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Somente educação e transparência partidária podem transformar a política brasileira

Da CNseg

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O membro do Conselho de Conduta da CNseg, Julio Bierrenbach

A renovação política no Brasil depende de uma coesão suprapartidária calcada, sobretudo, em um diálogo aberto, sem ranços de direita ou de esquerda e sob inabalável transparência da gestão financeira partidária. Além dessa aproximação entre os dois pólos ideológicos, a urgente transformação educacional sustentará a base desse movimento. Sem ela, nada irá adiante. Essa foi a mensagem principal do debate Renovação Política, realizado na manhã desta terça-feira (10), no primeiro dia do 7º Encontro de Resseguro do Rio de Janeiro. "Precisamos, e todos reconhecem isso, de uma nova política nesse país, que presume um maior entendimento entre todos os pensamentos políticos. A compreensão da democracia passa pelo fato de que aqueles que divergem não precisam ser inimigo s ou criarem uma circunstância de ódio como a que presenciamos", ressaltou Julio Bierrenbach, membro do Conselho de Conduta da CNseg e coordenador do debate, que reuniu as mobilizadoras sociais Tábata Amaral de Pontes, cofundadora do Movimento Acredito; Ilona Szabó de Carvalho, diretora executiva do Instituto Igarapé e cofundadora do Movimento Agora, e Alessandra Orofino, diretora executiva do Nossas Cidades.

Antes de passar a palavra as palestrantes, Bierrenbach alertou que o Brasil não conquistará uma democracia plena caso os grupos ideológicos não aprendam a conviver em harmonia.

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A líder do Movimento Acredito, Tábata Amaral

Primeira expositora do painel, Tábata Amaral mostra-se alinhada com a avaliação de Bierrenbach. Para a líder do Movimento Acredito, só haverá profunda transformação social e educacional pela política sem reveses ideológicos e, fundamentalmente, pela igualdade de oportunidades. O primeiro passo, frisou Tábata, é que a briga entre direita e esquerda fiquem em segundo plano, e que a busca conjunta de soluções esteja sempre em primeiro plano. "Um dos nossos sonhos é ter um Congresso com a cara do país. No Brasil, quem quiser, consegue. Mas teu esforço sozinho não te leva muito longe", reconheceu Tábata, cuja história pessoal é um exemplo de superação.

De família humilde da periferia de São Paulo, a jovem mobilizadora social venceu as duras barreiras com as quais lidam diariamente jovens pobres e reféns da desigual sociedade brasileira. A excelente performance em olimpíadas escolares sensibilizou um colégio particular, que ofereceu bolsa integral para a jovem. A instituição de ensino custeou inclusive moradia para Tábata em um hotel próximo ao colégio. A chance que mudaria sua vida fez com que percebesse o valor da educação. Sua bandeira, dali em diante, passou a ser pela igualdade de direitos. "O tamanho do sonho e até onde pode se chegar tem cor, tem gênero e tem CEP no Brasil. Vindo de onde venho, essa descoberta de que é possível realizar os sonhos pelos estudos e de sonhar sonhos que até então não eram imaginados pelas pessoas de sua família e da sua comunidade fez toda a diferença para mim", assinalou ela, que ao perceber a desigualdade no País decidiu ingressar na mobilização social, fazendo da busca pela educação de qualidade um dos pilares do movimento Acredito, que ajudou a desenvolver.

O esforço de Tábata aliado às oportunidades que recebeu recompensou-a com uma bolsa de estudos em Harvard, uma das principais universidades dos Estados Unidos. Quatro dias após ser aceita em Harvard, o pai dela faleceu, vítima do vício em drogas e álcool.

Tragédia na educação

Sete em cada dez estudantes do ensino fundamental da rede pública não aprendem o que deveriam em Língua Portuguesa. Em Matemática, a situação torna-se ainda mais grave: nove entre dez não conhecem o básico do cálculo. "Será que ninguém percebe o que está acontecendo?", questionou Tabata, que criou o movimento Mapa Educação, que estimula jovens das escolas públicas a se engajarem e exigirem do poder público mudanças.

Ela cita como exemplo o caso de um jovem de Sergipe, integrante do movimento, que conseguiu reverter um vício político que acomete todos os municípios do País, sobretudo os do interior: a escolha dos diretores de colégio por meio de indicação política. "O rapaz fez uma mobilização social, com abaixo-assinado, e conseguiu com que o prefeito eleito se comprometesse a mudar isso", lembrou Tábata, para quem a busca por uma agenda propositiva para o país precisa se transformar em uma meta real.

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A diretora do Instituto Igarapé, Ilona Szabó de Carvalho

Atuante nas áreas de segurança pública e de políticas de drogas, Ilona Szabó diz que há muito a ser feito para mudar o cenário atual do país. O antidoto é relativamente simples. Buscar políticas transparentes, especialmente em segurança pública. Ela destacou ser impossível para o cidadão brasileiro atual se distanciar do tema "renovação política". "Todos devemos nos meter na política. A política com 'T' maiúsculo, a da polis, a do bem público", sugeriu.

Mais da metade do quadro político nacional está sob investigação, e a divisão nacional mostra-se latente. "Nossa sociedade está polarizada, quando, no momento, precisamos de consenso e de compromissos. Enquanto isso, a desigualdade só aumenta. Há um momento de potencial desordem", alerta Ilona, que se diz contrária a "heróis solitários" ou "salvadores da pátria" para o País. Mas admite que o risco de algum deles emergir das urnas é real. "Nós só acreditamos em trabalho conjunto, com agendas em comum. É assim que desenhamos o nosso movimento. Temos como conceito a amizade cívica. No meio do caos, há também oportunidades. Queremos um Brasil mais simples, humano e sustentável", afirmou.

Ilona casou-se com um canadense, mas o casal optou permanecer no Brasil, cujo sistema, como ela destacou, está falido. Pesou para a decisão de ambos a necessidade de fazer algo pelo país, de unirem-se a outras pessoas engajadas e com o propósito de mudar o cenário depressivo vivido pela sociedade brasileira. "Uma indignação que virasse algo positivo", completou.

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A diretora executiva do movimento Nossas Cidades, Alessandra Orofino

Terceira palestrante, Alessandra Orofino, diretora executiva do movimento Nossas Cidades, assinalou que a direita e a esquerda precisam buscar a reconstrução do público. Igualmente à Tábata, ela alertou que a distensão ideológica só acentua o contexto de desigualdade social no país e a desordem política, fragilizando, portanto, todas as instituições. Alessandra também concorda com Ilona sobre o possível desfecho eleitoral deste ano. "Um 'messias' concentra poder. É, portanto, mais fácil de se corromper do que um poder distribuído. Essa fé em um 'messias' tira do indivíduo poder de mudança. Isso é grave. Democracia não se constrói dessa forma", concluiu ela, que ajudou a criar o "Quero Prévias", um movimento que prega, entre outras inciativas, mais transparência na gestão dos financiamentos partidários.

Ao final do painel, Julio Bierrenbach apontou dados sobre os financiamento dos partidos. "Cada menor partido no Brasil recebe 95 mil reais por mês. O PSDB receberá 284 milhões de reais. O PT receberá 315 milhões de reais e o MDB receberá 347 milhões de reais. Na nova política, a gente tem a consciência de que saiu do bolso da gente e não de uma abstração chamada Tesouro Nacional", citou.

O integrante do Conselho de Conduta da CNseg destacou ainda que a nova política deve nascer do debate pela concórdia e não das 'irascíveis rusgas ideológicas' presenciadas no País nos últimos anos. "Temos de eleger quem gosta de proximidade", concluiu.





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