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Depois da tempestade

Por Christian Travassos

A crise política complica a análise do dia a dia da economia. Temos nos acostumado a ouvir essa frase e suas variantes. Se os meios para alcançar os fins estão em consensos das Ciências Econômicas, é no vai e vem da maré em Brasília que se dão as decisões que de fato contam. E os reveses nesse território nunca foram tantos, nem tão intensos – não no mandato de determinado presidente ou em um ano específico, mas a cada mês, a cada semana, a cada dia.

Em meio a tamanho grau de incerteza, resta-nos levantar um pouco a cabeça e tentar enxergar um pouco mais adiante, para além dos efeitos imediatos da tempestade. O que podemos esperar nesse horizonte mais amplo? Claro que se tratam de dimensões, de focos diferentes, mas sabemos também que o país se acostumou a priorizar o curto prazo. É importante ir além do imediatismo. O que nos espera no médio/longo prazo?

Em primeiro lugar, a população brasileira terá passado por uma transformação sem precedentes. Segundo o IBGE, a taxa de fecundidade no país era de 2,4 filhos por mulher no ano 2000, passou a 1,8, em 2013, e deve chegar a 1,5 em 2030. A população acima de 65 anos já apontou aumento de 73% desde 2000.

Nos próximos 40 anos, o número de idosos vai mais do que triplicar no país: passará de 19,6 milhões (10% dos brasileiros), em 2010, para 66,5 milhões, em 2050 (29,3%). A previsão é de inversão do perfil populacional em torno do ano 2030 – os brasileiros com 60 anos ou mais serão mais numerosos que os menores de 14 anos.

Esse perfil populacional demandará mais e melhores serviços. A participação do setor na economia cresce no mundo. No Brasil, não é e não será diferente. A despeito da contração do consumo das famílias nas leituras do IBGE nos dois últimos anos, o setor de serviços girou na casa dos 73% do PIB em 2016, ante 67% dez anos antes. A tendência é de geração de oportunidades em áreas como educação e saúde, mas não apenas.

O Instituto estima em 6 milhões o número de trabalhadores domésticos no país, categoria que abarca cuidadores e acompanhantes de idosos. O Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento estima em 7 milhões o número de cuidadores, entre familiares e profissionais, necessários hoje para o cuidado adequado dessa parcela da população. Para o futuro, dado o cenário, há de se prever demanda ainda mais significativa e exigente.

Em paralelo à mudança populacional, avançará no país a conectividade. O IBGE estima que 95% do varejo nacional ainda aconteçam em estabelecimentos físicos, mas as vendas online têm crescido acima da média do setor. Entre 2007 e 2014, o instituto estima crescimento do comércio em geral de 87%, enquanto as vendas virtuais avançaram nada menos que 290%. Em 2017, não obstante a tempestade, o e-commerce deve crescer 12% em relação ao ano passado e faturar R$ 60 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico.

Entre os serviços que crescem na esteira digital estão os de transporte – entrega em domicílio – e os ligados à estatística – Big Data. Estes, aliás, servem de hub a um sem número de áreas, como marketing, jurídica, compliance e político-eleitoral.

No cenário prospectivo doméstico, encontra-se ainda decerto a expansão do agronegócio. O Ministério da Agricultura prevê aumento de 30% na produção de grãos na próxima década, com avanço de 15% na área plantada. O país reforçará seu protagonismo na produção de alimentos mundial, mas precisará também fortalecer a preservação de recursos – já que detém 22% das terras cultiváveis do planeta, 13% da água doce e biodiversidade incomparável, cada vez mais valorizada no mercado internacional.

Algumas conquistas nessa área estão em curso. A Agência Nacional de Energia Elétrica calcula em 1,2 milhão o número de geradores de energia solar a serem instalados em empresas e residências brasileiras até 2024. A participação dessa fonte de energia tende a se aproximar dos 25% da matriz até 2030, com investimentos superiores a R$ 100 bilhões – sem falar nos parques eólicos.

Não é difícil imaginar que esse avanço no campo e no tocante ao tratamento mais eficiente dos recursos naturais trará consigo o conjunto da economia, com externalidades positivas para comércio, serviços e indústria, sem falar na formação de profissionais habilitados a novos - ou renovados - ofícios.

Ainda assim, o país será mais urbano do que nunca. Mais de 90% de sua população viverá em cidades em 2030, segundo previsão do Programa da ONU para os Assentamentos Humanos – ONU-Habitat. Algumas regiões metropolitanas terão avanço populacional de até 145% até 2025. Florianópolis (SC), Brasília (DF) e Natal (RN) encabeçam o ranking dessa expansão. Aqui se desenha a oportunidade de o país crescer de forma mais homogênea, menos concentrada no eixo Rio x São Paulo.

É verdade que são muitas as dúvidas, mas, além de debater soluções para o presente, cabe olhar também para o futuro, que nos chega a uma velocidade cada vez maior. Se você gosta de economia, com certeza tem lido ensaios sobre como tirar o país do imbróglio, medidas bem embasadas tecnicamente, consagradas na Academia. Todas, dependentes do bom senso de lideranças políticas capazes de colocar o interesse público acima da visão simplista de curto prazo, território de afago às bases, no compasso do calendário político eleitoral.

A ideia aqui foi abordar alguns pontos que, independente do looping nosso de cada dia, parecem compor nosso cenário de médio e longo prazos.

(*) Christian Travassos é Colunista de Plurale. É economista (PUC-Rio) e mestre em Ciências Sociais (CPDA/UFRRJ)





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1 comentário | Comente

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Maria de Lourdes Borges de Campos |
Esse futuro próximo é certo e infelizmente as pessoas ainda insistem em ficar nos grandes centros. Envelhecimento saudável com qualidade é mais provável nas cidades dos interiores . As grandes cidades estão inchadas e quem não mais produz vai perdendo seu papel, sem contar os custos deste envelhecimento que é bem mais em conta no interior. Ainda temos serviços públicos de qualidade oferecidos e mesmo os particulares com excelentes profissionais são bem mais barato se compararmos com a cidade grande. Valeria uma campanha para reverter o exodo ocorrido nestes últimos anos.