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PLURALE EM REVISTA, Ed 60 - Viagem ao fim do mundo: Latitude 78º

Texto e Fotos de Adriana Boscov, Especial para Plurale

De Svalbard, Noruega

Nossa viagem teve início na capital da Noruega, a linda e eclética Oslo. Coincidentemente, foi nessa região da Noruega que nasceu Gro Harlem Brundtland, que veio a se tornar primeira-ministra da Noruega e que presidiu a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento da ONU nos anos 80 onde se definiu o conceito de desenvolvimento sustentável como o conhecemos hoje “...o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.” (Our Common Future)

Muitos amigos e familiares sempre me perguntam: “qual seu próximo exótico destino?” ou “para qual fim de mundo vocês vão desta vez?”. E os destinos sempre são os mais inusitados: Alasca, Quênia, Atacama...ou onde a terra ainda persiste em se manter como ela nasceu com muita vida selvagem. Buscamos, assim como Sebastião Salgado, a Gênesis de nosso Planeta.

Nossa última viagem foi com certeza a mais “exótica” ou “inóspita”: o arquipélago de Svalbard entre o Polo Norte e a Noruega. Nosso destino foi chegar onde todos os grandes cientistas e aventureiros que estudaram o Ártico e quiseram chegar no Polo Norte passaram: a um passo do fim do mundo. Um lugar tão longe que é quase impossível conseguir conexão, seja de celular ou internet, uma vez que na latitude 78, onde o mundo literalmente faz a curva, os sinais de satélite não conseguem chegar.

Apesar de muitos pensarem que não há nada para ver ou fazer no Ártico, passamos 15 dias fazendo, vendo e aprendendo muita coisa sobre essa parte do planeta que apesar de remota, mantém o controle do clima. Não, não é tudo branco e cheio de gelo, mas sim cinza, azul, branco neve, branco-acinzentado, branco-azulado, marrom, bege, verde, amarelo e vermelho; cheio de montanhas, rios e lagos e muita vida selvagem.

A viagem começou em Oslo, capital da Noruega, de onde pegamos um voo para Logyearbyen, capital do arquipélago, e onde vive a maioria de seus pouco mais de dois mil habitantes. De lá nosso barco partiu rumo ao fjord de Bellsund onde visitamos uma antiga base para depois contornar a parte sul e parar no Storfjorden, onde tivemos nosso primeiro encontro com a vida selvagem do arquipélago. Continuamos circundando o arquipélago até o Estreito de Hinlopen ao norte onde avistamos ursos polares e belugas. Devido ao gelo denso, não conseguimos circundar o arquipélago e tivemos que retornar a Bellsund de onde partimos para a ilha de Jan Mayen (próxima história de viagem).

O Gelo e as Mudanças Climáticas

Cientistas e ambientalistas de todo o mundo tem comemorado o ano de 2017 pela espessura, distância e qualidade do gelo formado no ártico. Mas ainda uma comemoração com restrições e desconfianças, uma vez que o fenômeno de concentração e espessura do gelo no ártico tenha sido totalmente fora de época e dos padrões dos últimos 10 anos.

Mas porque o gelo do mar do Ártico é tão importante? Porque esse gelo é em sua maior parte coberto por neve que é branca e portanto reflete os raios solares. Quando o gelo derrete muito rápido, ao invés de refletir 80% dos raios solares incidentes nos pólos, o mar absorve 90% desses raios, aumentando a temperatura dos oceanos e criando um ciclo vicioso de degelo e aumento da temperatura na terra. Isso porque os pólos são os controladores da temperatura na terra, como se fossem os "refrigeradores" de casa, nossa casa, o Planeta Terra.

A principal consequência da queda contínua da formação de gelo nos pólos que vem sendo monitorada há 10 anos (veja o gráfico) é o aumento da temperatura dos oceanos ártico e antártico, o que gera um aumento nas temperaturas dos demais oceanos, acelerando o aquecimento global e as mudanças de tendências climáticas, ou seja, mais chuvas, menos neve, mais seca, e assim por diante.

Fonte: https://www.carbonbrief.org/analysis-the-highly-unusual-behaviour-of-arctic-sea-ice-in-2016


Vida Selvagem

O Ártico é a casa de muitas espécies de pássaros e mamíferos, onde a principal atração “turística” é o urso polar. O Arquipélago de Svalbard concentra a maior população desses animais, um quinto de toda a população de ursos polares no planeta em seu habitat natural, que nos últimos anos vem enfrentando uma perda gradativa de sua população para a fome. Isso mesmo, os ursos polares estão morrendo de fome em seu próprio habitat. O urso polar, nunca sai de seu território gelado, a não ser que não encontre comida. Ursos polares precisam se alimentar de 50 a 75 focas por ano para conseguir sobreviver, e a maior parte dessa comilança acontece nos meses de primavera e verão (junho a setembro). Eles podem ficar sem comer nada por oito longos meses e facilmente andar 5 mil quilômetros para encontrar comida. Mas quando não encontram comida, param de caminhar e esperam a morte. Com o frio, as carcaças demoram a se decompor, como essa fêmea que se encontra nesse estado há sete meses em uma praia ao norte de Longyearbyen, capital do arquipélago.

Para além do urso polar, essa região abriga diversas espécies de mamíferos e pássaros. A Rena de Svalbard é uma delas e se tornou uma espécie diferente de suas ancestrais por ter se adaptado ao terreno vulcânico de Svalbard, diferente das planícies da Lapônia. Por isso elas são menores, mais “troncudas” e com pelo mais espesso que suas ancestrais.

Já as raposas do Ártico tem uma característica incomum: elas são marrons durante os meses quentes, com um pelo fino e curto, enquanto que no inverno são cobertas por um pelo branco macio que faz um isolamento térmico para não deixar o corpo esfriar. Aliás, foi por esse pelo, tão desejado pela alta sociedade da Europa, que muitos caçadores vieram a Svalbard nos séculos XVIII e XIX. A caça era realizada nos meses frios que antecedem a troca do pelo e pudemos ver e visitar alguns dos “lodges” desses caçadores que chegavam a passar 4 a 6 meses de inverno caçando raposas. Atualmente a caça é proibida e somente alguns moradores decendentes de caçadores ainda podem caçar as raposas, mas com número determinado para não levar a espécie a extinção, como quase ocorreu no passado.



Um pássaro curioso e destemido que encontramos por todos os lados no ártico é a Andorinha do Ártico (Artic Stern em inglês) que tem a mais longa jornada de migração de todas as aves: mais de 30 mil quilômetros do círculo polar ao círculo antártico. E ele faz essa rota todos os anos levando em média 40 dias para cada trecho. Elas vivem em grupos e fazem seus ninhos no chão, por isso cuidado ao caminhar pela tundra. Além de poder pisar “sem querer” em um ninho, você também pode ser atacado por este passarinho que parece inofensivo mas que pode atacar até ursos polares. Quando veem seus ninhos ou filhotes em perigo, eles fazem rasante sobre o inimigo, bicando onde quer que seja e defecando a cada ataque. Um encontro nada agradável.

Svalbard também é refúgio de muitas espécies de baleias que aproveitam o verão não tão quente para procriar e se alimentar dos peixes que ali habitam. Nessa viagem avistamos belugas, baleia azul, cachalote (sperm whale) e jubartes. A diferença dos encontros nessas águas é que as baleias não costumam fazer acrobacias como se vê no pacífico. Aqui elas são mais tímidas.

Flora

O Ártico é coberto pelo “permafrost”, uma camada de gelo que nunca derrete e que fica a cerca de um metro do solo onde nasce a tundra. Por essa razão, toda a vegetação é rasteira e a maioria das plantas são da altura da grama que conhecemos aqui nos trópicos. As flores podem ser do tamanho de uma unha do dedo mindinho e tem cores vibrantes que vão do amarelo ao rosa.

A tundra também oferece um risco: as lamas movediças. Assim como as lendárias areias movediças que vimos muitas vezes em filmes, a lama em Svalbard pode sugar uma pessoa até ela ficar com metade do corpo abaixo da lama. E qualquer batalha para sair só drena as energias e afunda ainda mais a pessoa. A solução é contar com um pedaço de madeira ou uma corda para ser içado da lama.

Como chegar em Svalbard?
O jeito mais fácil é voar até Oslo, capital da Noruega, e de lá pegar um voo que dura cerca de três horas. Também existem voos da Norwegian e SAS de outras cidades da Noruega. O ideal é ir com uma agência especializada, uma vez que Svalbard é terra de ursos polares e você nunca sabe quando e onde vai encontrar um. Inclusive há uma lei que obriga todo morador de Svalbard a ter uma arma consigo em todo e qualquer momento.
Nossa viagem foi com a National Geographic e Lindblad, mas também existem outras mais acessíveis. Para encontrar a melhor agência e atividades de acordo com suas paixões, visite o site http://www.visitsvalbard.com/en/Travel-to-Svalbard


Em Svalbard, a maioria dos ursos morre antes dos 30 anos e as fêmeas tem seus primeiros filhotes a partir dos cinco anos. Um urso macho adulto pode chegar a 600 quilos e alcançar uma altura de 4 metros quando de pé sobre as patas traseiras. Infelizmente muitos não conseguem chegar a procriar pois morrem em disputas territoriais ou de fome, como essa fêmea.





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