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PLURALE, EDIÇÃO 60 - Pelas montanhas coloridas do Peru

Por Giuliana Preziosi, Especial para Plurale (*)

Muita gente vai a Cusco para conhecer um pouco dos lugares que marcaram a história da civilização inca, é comum percorrer desde a região conhecida como Vale Sagrado, as pequenas cidades ao redor, até a tão falada “cidade perdida dos incas”, Machu Picchu. O que poucos sabem é que ainda há outros segredos espalhados nesta região, e não vêm dos mistérios das civilizações antigas, mas sim da mudança que nós homens estamos causando na natureza.

Todas as vezes que me deparei com as os efeitos das mudanças climáticas pelo mundo afora a sensação foi de tristeza e destruição em ver algo que deixou de existir, mas e se fosse ao contrário? Algo surgindo em função do aumento da temperatura no Planeta... Na pequena cidade de Vinicunca à 5.000 metros de altitude encontra-se um dos lugares mais impressionantes que já visitei, as chamadas “Montañas de Siete Colores” ou “Rainbow Mountain”.

Há pouco tempo atrás, cerca de 9 a 10 anos, toda essa região era coberta pela neve, sua alta altitude e as baixas temperaturas mantinham o lugar inacessível. Mas com o degelo causado pelo aquecimento global e o solo extremamente rico em minerais o lugar “desabrochou”, impressionando até mesmo a população local. O governo peruano, que vem investindo fortemente em turismo nos últimos anos, enxergou a oportunidade, criou uma estrutura mínima de acesso à região e no ano passado as montanhas coloridas foram abertas para a visitação.

São poucos os lugares do mundo onde a natureza nos brinda com cores tão surpreendentes e paisagens impressionantes como esta, mas não pensem que é muito simples ter o prazer de ver tudo isso ao vivo. Vai depender de seu preparo físico e adaptação do corpo em relação à alta altitude.

Para evitar os problemas com o “soroche”, como eles dizem - que significa o mal estar causado pela altitude - bala, chá e até mesmo as folhas de coca são as recomendações mais ouvidas. No entanto, o que me deu segurança para enfrentar esse desafio foi quando descobri o segredo utilizado pelos médicos e guias da região que lidam com a altitude todos os dias. O santo remédio chama-se “Água de Florida”, custa R$ 4,00 e encontra-se facilmente em qualquer farmácia. E não é que o negócio funciona mesmo! Basta colocar um pouco nas mãos e inalar. O cheiro é ótimo, como uma água com ervas que “limpa” os pulmões.

Vinicunca fica há aproximadamente 4 horas de Cusco. Saímos de madrugada e paramos para um café da manhã em Pitumarka, depois a van seguiu por uma estrada sinuosa à beira do penhasco, daquelas que dá uma ligeira aflição de ficar olhando pela janela, até chegar em Pampachiri, quando começa o percurso a pé. Ali já estávamos à 4.500 metros de altitude, são 2h30 de caminhada até checar nas famosas montanhas. Sinceramente, sem preparo físico não é recomendável. O percurso é pequeno, são cerca de 6 Km mas a altitude e o caminho de frequentes subidas é que fazem disso um desafio para poucos.

Mas para tudo pode se encontrar alternativas, e os peruanos são espertos neste quesito. A comunidade local viu uma oportunidade de gerar renda com o aumento do turismo na sua região. Homens e mulheres das cidades próximas vão até o local e oferecem aos visitantes o serviço para fazer o percurso à cavalo.

A organização me surpreendeu, além de oferecer os cavalos, eles construíram banheiros ao longo do caminho e pedem uma pequena doação aos visitantes para manterem esses espaços limpos. Um povo simples, simpático e muito educado que faz esse caminho todos os dias para garantir a comida na mesa de casa. Vale dizer que é uma região muito carente, com pouca infraestrutura e afastada dos grandes centros.

Não pensei duas vezes e logo estava em cima do cavalinho, acompanhada do apressado e atencioso Rubem que seria o meu condutor. Mesmo a cavalo é preciso desmontar e ir a pé nas subidas mais íngremes para não judiar do animal, por isso é bom estar preparado.

Para compensar o esforço físico as paisagens de toda a trilha são maravilhosas. Descansar pelo percurso é obrigatório, não só pela falta de fôlego, mas pela oportunidade de ver montanhas enormes com picos nevados, uma nascente de rio, criações de lhamas e alpacas, casinhas de pedras que parecem ter saído de lendas antigas e muita natureza intocada.

Ao final do trajeto vem uma escada natural de formações rochosas, com uma subida de 200 metros para ter a tão esperada vista das montanhas coloridas. Depois da cavalgada chegando até ali, é hora de respirar fundo e encarar a subidinha.

Ao alcançar o topo a sensação é incrível, um lugar único daqueles de cair o queixo e te fazer refletir sobre os encantos que só a natureza pode nos proporcionar. Estava a 5.100 metros de altitude, temperatura de 4 graus, vento forte e o sol deixando o colorido ainda mais impressionante. Ao meu redor pessoas de várias idades, algumas mais empolgadas com as fotos, outras reflexivas, alguns se recuperando da caminhada e outros somente observando todo o movimento. Minha tia foi a minha companheira nesta aventura, ela tem 60 anos e disse que o segredo para chegar ali é saber escutar seu corpo, respeitar os limites, saber a hora de parar, ir no seu tempo e entender os sinais.

Assim como Machu Picchu nos faz pensar sobre os mistérios da civilização inca, a ação do homem nas suas construções, na forma de entender os astros, suas ligações com o solstício etc., a trilha até as montanhas coloridas volta nossa atenção para o poder da natureza. São lugares diferentes, mas que nos fazem refletir sobre o agora. O momento de estar ali, de se ver presente em um lugar único e olhar para trás pensando em tudo que aconteceu para que aquilo se tornasse hoje uma das sete maravilhas do mundo ou uma paisagem de tirar o fôlego literalmente.

COMO CHEGAR?

O tour para as montanhas coloridas pode ser encontrado facilmente em qualquer agência de turismo em Cusco. São várias espalhadas pela Praça das Armas, um dos símbolos da cidade. Custa aproximadamente R$ 85,00 com almoço e café inclusos. No entanto vale pesquisar para garantir a segurança necessária no caso de alguma emergência. Verifique as opções que incluem o acompanhamento de um médico, oxigênio e ambulância.

Dica: procure nas agências pessoas que fizeram o passeio, como é algo relativamente novo tem muita gente que fala sem nunca ter ido. Fechamos com um brasileiro casado com uma peruana que já tinha feito esse passeio duas vezes, foi excelente. O nome da agência é “Super Tour”. Tem saída todos os dias, mas vale olhar a previsão do tempo porque com chuva o passeio fica mais perigoso e não é a mesma coisa.

Para contratar os cavalos basta falar com o seu guia ou procurar diretamente as pessoas da comunidade local. Não é preciso reservar antes. Custa cerca de R$ 60,00 (só ida) e 90,00 (ida e volta) e não tem negociação.

Quanto tempo?

É um passeio de um dia inteiro, começa 3h30 da manhã saindo de Cusco com retorno por volta das 19h.

O que levar?

Casaco, protetor solar, água, chapéu ou boné, pode-se também levar ou alugar um bastão para ajudar na caminhada, além das precauções para o mal de altitude como bala de coca e chocolate (glicose) e não se esqueça da “Água de Florida”.

Mais informações:

https://vinicunca.net/vinicunca-preguntas-frecuentes/

(*) Palestrante, criadora do Blog Histórias pelo Mundo e Sócia na Conexão Trabalho Consultoria

www.giulianapreziosi.com.br





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