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PLURALE, EDIÇÃO 59, ESPECIAL 10 ANOS - Entrevista com Paulo Artaxo

Por Hélio Rocha, Especial para Plurale

Foto - Acervo USP

Qual o futuro dos recursos naturais no nosso planeta? O aquecimento global é uma real ameaça para a espécie humana no século XXI? O que tem sido feito para que se cuide da Terra nos próximos 50 anos? Plurale em Revista conversou em julho com o professor Paulo Artaxo, climatologista da Universidade de São Paulo (USP) e docente convidado da Universidade Harvard. Suas avaliações para o atual momento da luta por um planeta mais limpo e responsável ecologicamente são otimistas, ao contrário do que é apregoado por muitos de seus colegas e pela grande mídia.

Entretanto, o professor, considerado um dos maiores especialistas no tema, faz uma ressalva sobre o alto índice de desmatamento na Amazônia, o que torna um tanto ineficaz a parte dos países latino-americanos neste enfrentamento. Sobre a saída dos Estados Unidos dos acordos da COP 21, tema recente e polêmico, Artaxo é tranquilizador: “O acordo está mantido por todos os países desenvolvidos, à exceção do Governo norte-americano, mas mesmo neste país, os principais estados já garantiram que vão seguir a risca os preceitos internacionais.” Confira a entrevista a seguir.

Plurale - Vamos começar pelo tema quente. Como o senhor vê a situação da saída dos Estados Unidos dos acordos da COP 21, por decisão do Governo Trump?

Paulo Artaxo - Questão quente nem tanto, já que, hoje, os Estados Unidos e seu governo, conduzido pelo Donald Trump, não têm mais esse protagonismo todo. A Europa e a China se comprometeram, inclusive, a reduzir ainda mais a suas emissões de gases-estufa, a fim de compensar a saída dos Estados Unidos. É claro que, em todos os casos, estamos falando do segundo maior emissor desses gases em todo o planeta, atrás apenas da China. Entretanto, mesmo aqui muitos estados importantes na produção e na economia, como Massachussets e Califórnia, comprometeram-se a manter as disposições dos acordos de Paris. E sabe-se que aqui nos Estados Unidos a autonomia dos estados frente ao Governo federal é muito grande. Portanto, estamos falando num impacto relativo nos planos para redução da emissão de gases-estufa para o futuro, mas o projeto está de pé e deve se confirmar nas próximas décadas, com importantes mudanças na Europa e nos países do Oriente.

Plurale – O senhor acabou de dissociar o Governo americano de seus estados. E quanto a população? Como os americanos receberam essa decisão do Governo Trump?

Paulo Artaxo - Os americanos estão profundamente divididos, o que se revela no índice de 60% da população que não aprova o Governo Trump. A maioria das pessoas e até muitos setores produtivos querem que o país se empenhe na redução dos gases-estufa e na construção de um futuro mais sustentável, mas isso esbarra, hoje, principalmente no setor conservador carvoeiro dos Estados Unidos, que fica localizado principalmente nos estados de Ohio e Virgínia, assim como na indústria automobilística, que são muito fortes na economia norte-americana. O polo tecnológico da Califórnia, por outro lado, está a favor das mudanças.

Plurale - Diante de tudo isso, o senhor vislumbra um futuro de redução da emissão de gases e de economia mais sustentável?

Paulo Artaxo - Tudo indica que sim. Há um movimento global de redução das emissões de gases-estufa, que advém da constatação de que eventos climáticos extremos vêm decorrendo dessas formas de produção pouco sustentáveis, o que tem impactos socioeconômicos muito grandes. Recentemente a Suécia aprovou legislação prevendo que até 2040 o país estará completamente livre da emissão de CO2, chegando a índice zero. Outros países caminham na mesma direção, como Dinamarca e Noruega. Ou seja, há um esforço internacional na busca de formas de produção mais inteligentes e menos agressivas ao planeta.

Plurale - Quais seriam, então, os setores econômicos que estão na contramão dessa tendência?

Paulo Artaxo - São principalmente os ligados à produção de energia por queima de carvão, ao que podemos acrescentar a siderurgia e parte da indústria automobilística. São setores produtivos que estão agarrados a preceitos de cem anos atrás, que têm um mercado consolidado e, por isso, se abstêm de investir em novas tecnologias e olhar para o futuro. Se você consegue manter um mercado sem gastar com inovação, será vantajoso no curto prazo. No caso da indústria automobilística, porém, nem toda ela pensa assim. As marcas japonesas, coreanas e chinesas têm apostado nas tecnologias limpas e estão ganhando mercado.

Plurale - Inclusive as chinesas? Porque a China é famosa por emitir gases-estufa, sendo a primeira colocada hoje no mundo nesse ranking.

Paulo Artaxo - Mas também caminha no sentido da geração de energias limpas. É o país que mais inova na expansão de tecnologias alternativas. Espera-se que em cinco, dez, 15 anos a China reduza drasticamente os níveis de emissão de gases e uso do carvão como matéria-prima para geração de energia, acompanhando a tendência mundial.

Plurale - Qual o papel dos Governos nessa busca por formas de geração de energia e produção mais limpas? Recentemente a Alemanha aprovou legislação que promete acabar, em algumas décadas, com a produção de carros a combustão. O senhor acredita ser boa essa intervenção governamental na iniciativa privada, visando à sustentabilidade?

Paulo Artaxo - Regulamentar é fundamental. Sem políticas públicas, não há qualquer desses avanços que nós discutimos. O papel da legislação é essencial na construção de uma economia global de baixo carbono e sustentável. Haja vista o exemplo da Suécia, que eu já mencionei, que, também por meio de seu parlamento, estabeleceu metas a serem cumpridas no sentido de, até 2040, atingir o nível zero na emissão de CO2.

Plurale - Nesse cenário global, como se insere o Brasil e a América Latina?

Paulo Artaxo - O problema no Brasil é quanto a reduzir o desmatamento, o que nós até hoje não conseguimos efetivamente implementar, por diversas razões políticas e econômicas. Pelo contrário: os índices crescem nos últimos quatro anos. A cada ano, 8 mil km2 são desmatados na Amazônia, o que tem de ser reduzido urgentemente. Quanto ao restante da América Latina, há três grandes emissores de gases-estufa: Brasil, México e Argentina. E temos também o problema da dificuldade em quantificar os índices de desmatamento. É possível que a Amazônia também seja desmatada no Peru, na Colômbia e na Bolívia, mas não temos como mensurar isso em números, o que dificulta o estabelecimento de metas e a fiscalização.

Temos também o problema de haver aqui uma adesão voluntária dos países, mas pouca regulamentação das metas ambientais a serem cumpridas. Se agentes públicos ou privados não cumprirem com o que está estabelecido nos acordos ambientais, nesses países, que tipo de penalidade será aplicada? Esse vácuo na lei ainda põe as metas de redução na emissão de gases e de preservação da Amazônia muito no papel.

Plurale - O senhor citou Brasil, Argentina e México como os principais emissores de gases-estufa da América Latina. Como está o Brasil em comparação com esses dois países?

Paulo Artaxo - A situação é parecida, com questões diferentes para cada país. Como similitude entre essas nações, está o protagonismo do setor de geração de energia elétrica por queima de carvão, nas termelétricas, e do agronegócio como fator preponderante na emissão de gases, aliado à questão do desmatamento, como agravante entre os países da bacia Amazônica. Vale ressalvar que qualificar esses países é algo que ainda depende do intervalo de cinco anos estabelecido pelos acordos de Paris, em que, ao término do período de avaliação dos países, poderá haver conclusão sobre a real situação dessas nações no esforço pela redução do aquecimento global.

Plurale - Esse intervalo de avaliação, no caso, vale para todos os países.

Paulo Artaxo - Sim. Para todas as nações signatárias, está estabelecido o prazo de cinco anos para que haja uma conclusão a respeito.

Plurale - O que decorrerá dessas conclusões, visto que a adesão, país por país, é voluntária e não prevê qualquer punição na maioria dos países?

Paulo Artaxo - Eis aí o grande desafio das próximas décadas. O mundo como um todo tem a tarefa de organizar essa estrutura que nasce dos primeiros anos do século XXI, no sentido construir mecanismos de governança global, a fim de garantir o cumprimento do que foi estabelecido nos acordos de Paris e em quaisquer encontros que venham a acontecer. Isso tem que deixar de ser “país por país” e passar à gerência de um órgão de governança, nos moldes da Organização das Nações Unidas (ONU), ou parte dela, com voz de autoridade perante as nações. No final da Segunda Guerra Mundial, quando foi criada a ONU, a demanda global era pela gerência de conflitos dentro dos países e entre os mesmos países, no sentido de propor a paz e evitar genocídios como ocorreram no princípio do século XX. Ainda não se propunha a agenda da economia sustentável e do combate ao aquecimento global, mas em seu propósito inicial a ONU foi muito bem-sucedida. O desafio, no século XXI, é trazer essa governança mundial para o âmbito do cuidado com o planeta.

Vantagens do uso do etanol para o meio ambiente

Em pesquisa da Universidade de São Paulo (USP), vários climatologistas, entre eles o professor Paulo Artaxo, constataram que o uso de etanol reduz a emissão de gases-estufa e, portanto, colabora para evitar o aquecimento global. Analisando o clima na grande São Paulo, os cientistas concluíram que nas regiões onde os postos abastecem mais com gasolina, o índice de poluentes jogados na atmosfera chega a ser 30% maior.

A notícia foi ao ar no dia 28 de julho, no Jornal Nacional. “Esses dados novos mostram que é muito importante que o governo brasileiro dê maior apoio aos biocombustíveis pois a queima de etanol, além de reduzir a emissão de gás de efeito estufa, também reduz a concentração de nanopartículas na atmosfera, que tem um dano muito forte sobre a saúde da população”, disse Artaxo ao JN.





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Gisele Helt Velloso |
Sanções economicas e comerciais são sempre eficientes quando se fala de grandes economias. Entre os paises signatários não se fariam necessárias ja que o tratado é decorrente dos esforços e interesse desses participantes. Mas falta ao acordo um compromisso de sanções contra os países não signatários, ou ao comercio de bens e produtos poluentes ou de empresas não adequadas. Como defendido pelo professor, inimaginável acreditar que as empresas automobilísticas, por exemplo, com um mercado sem concorrencia em termos de transporte alternativo, vá fazer investimento e adaptações pata atender aos objetivos do acordo, sem que esteja sob o risco de sofrer barreiras a comercialização de seus produtos. São as industrias e produtos com maior indice de poluentes atmosféricos e continuam produzindo e comercializando livremente, inclusive entre os países signatários do acordo. Mas qual governo estaria disposto a confrontar a industria automobilística ou os países produtores de petróleo? Pelo visto, até agora, apenas a Alemanha! E porque os 100 bilhões não são empregados em pesquisa para diminuir o custo dos automóveis alternativos, não movidos a combustão? O cenário descrito pelo professor não permite mais que se jogue toda a responsabilidade pelas mudanças climáticas sobre os ombros da Amazônia e retira a intenção que se tem de fazer da floresta o quintal da casa de todo mundo com a justificativa de mitigar os problemas ou adaptar nosso pais às metas do acordo. Com politicas publicas e sanções internacionais às empresas poluentes devem ser as metas a ser estabelecidas, quem sabe, no próximo encontro.