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8ª Fiema - Sustentabilidade, longevidade empresarial e ética são temas do 4º Meeting Empresarial

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

De Bento Gonçalves (RS)

Amana-Key e o conceito de ecologia profunda; Tramontina e os fundamentos do slogan “Prazer em fazer bonito”; Duratex e a plataforma de sustentabilidade. Com essas temáticas ampliadas em profundidade, os executivos Oscar Motomura, Clóvis Tramontina e Antonio Joaquim de Oliveira protagonizaram o 4º Meeting Empresarial, evento inaugural da 8ª edição da Fiema – Feira de Negócios, Tecnologia e Conhecimento em Meio Ambiente, que se realiza de 10 a 12 de abril em Bento Gonçalves/RS, no Parque de Eventos da cidade.

Com 80 expositores participantes e uma intensa programação voltada para a difusão do conhecimento, que compreende mais de 50 palestras sobre distintos aspectos da sustentabilidade, a maior feira do gênero no sul do país discute, entre outros temas relevantes, tecnologia, energias renováveis, segurança do trabalho, gestão ambiental na agropecuária e resíduos industriais e urbanos.

Vitória é ética: Oscar Motomura

Para Oscar Motomura, executivo principal da Amana-Key e há 40 anos no mercado de gestão estratégica, a maioria dos empreendedores e empresas são éticos e estão preocupados com o mundo.

- Tenho especial admiração pelas pessoas que fazem acontecer, como essas que estão ao meu lado – disse, referindo-se a Clóvis Tramontina e Antonio Joaquim de Oliveira. – Digo fazer acontecer de verdade, em sintonia com o conceito de uma “ecologia profunda”, que enxerga o todo maior, muito além do lucro. Sim, porque existe qualidade no lucro; ele não é só um número. A forma como se gera o lucro é que define a sua qualidade. Vejam, por exemplo, a Máfia italiana; gerava lucro, mas onde estava a qualidade desse lucro? Não havia. Por isso mesmo, a organização chegou ao fim.

Oscar Motomura diz que, embora o “curto-prazismo” esteja em voga, o importante é pensar no longo prazo e nas futuras gerações. Só assim é possível assegurar vida longa para as organizações. – É muito importante pensar em responsabilidade intergeracional – explica. – Isso significa ter gratidão por tudo que as gerações anteriores nos legaram. A energia elétrica, por exemplo; parece uma coisa natural, mas não é. É um legado, não uma commodity, como muita gente se acostumou a pensar.

- É preciso haver um resgate dos valores e da ética pela sociedade – acentua. – Sem isso, nunca vamos conseguir otimizar a economia. Esse resgate é o nosso desafio cultural prioritário. Mas isso só pode ser feito em conjunto – e o resultado de não fazermos isso é a situação de hoje, em que estamos fragmentados, pensando egoisticamente apenas no que nos diz respeito.

Citando o exemplo da comunidade Amish, nos Estados Unidos, onde todos se juntam e constroem um celeiro em um só dia, para presentear jovens recém-casados, Oscar Motomura destaca a importância de se fazer o que é preciso – e fazer agora.

- É preciso focar no bem comum – ou seja, o bem de todos. A expressão “bem comum” engloba todos os seres vivos, não apenas os seres humanos. É importante lembrarmos disso.

Oscar Motomura cita a Carta da Terra, produzida a partir de uma ideia que nasceu durante a ECO-92 e que só foi promulgada em 2005, após exaustivas pesquisas mundiais conduzidas por uma comissão internacional, como o documento mais notável e relevante sobre sustentabilidade.

- A redação foi feita com muito cuidado, pois era preciso assegurar que os termos utilizados tivessem validade e entendimento para todos os povos – orgulha-se. Segundo o executivo, a Carta da Terra tem 4 pilares interdependentes: 1. Respeito a todas as formas de vida; 2. Integridade ecológica; 3. Justiça social e econômica; 4. Cultura de paz, não-violência, inclusão e democracia.

Sustentabilidade, um novo tipo de empreendedorismo

Para Oscar Motomura, a oportunidade de reconstruir a Natureza – reconstruir no sentido de resgatar, não apenas preservar – é a grande oportunidade de negócios do momento atual, lado a lado com o empreendedorismo social. – É preciso apoiar os jovens que estão entrando fortemente nessas duas áreas relevantíssimas. As pessoas não estão avaliando o potencial dessas oportunidades, que chega à casa dos trilhões de dólares. O objetivo é fazer com que a sustentabilidade chegue a um nível muito melhor, em termos mundiais – afirma.

- Para isso, é preciso haver liderança consciente – continua. – É preciso elevar o nível de consciência dos nossos líderes. Destruir mananciais, por exemplo, é um tiro no pé. Pessoas conscientes e antenadas com o que está acontecendo no mundo vão além dos aspectos da economia e avaliam todas essas questões em profundidade ao tomar decisões – completa.

Um ranking revela os países do bem

O endereço eletrônico www.goodcountry.com sinaliza uma mudança considerável na avaliação do comportamento econômico e social dos países ao redor do globo. Criado por uma consultoria inglesa, o ranking dá uma classificação aos países que mais contribuem para o bem da humanidade. A Irlanda já venceu três vezes e países como Suécia e Holanda vêm despontando nas primeiras posições.

- No primeiro ranking o Brasil figurava em 44º lugar – conta. – Eu pensei: bem, até que não estamos tão mal, pois o México estava muito atrás. No entanto, no segundo ranking, tínhamos caído para o 80º lugar. Então fui pesquisar e descobri a razão. Estávamos em 44º só por causa dos nossos ativos ecológicos e não por termos feito alguma coisa relevante. Só que as autoridades mudaram o critério: não bastava ter ativos ecológicos, mas era necessário que o país cuidasse desses ativos e os protegesse! Portanto, sem cuidar não vale – lamenta.

Oscar Motomura destaca a real importância desse ranking: quando se é visto como um país do bem, tudo fica mais fácil e mais barato, inclusive financiamentos internacionais. Há uma conexão direta entre ser um país do bem e o desenvolvimento econômico – alerta.

- Eu costumo dizer que a tecnologia e a ciência são neutras. É o ser humano quem decide o que vai fazer com elas, criar armas mortíferas ou ampliar o acesso à comida, à moradia e à educação, por exemplo – acentua.

Na avaliação de Oscar Motomura, é preciso haver mais engajamento. – Mas o engajamento só acontece quando há participação efetiva, de baixo para cima, nas organizações. Acho que ainda falta participação em muitas das nossas organizações.

Para Motomura, é preciso equilíbrio, reflexão e ação para liderar com consciência. Avaliar o estresse que nos cerca: o que está acontecendo no mundo? Pra quê todo esse corre-corre? É preciso sermos honestos em relação àquilo que devemos fazer para uma empresa durar. E com uma postura individualista, nunca vamos conseguir otimizar nada – avalia.

- O Brasil tem muita força, gente. Em meio a tantos problemas, tivemos soluções estratégicas, como o Plano Real, por exemplo. Nós seguramos um apagão com educação e informação, e as pessoas passaram a apagar a luz sempre que saiam de um cômodo. Com todas essas possibilidades, temos tudo para exercer um empreendorismo pela paz, consciente e inclusivo – finaliza.

Clóvis Tramontina, herdeiro de um sonho

Clóvis Tramontina se orgulha dos 107 anos de legado da empresa fundada por seu avô, Valentim Tramontina, e sua avó Elisa. Morador de Montebelo, Valentim viu na chegada do trem de Santa Luísa a oportunidade para vender os canivetes artesanais de produzia. – Quem vendia era minha avó – conta. – Ele fazia e ela vendia para os turistas que chegavam no trem. Vejam a visão da minha avó: para vender o que restava da produção, resolveu tomar o trem e ir para Porto Alegre, abrir mercado. Durante a guerra, ela liderou a pequena empresa da família, então com 13 empregados.

O empresário conta que a Tramontina nasceu da simplicidade. Dentre os principais valores da organização, destaca a satisfação do cliente, a transparência, a liderança, a valorização das pessoas, o trabalho e a devoção. – Todas as nossas lideranças são prata da casa, ou seja, cresceram na própria companhia. E a devoção, aqui, quer dizer pessoas felizes, tanto os empregados como os clientes. Todos eles, não só quem compra os nossos produtos – acentua.

- Temos um Comitê Ambiental há quatro anos, que adota uma gestão descentralizada. Para nós, a responsabilidade – econômica, social, ambiental e de sustentabilidade – é essencial. Atuamos nas comunidades das áreas onde a empresa está presente, porque é ali que os nossos empregados vivem. E é preciso que a consciência ambiental e sustentável chegue na casa de cada um – destaca. – Uma vez fui visitar uma das fábricas, mas com um olhar ambiental. Pedi para conversar com algumas funcionárias para ver a influência dos nossos programas internos e constatei a eficácia dessas ações, porque todas me informaram que faziam coleta seletiva em suas casas.

Para Clóvis Tramontina, qualificação também é sustentabilidade. – É não desperdiçar, é captar água da chuva, cuidar das matas nativas e também das florestas de produção (que geram madeira utilizada nas fábricas). As visitas ambientais nas fábricas são diárias e contemplam milhares de crianças. Desenvolvemos o conceito da “embalagem que vai e volta”, reutilizada inúmeras vezes. Trabalhamos para gerar cada vez menos lixo. Recuperamos nascentes e mananciais, recirculamos 81% das águas que utilizamos, das quais 39% são de captação fluvial.

Clóvis Tramontina acentua que a visão de sustentabilidade permeia o negócio e que a equipe trabalha sempre na busca das melhores soluções. – Aprendi uma coisa muito importante com o Sr. Ruy (Scomazzon), sócio do meu pai. Uma vez fui levar um problema para ele e a resposta foi a seguinte: - Tá, você está me colocando um problema. E agora, qual é a solução? Ou seja, gente, quem tem o problema tem sempre a solução. Basta buscar fundo, que vai encontrar. E isso vale para a sustentabilidade. A gente sempre consegue achar a solução mais adequada e avançar.

Duratex: sustentabilidade e perenidade

Antonio Joaquim de Oliveira é o sexto presidente da Duratex desde sua fundação, há 67 anos. Para ele, os valores investidos em sustentabilidade são os valores que a empresa investiria mesmo que estivesse no prejuízo. – Se uma empresa gera valor só para o acionista, está na hora de parar, refletir e repensar – acentua.

A Duratex já nasceu de capital aberto. – Fomos a primeira empresa a figurar na Bovespa = conta. – E a sustentabilidade foi uma escolha desde o início, mesmo. Em 2010 criamos o Comitê de Sustentabilidade, que responde ao Conselho de Administração. Nas reuniões, eu, como presidente, sou convidado. É o comitê que toma as decisões sobre o que é necessário fazer e pronto.

- Em 2013 criamos a Plataforma de Sustentabilidade, com três eixos, sete temas e 45 metas. Em 2016 revisitamos nossa estratégia, mas não demos um passo atrás sequer – nem para tomar impulso (brinca). Minha principal missão, quando cheguei à Presidência, foi transformar a cultura da empresa. Criamos então um novo modelo cultural e um propósito. O propósito define claramente como pretendemos chegar aonde queremos e a cultura ancora, no futuro, a capacidade de trazer soluções modernas – explica.

- Pois bem, analisamos todos os aspectos da cultura e identificamos os pontos que estavam perfeitos e que queríamos manter; aqueles que eram bons, mas precisavam ser modernizados; e os ruins, que precisávamos abandonar.

O resultado dessa fase de transformação levou a um Planejamento Estratégico para 2025 com 45 metas, no qual a sustentabilidade foi a grande alavanca de valor. – Partimos para uma transformação digital e buscamos a inovação constante. Queremos chegar a contabilizar a sustentabilidade em todos os seus aspectos – adianta.

O processo, que envolveu 120 pessoas da organização inteira, cumpriu várias etapas até chegar às metas. – O desafio foi chegar ao fácil entendimento da nova estratégia por todos os colaboradores. Fundamental para isso foi a criação de um jogo – o Mapa de Aprendizagem – que foi e está sendo disseminado em todas as unidades fabris. Segundo Antonio, 85% das pessoas da organização já passaram pelo mapa.

Tirar as 45 metas do papel é, hoje, um grande processo de construção. Engajamento de clientes e consumidores (meta de 90% até 2025), relacionamento com comunidades e desenvolvimento local (meta de 75% de reconhecimento socioambiental nesses locais), ecoeficiência e redução do consumo relativo de água em 16%, reutilização de 30% da água captada, quatro fábricas já em ciclo fechado, recirculação de 100% da água utilizada, redução de resíduos em 50%, manejo sustentável (meta de certificar 80% das áreas formentadas) são algumas das frentes de ação.

- O processo de criar uma cadeia de fornecimento sustentável é muito relevante para nós. É treinar, aferir e auditar cada fornecedor. Há empresas que têm ações sustentáveis, mas não prestam muita atenção nesse aspecto na hora de comprar de um fornecedor. Nossa meta é ter 80% dos fornecedores com média superior a 8, atê 2025. O processo é difícil, mas estamos fortemente engajados nisso.

- A sustentabilidade está permeada em toda a organização – orgulha-se. – E é o fator mais importante para os negócios da empresa. Contratei recentemente um executivo para a companhia e, na hora de fechar com ele, coloquei na sua frente uma folha de papel com 11 quesitos, todos relacionados a questões éticas e sustentáveis. E expliquei: esses são os quesitos inegociáveis para nossa organização. Se você não concordar com 100% deles, não vai dar certo. Ele concordou, assinou, eu assinei e o documento foi guardado. É nesse nível a importância que damos às questões que consideramos essenciais – conclui.

(*) A repórter de Plurale viajou a convite da Fiema Brasil.





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