................

Emoções do Caminho Português de Santiago de Compostela

Por Hélio Araújo, Especial para Plurale

Fazer o Caminho Português de Santiago de Compostela foi, para mim, uma experiência MARAVILHOSA, indescritível em palavras. Foram 260 km em 11 dias, a pé, do Porto, (Portugal) a Santiago de Compostela (Espanha), em julho de 2015. Muitas alegrias e emoções - e dores também, por conta da tendinite na perna esquerda e das bolhas nos pés, que me acompanharam durante TODO o trajeto e me levaram a solicitar atendimento médico em três oportunidades ao longo da caminhada, o último deles após concluir o Caminho, em Santiago.

Cada peregrino tem a sua razão (ou razões) para fazer o Caminho, seja o Português, o Francês, o Primitivo, o Aragonês, etc. A grande maioria é pela religiosidade, pela força espiritual que é atribuída ao Caminho. É claro que as sensações, as percepções, os ‘encontros’ e os ‘sinais’ variam de pessoa para pessoa, da forma como fazem o Caminho, como encaram a vida, as tarefas do dia a dia, a religião, a espiritualidade e o trato com o ser humano, o seu semelhante. Antes de mais nada, você precisa ‘estar a fim’ de fazer o Caminho, sentir que aquilo vai ser algo de bom para você, apesar das dificuldades que possam surgir.

No meu caso, decidi que iria fazer o Caminho Português quando estava em frente à Catedral, em 2014, em minha segunda visita à cidade como turista. A partir dali dei início ao meu projeto, com leitura de livros, busca de informações na internet, participação nas reuniões da Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (AACS-Brasil) e melhora das condições físicas. Uma das razões que me levaram a fazer o Caminho foi a homenagem ao meu irmão Moreira, falecido prematuramente em 2012, e à minha cunhada Sheila, viúva de meu irmão, que faleceu em maio de 2013, exatamente no dia de Nossa Senhora de Fátima, de quem era devota.

Por isso, além de todo o material básico que o peregrino carrega em sua mochila, eu levava a ‘certeza’ de que eles, junto com minha mãe, Maria Cândida, ‘caminhavam’ ao meu lado, me ajudando nos momentos mais difíceis. O Caminho tem dessas coisas: ele te aproxima ainda mais das pessoas que você ama, estejam presentes fisicamente ou não. Por isso, aumenta a saudade de quem ficou em casa ou dos que estão em um plano superior. Mas isso, é claro, depende de cada pessoa, de cada peregrino.

Eu curti muito o MEU Caminho, apesar das dificuldades de ordem física. Tentei fazê-lo da forma mais suave possível, sem pressa, prestando atenção em detalhes que um peregrino um pouco mais apressado não prestaria. Além disso, minha paixão pela fotografia fez com que as paradas para os registros aumentassem a demora em concluir os trajetos, já acentuada por conta das dores nos pés, mas resultassem em imagens que considero muito importantes, pois captaram a essência do MEU Caminho, daquilo que os meus olhos viam e meu coração sentia, embora esse sentimento não possa ser traduzido em imagens.

Desde a saída da Sé do Porto, em Portugal, até Santiago de Compostela, na Espanha, passei por muitas cidades e povoados, alguns dos quais típicos de contos de fadas. Castelos, pontes medievais, igrejas seculares, plantações, flores e povos atenciosos foram comuns nos lugares por onde andei, como Barcelos, Ponte de Lima, a temida Serra da Labruja, Rubiães, Valença do Minho, Porriño, Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis e Padrón, entre outros.

A Natureza, exuberante em quase todo o Caminho Português, os símbolos religiosos presentes em diversos momentos e a sinalização para o peregrino, com suas setas/flechas amarelas e conchas/vieira, foram meus três ‘alvos’ preferidos nas centenas de imagens que registrei com a máquina fotográfica e o celular. Caminhar 16, 20, 25 ou mesmo 34 quilômetros por dia é, realmente, uma tarefa muitas vezes estafante, mas plenamente recompensada pela magia e belezas do Caminho, além das amizades que surgem em um simples desejo de “Buen Camiño”, dito em diversos idiomas.

É comum, ao longo da caminhada, encontrarmos peregrinos das mais variadas compleições físicas, nacionalidade, idade e motivo pelo qual estão ali. Não há, na verdade, uma ‘regra’ para ser peregrino. Tem que ter o desejo de caminhar – e as razões também são variadas, como disse no início – e estar com os exames médicos em dia, ou seja, ter cuidado com a saúde. É desejado que se faça uma preparação física meses antes de iniciar o Caminho, mas não é difícil encontrarmos peregrinos sedentários, que saíram diretamente do sofá da sala para o Caminho. Os que têm doenças crônicas devem ter cuidado redobrado com os remédios e a alimentação durante a caminhada. O menu do peregrino, que varia de cidade para cidade, pode ser bom para uns, mas prejudicial para outros. A hidratação também é fundamental e, por isso, garrafas de água são muito bem-vindas e devem estar cheias ao sair dos albergues pela manhã. A água poderá ser renovada nas diversas fontes encontradas em diversos pontos. Mas, atenção: algumas não são potáveis e, nesses casos, geralmente há uma placa com tal informação.

O custo diário de um peregrino é estimado de 30 a 50 euros, dependendo do albergue escolhido. Nos municipais, mantidos pelas Prefeituras ou voluntários, é feita doação que varia de 5 a 10 euros, embora não seja obrigatória. Mas neles só podem pernoitar quem apresenta a Credencial de Peregrino, que deve ser carimbada ao longo do Caminho e vai permitir, ao final, a retirada da Compostelana na Catedral de Santiago. Há também os albergues privados, que custam geralmente de 8 a 20 euros, variando desde beliches em espaços coletivos – não tão grandes como nos municipais – até quartos com banheiros privativos.

Apesar das dificuldades físicas, acredito que tenha concluído com êxito o meu objetivo, pois sempre confiei em mim e mantive o foco, a fé, a determinação e a esperança naquilo que queria. Para fechar com ‘chave de ouro’ o MEU Caminho, pude assistir à Missa do Peregrino, comungar, ver o espetáculo do Botafumeiro (incensário), abraçar a imagem do Apóstolo Santiago e visitar sua cripta no dia de minha chegada a Compostela. Além, é claro, de receber a Compostelana e o Certificado de Distância. Também assisti à queima de fogos e a missa especial do dia 25, quando se comemora o Dia de Santiago – e também o MEU ANIVERSÁRIO. Emoção em dobro, é claro, que estou ansioso para repetir.

Buen Camiño!





Ir para lista de artigos e notícias


Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório

Verificação - digite os caracteres da imagem no campo abaixo *



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!