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A Balança está torta

Por Nélson Tucci, Colunista de Plurale

Não dá para brigar com os números. A Oxfam – ONG que explicita em sua missão: “Contribuir para a construção de um Brasil justo, sustentável e solidário que elimine as causas da pobreza e da desigualdade” – divulgou dados no último dia 22, publicados por Pluraleemsite, revelando que 82% de toda a riqueza gerada no mundo fo i parar nas mãos do 1% mais rico do planeta. No mesmo documento mostrou que no Brasil apenas cinco pessoas têm patrimônio equivalente ao da metade da população; ou seja, 100 milhões de pessoas precisariam juntar todas as moedinhas, tábuas das palafitas, tomadas de 3 pinos, sandálias de borracha, aparelhos celulares e outros pertences para chegar perto dos cinco bilionários brazucas. Isto por hipótese, naturalmente, mas é algo que dá bem a medida do desequilíbrio.

O mesmo relatório divulgado afirma que o patrimônio somado dos bilionários brasileiros chegou a $ 549 bilhões em 2017, num crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, os 50% mais pobres do país viram sua fatia da renda nacional ser reduzida ainda mais, caindo de 2,7% para apenas 2%.

Apenas para fazer junto com o leitor um mero exercício: o que aconteceria com o Brasil se os tais cinco bilionários iluminados que têm patrimônio equivalente à metade da população, combinassem uma partida de golfe longe do solo pátrio e transferissem toda a grana pra lá, enquanto brincassem nos buraquinhos do campo? Parece algo tão impensável que pouquíssima gente deve ter de fato conjecturado isto. Voltemos ao mundo real, pois não.

A proporção de 5 x 100.000.000 é uma relação tão perversa, que não faz sentido, seja no viés puramente humano, seja sob a ótica do mercado concorrencial de um modelo capitalista. Deixar os ricos cada dia mais ricos e os pobres a cada dia mais pobres/miseráveis não sustenta nenhuma equação. Em tempo: acho provável que a fortuna amealhada pelos cinco cavaleiros seja legal e meritória. São pessoas argutas e capazes. Mas a distribuição da riqueza continua sendo indecente. O Brasil é um parâmetro às avessas, no quesito distribuição de renda.

Atualmente surge um novo “super rico” a cada dois dias, no mundo. Essa casta bilionária é composta por 2.043 membros. Do outro lado do gráfico, mas vivendo no mesmo planeta, a metade mais pobre da população mundial (cerca de 3,7 bilhões de pessoinhas) vive com renda entre US$ 2 e US$ 10 por dia.

Se a questão da sustentabilidade for discutida a sério pelos diferentes agentes da sociedade civil, governos e formadores de opinião, chegarão à conclusão de que é preciso dar um breque no atual modelo e rever conceitos. Não é com o atual status econômico-social que teremos um planeta mais equilibrado. Nem do ponto de vista humanitário, tampouco do capitalista que tem fome de mais e mais mercados a cada dia. E não há mercados sem consumidores, vamos combinar?

A balança está torta. E se faz necessário reequilibrá-la, pois se recordarmos o velho adágio de que o “cachimbo faz a boca torta”, ainda dá tempo de arremeter e fazer um pouco correto.





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11 comentários | Comente

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Isabel Barreto |
Maravilhoso!!! Sempre muito bom ler textos lúcidos!

celso de freitas |
Se a cada dois dias surge um super rico, falta dimensionar quantos milhares empobrecem a cada segundo, para que este magnata ganhe ainda mais musculatura e suba para o topo da desigualdade.

Ana Helena |
Excelente matéria - clara e objetiva !

Nídia |
Muito bom artigo!

Dalmo Ribeiro |
Parabéns Nelson Tucci pelo artigo, claro e objetivo, acredito que para mudar essa situação, sem dúvida, um dos caminhos é a educação e a conscientização da população de uma forma geral, e para isso seria necessário uma mídia esclarecedora e imparcial e um governo comprometido com a nação como um todo. É humanamente impossível pensar em distribuição de renda quando um governo perdoa cerca de 1,5 trilhões de dívidas exatamente dessas pessoas que possuem a maior riqueza do país e que ao mesmo tempo tenta mudar a relação trabalhista para um regime parecido com a escravidão em pleno século XXI.

Turíbio Oliveira |
Parabéns, Tucci, pela clareza e objetividade desmonstradas na escrita. O artigo, além de uma leitura agradável, convida-nos à reflexão da importância do empreendedorismo e do trabalho árduo, como fontes de desenvolvimento econômico-social. Desperta-nós ainda para a prática da caridade para com os menos favorecidos, que pode ser praticada também pelo ensino profissional.

Selma Tucci |
Eis o grande desafio.da humanidade atualmente. E se falarmos de Brasil, o caminho é árduo.

Aleksandar Jovanovic |
O jornalista Nelson Tucci coloca, em poucas e boas palavras, o dedo na ferida:o desequilíbrio é global! Poucos muito ricos e muitos, mas muitos mesmo, bastante ou muito pobres ou até miseráveis. A nossa espécie, por mais que se considere superior às demais (e será que é mesmo???) não consegue aprender com a natureza: ali há lições de luta pela sobrevivência de cada espécie, mas há também solidariedade entre os membros das mesmas sub-espécies, não há cobiça, não há maldade...enfim, seria bom se todos refletissem a respeito. Parabéns, Nelson Tucci!

Arquimedes Pessoni |
A balança sempre esteve torta. Com algumas políticas públicas brasileiros conseguiram sair da linha da pobreza, mas opções erradas fizeram com que parte desse grupo voltasse ao lugar anterior. O que questiono apenas nessa informação sobre 5 pessoas terem o referido patrimônio é justamente o conceito de patrimônio. Esse montante é constituído de empresas que geram tributos e empregos? Se sim, OK, alguém precisa fazer isso...

Eloisa |
Você nos fala do “passo atrás “que precisamos dar. Quem vai tomar a iniciativa? Temos q fazer virar moda. Mudar cimportamentos é muito difícil. Ter uma indústria de propaganda q nos faz lavagem cerebral e dita novas necessidades de consumo como verdade, é covardia. A Coca Cola anuncia q vai banir embalagens de PET. É boa notícia. Reciclagem ñ é iusão? Com quanto podemos viver?