Atenção

Fechar

Pelas Empresas

8ª Fiema Brasil - Viver a segurança é possível

Bom humor, emoção e técnicas consagradas de segurança marcaram a palestra de Roberto Sarli Jr., da Dupont, no último dia da 8ª Fiema

Por Maurette Brandt, Especial para Plurale

De Bento Gonçalves (RS)

- Acho que alguém errou ao construir essa escada; aqui não deveria ter um corrimão? – observou Roberto Sarli Jr., da DuPont Brasil (foto), ao subir ao pequeno palco montado no Auditório, logo no início de sua palestra. Prova de que o treinamento de longos anos em segurança, marca registrada da empresa, está sempre à flor da pele.

A conversa com Sarli Jr. marcou o encerramento do 5º Seminário de Segurança do Trabalho na 8ª Fiema Brasil, na manhã do último dia da feira.

Subir ou descer uma escada sem segurar no corrimão? De forma alguma. Usar celular ao dirigir? Nem pensar. Nem rádio e muito menos Bluetooth. Esquecer de colocar o cinto de segurança? Impossível, é quase uma segunda pele. Atravessar fora da faixa? Sem chance. Para reforçar esses comportamentos e deixar claro o tamanho dos riscos que corremos no dia a dia, Sarli Jr. exibiu o vídeo “Dirija sem desculpas”, que logo fez a plateia sentir que não dá mesmo para brincar com segurança, ao mostrar uma série de acidentes graves que aconteceram por causa de descuido ou negligência.

Por um rastilho de pólvora

O patriarca da Du Pont, Eleuthère Irenée Du Pont de Nemours, era discípulo de Lavoisier, com quem aprendeu os princípios da fabricação de pólvora. O grande químico logo o contratou para trabalhar na fábrica de pólvora que abastecia o exército francês. O pai, Samuel, tinha uma pequena editora na Paris incandescente, às vésperas da Revolução. Participou de numa tentativa frustrada de salvar Maria Antonieta e Luís XVI da guilhotina, o que desagradou aos revolucionários e levou Samuel à prisão, em 1794. Por pouco escapou de ser executado. Três anos depois, ainda por razões políticas, pai e filho são presos novamente e a casa da família é saqueada. Com isso, decidem que emigrar para a América é o melhor caminho para a família.

Os dois chegam a Rhode Island em 1º de janeiro de 1800. Algum tempo depois, Eleuthère resolve usar sua expertise para montar uma fábrica de pólvora nos Estados Unidos e retorna à França para levantar fundos. Estabelecida no mesmo terreno em que toda a família vai morar, em Delaware, a empresa E.I. Dupont de Nemours é criada em 21 de abril do ano seguinte. Junto com ela, e por causa da natureza da atividade, nasce a obsessão por segurança - que viria a se tornar um dos principais negócios do grupo DuPont.

-- Toda empresa é feita de gente – constata Sarli Jr.. E 96% dos incidentes, quase acidentes ou acidentes, de maior ou menor gravidade, decorrem do comportamento humano. Não há como fugir disso. Esta é a razão pela qual a segurança tem que entrar no sangue e ser vivida de forma profunda e consciente, dentro e fora do trabalho – observa.

Sarli Jr. conta uma anedota da DuPont que ilustra bem o espírito da empresa com relação à segurança. – A Dupont trabalha sempre com o conceito de “dono de área”. Sabe como é, o olho do dono é fundamental para que tudo corra bem. Então todas as áreas têm dono. Numa das fábricas, uma moça escorregou na quina de uma calçada, exatamente no espaço entre a quina e o asfalto da rua, caiu e machucou o pé. Por alguma razão, esse incidente estava pendente de investigação e foi parar na reunião com o diretor. Aí, na reunião, o diretor perguntou: - Mas por que este cso está pendente? Quem é o dono da calçada? – O dono da calçada então se manifestou. – Eu sou o dono da calçada, mas da quina não. Então não é comigo. – E quem é o dono da rua? – Eu, disse outro membro da equipe. – Mas a quina fica entre a calçada e a rua. Eu não sou o dono da quina. O diretor então respondeu: - Muito bem! Eu sou o dono da quina. Então vou investigar! – Nessa hora, os donos da calçada e da rua se entenderam imediatamente e foram resolver.

- Isso mostra o nível de comprometimento da direção com a segurança – diz Sarli Jr. – Se o Número Um da empresa inteira, e consequentemente cada executivo em seu nível de autoridade, não demonstrar com o exemplo esse comprometimento, nada acontece. A regra é a mesma quando a Dupont dá consultoria de segurança para as empresas que solicitam. Nós só aceitamos ser consultores mediante o compromisso formal do Número Um. Do contrário seria apenas perda de tempo e energia, e a empresa acha que não vale a pena ganhar dinheiro dessa forma.

Sarli Jr. explica que a cultura de segurança da DuPont mede a taxa de frequência do desvio (condição insegura que ainda não configurou incidente ou acidente), dos incidentes, acidentes com e sem afastamento e fatalidades tanto dentro quanto fora da empresa. E trabalha fortemente na correção dos desvios, que estão na base da pirâmide de segurança.

- Corrigir o desvio é essencial para evitar todo o resto – esclarece. – Se a empresa trabalha somente no topo da pirâmide, ou seja, quando acontece uma fatalidade, sua pirâmide está invertida. E gente, eu garanto uma coisa: a única coisa que vale na investigação de uma fatalidade é o que a gente pode aprender para que não aconteça de novo. E provoca: - Algum de vocês já teve de ir à casa de algum funcionário dar à esposa dele a notícia de que o marido não vai mais voltar? É terrível – diz, ao relatar o exemplo de um executivo que, mais de 30 anos depois de ter se desincumbido de uma missão dessas, ainda se lembrava com detalhes da reação da esposa, que desmaiou na hora da notícia e, no velório, apontou o dedo para ele e disse: - Você matou o meu marido!

– Ninguém quer viver isso, nem perder um funcionário num acidente. É por isso que estamos aqui falando de segurança – completa.

- Todas as reuniões da empresa têm, obrigatoriamente, um momento SSMA – explica Sarli Jr. - A administração dos desvios é contínua e forma a base da disciplina operacional da empresa, que cultiva a máxima de “Fazer certo da primeira vez, por todos e a todo momento” como princípio da segurança operacional de suas atividades.

O Programa STOP – Programa de Treinamento de Segurança por Observação (traduzido do inglês Safety Training Observation Program) – é uma ferramenta de gestão comportamental cujo foco é eliminar o desvio. Parte da observação, por parte do supervisor da área, que leva ao bloqueio do desvio e a uma abordagem não punitiva para esclarecer o empregado, levá-lo a entender por que a condição insegura identificada não pode acontecer e incentivá-lo a transformar sua atitude.

- A observação é parte das atribuições diárias do supervisor, que deve dedicar pelo menos 30 minutos do seu dia para esse trabalho – explica. – Identificar a causa do desvio é fundamental para que a correção seja definitiva e por consenso entre a supervisão e os funcionários envolvidos. Existe procedimento para aquela tarefa? O procedimento está disponível para o empregado? Está atualizado? O funcionário foi treinado? Precisa ser treinado? O procedimento foi auditado? Falta EPI? Essas são algumas das perguntas que o supervisor deve se fazer – explica.

Sarli Jr. esclarece que o Programa STOP atua nas causas física, sistêmica e comportamental do desvio. – O supervisor precisa ter um olhar treinado para o detalhe e inseri-lo no todo. Ou seja, é olhar o todo, mas procurar o detalhe.

- A DuPont mede o ROI do acidente. A gente faz isso também nas consultorias que prestamos Sabe por que? Porque existe um iceberg de custos embutido em cada acidente. Um coisa é o que está evidente; outra muito diferente é o que se esconde por trás das evidências, em termos de falha de processo, da falta de procedimentos, política de segurança, treinamento, motivação etc.

- O óbvio é que o ser humano tem que vir antes de tudo, mas muitas vezes é preciso apelar para o fator financeiro na hora de demonstrar a um empresário por que é preciso investir e acreditar em segurança – ressalta.

Por tudo isso, os sistemas de segurança desenvolvidos pela DuPont se baseiam num modelo de governança que começa com o compromisso incondicional das lideranças em todos os níveis, na responsabilidade de linha (conceito de “dono”) e no retorno positivo para o empregado,

- Quem faz as normas é o pessoal de operação, com a consultoria dos profissionais de SSMA, não o contrário – explica. – A valorização e o respeito por quem faz, pelo chão de fábrica, é total.

Os dados de cada inspeção são registrados num cartão específico e alimentam o sistema que forma a base de dados em segurança. Esses dados são avaliados semanalmente em todos os níveis. As avaliações determinam as ações necessárias em cada caso. O sistema permite o acompanhamento dos resultados e contabiliza as estatísticas de segurança.

Mas não tem punição em nenhum estágio? Sarli Jr. explica como funciona o Programa de Consequência.

- Esse programa busca recuperar cada profissional envolvido em desvios e, embora sem caráter punitivo, demostra que todo ato do ser humano tem consequências. – O objetivo nunca é punir – reforça Sarli Jr., mas admite que algumas específicas necessitam correção de rota. – E há aqueles pontos que são inegociáveis: não usou cinto? Falou ao celular no trânsito? Está na rua – sentencia.

Sarli Jr. encerrou com bom humor uma conversa marcada pela emoção, pela reflexão em profundidade e também por momentos lúdicos, como o trabalho em que quatro grupos de voluntários tentaram montar pirâmides de copos com uma instrução falha e, depois, com procedimento mais organizado. A nota de descontração ficou por conta de um caso que resume o que significa, para a Dupont, a fé na segurança e no ser humano.

- O funcionário operava uma máquina que tinha uma peça sustentada por um fio de nylon. A peça emperrou e ele, para substituí-la, simplesmente cortou o fio, provocando um acidente – conta. - O supervisor queria mandá-lo embora de qualquer jeito e, na reunião com os superiores, estava muito alterado. Um dos diretores pediu que se acalmasse e, em seguida, perguntou aos outros: - O que vocês fariam com esse cara?

A resposta veio de um colega argentino que participava da reunião.

- Eu o mandaria fazer um curso de segurança!

O diretor, então, chamou o supervisor e disse: - Propõe a ele o curso de segurança. Se o sujeito recusar, pode mandar embora.

O supervisor foi até o funcionário e propôs o curso. O rapaz aceitou, fez o curso e hoje é um dos melhores técnicos de segurança da empresa! – concluiu.





Ir para lista de artigos e notícias


Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!