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A promoção da consciência ética pela arte

Por Flávia Ribeiro*

Nada mais surpreende os brasileiros. Estou cada vez mais convencida de que o Brasil é um país bipolar. Pela sua riqueza, pela sua diversidade e pela ignorância e mediocridade em que estamos mergulhados. E eu que achava que a falta de reserva ética estava concentrada mais na classe política.

Como uma instituição financeira pode patrocinar, com renúncia fiscal de quase R$ 1 milhão, uma mostra com desenhos pornográficos para crianças, imagens de uma vulgaridade absurda com direito até a zoofilia? E pior: fizeram isso com a chancela do Estado. Show de horror!

Me assusta como a exposição Queermuseu – cartografias da diferença na arte da brasileira”, inaugurada há quase um mês em Porto Alegre, foi de um amadorismo pleno. Fechou as portas tardiamente. Não tinha sequer uma classificação indicativa. O Estatuto da Criança e do Adolescente trata expressamente em seu artigo 4º a garantia de proteção à infância e à juventude, inclusive, com a destinação privilegiada de recursos públicos a estes públicos.

Como jornalista posso assegurar que, em hipótese alguma, sou favorável a qualquer tipo de censura à liberdade de expressão. Mas não se trata de defender opiniões partidárias, ideológicas ou crenças religiosas. Estamos rasgando o limite de respeito à dignidade da pessoa humana. É triste quando vemos artistas renomados esquecendo de sua função social e da importância da promoção da consciência ética através da cultura brasileira.

O apoio a quaisquer projetos culturais, financiados através de leis de incentivo, não pode estar acima da Constituição, que orienta os valores e princípios de uma nação e se propõe a proteger os cidadãos. Empresas reconhecidas internacionalmente, por suas políticas de sustentabilidade e guidelines de ética e gerenciamento de riscos para o negócio, pasmem, também erram.

No meu ponto de vista, estamos diante inclusive de um caso de incitação ao crime, conforme o artigo 286 do Código Penal. Simples assim: é o incentivo ou a ação de persuadir ou de estimular uma pessoa a fazer alguma coisa. Não se faz incitação a determinado crime sem a apologia dele. Em seu artigo 5º, inciso IX, a Constituição destaca a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença. Contudo, há um abismo entre promover uma arte para ampliar a consciência ética do cidadão, incitar o crime de pedofilia e zoofilia e estampar desvios de caráter.

Faço convite à seguinte reflexão. Pesquisa da Cone Communications mostrou recentemente como o comportamento dos consumidores está mudando por conta dos fatores ligados à Responsabilidade Social Corporativa. Constatou-se que 63% dos americanos esperam que as empresas assumam a liderança para impulsionar mudança social e ambiental, na ausência de regulamentação governamental, 78% desejam que as empresas abordem questões importantes de justiça social e 87% comprarão um produto porque uma empresa defendeu uma questão sobre a qual eles se preocuparam.

Para fechar com chave de ouro: 76% dos pesquisados se recusam a comprar produtos ou serviços de uma empresa ao descobrir que ela atua de forma contrária às suas crenças. Não se trata de questionar ou rotular o que é ou não é arte, os artistas que faziam parte da exposição, nem lamentar a escolha do curador ou enfrentar o que justifica ou não a mostra.

Acima de ideologias, da manifestação de milhares de seguidores de movimentos religiosos ou de defensores das minorias, estamos diante de uma grande contradição que é o uso da arte para “desumanizar” as pessoas. A força das vozes indignadas nas redes sociais é uma resposta muito clara de que ainda não perdemos a humanidade.

Mantenhamos firmes na crença de que a sociedade deve caminhar em direção à evolução, sempre de mãos dadas com a pluralidade de opiniões, mas sem abrir mão da ética e de seu propósito.

(* )Consultora de Sustentabilidade e Advogada. Colaboradora de Plurale. Email - flaviaribeiro.assessoria@gmail.com





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