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Entre a promessa e a entrega: responsabilidade social como discurso e valor também nas instituições de ensino

Por Bernadete de Almeida é Colunista de Plurale

De tempos em tempos, observamos o seguinte fenômeno: alguns termos e expressões que contém e representam conceitos e idéias forjadas por grupos historicamente tidos como formadores de opinião passam a ser maciçamente veiculados na mídia, conquistando espaço e ressonância na agenda pública.

De certo modo, isto tem ocorrido com a noção de Responsabilidade Social e seus correlatos. À proporção que ganha exposição e visibilidade, esta passa a ser assumida também como atributo de valor pelo mercado consumidor, especialmente entre aqueles ditos “consumidores conscientes”. O outro lado desta moeda é que , neste contexto, o fato de uma empresa ser (ou pelo menos, parecer ser) social e ambientalmente responsável passaria a conferir à mesma uma potencial vantagem competitiva, o que acaba por levar à tendência , ainda facilmente observável, de empresas e organizações de diferentes setores e com os mais diversos perfis explicitarem , no âmbito discursivo , o quão socialmente engajadas elas o são, ainda que nem sempre o discurso corresponda necessariamente à prática...

Precisamente aí é que “mora o perigo”...na nossa visão, este gap ainda existente entre “a promessa e a entrega”, a comunicação inconsequente e deliberada da idéia de responsabilidade social tem levado não só ao descrédito, como, em alguns casos, funcionado quase como um “salva guarda” nobre a serviço de propósitos nem tanto...

Lembro-me justamente do exemplo de uma instituição privada de ensino. Há uns bons anos, saindo do aeroporto de Congonhas, a caminho de um compromisso profissional, me deparo com o outdoor de uma universidade privada paulista, que dizia mais ou menos assim “ xpto: a universidade com responsabilidade social. Aqui você consegue fazer seu curso superior – descontos de x % e mensalidades a partir de y...”

Meu sensor de greenwashing apitou! Me parecia oportunismo...mas nem sempre é simples “separar o joio do trigo” ...Como identificar o trabalho sério, a reflexão consequente - que, sim, acabará por diferenciar, inclusive do ponto de vista mercadológico, uma universidade, uma escola, empresa que for? Lembrei do meu irmão, todo animado, dias atrás, me contando que a escola da minha sobrinha de 6 anos tinha um trabalho de voluntariado...de verdade, achei bacana, em tese, mas fiquei querendo saber como esta iniciativa se articula com a visão que a escola tem de si mesma e da sua função social, por exemplo ...

Os autores de estratégia Porter e Kramer, em artigo publicado originalmente há 12 anos atrás, na Harvard Business Review - não por acaso, escolhido como o melhor artigo publicado naquele ano em Harvard e ainda incrivelmente atual – apresentam um caminho...ao sinalizar para a importância das empresas, ao pensarem a responsabilidade social, vincularem esta reflexão às suas estratégias e à sua razão de ser, impregnando a gestão e as decisões de negócio. Segundo eles, só assim o compromisso social da empresa se faria perene e efetivo, gerando transformação à altura dos recursos investidos.

Esta perspectiva traz novas luzes à questão, ampliando e qualificando aquilo que tem sido propagado como responsabilidade social. E no caso das instituições de ensino, cuja clientela são crianças, adolescentes, jovens adultos, adultos, ou seja, um microcosmos onde o conjunto da sociedade está (ou deveria estar) refletido? O que está sendo feito? Iniciativas como os trotes solidários e o “universitário sangue bom” são bem vindas e ganham escala, mas ainda há muito por fazer ...E nos parece serem a escola e a universidade espaços privilegiados para a reflexão e a prática qualificadas no tema.

Primeiramente por uma questão de natureza da própria instituição de ensino, como ente social. O ambiente escolar/acadêmico consiste, per si, em um locus de formação para a vida em sociedade, o que envolve – resumindo e correndo aqui o risco de ser um tanto superficial – ajudar a constituir sujeitos que entendam e aceitem as diferenças individuais, sem prescindir da busca por uma sociedade mais justa, equitativa, que ofereça melhores oportunidades para todos e onde se exerçam direitos e deveres, tendo um olhar crítico sobre a realidade do qual fazem parte.

Indivíduos assim formados , quando jovens , tendem a trazer em si a semente da transformação, da liderança que empreende, da cidadania que influencia, da atuação profissional que “faz a diferença”, da presença paterna e materna que inspira. E amanhã, já adultos, na condição de patrões e empregados, profissionais liberais ou servidores públicos, contribuirão para tornar as organizações para o qual trabalhem mais equitativas, inclusivas, éticas, socialmente responsáveis, enfim.

Esta perspectiva estruturante pode ser operada no cotidiano das escolas e universidades por meio de diferentes frentes de atuação, mas sempre a partir de um projeto, chamado de político-pedagógico – análogo à estratégia nas empresas - que reflita e evidencie a idéia de responsabilidade social como valor para a instituição, ainda que não necessariamente com este nome...

Estimular a atuação voluntária por meio de um programa-âncora que envolva a comunidade escolar como um todo e se desdobre junto a diferentes públicos – alunos, professores, funcionários e as famílias – é uma alternativa. Tanto quanto trabalhar a responsabilidade social e ambiental como tema gerador nos currículos, de forma multi e transdisciplinar. Ou, ainda, promover o debate em torno da temática por meio de um calendário de eventos ao longo do ano letivo... Não existe “receita de bolo”, cada espaço onde a educação é a grande razão de ser deve encontrar seu caminho rumo ao “socialmente responsável”, coerente com sua trajetória, perfil, missão e visão.

E somente tendo começado a percorrer este caminho é que a Escola, a Universidade deveriam pensar em lançar (ou não) mão do “socialmente responsável” como atributo a ser comunicado. De outro modo, corremos o risco de reduzir a questão ao patamar dos descontos nas mensalidades, a ênfases estritamente mercadológicas – como sugere a propaganda da já citada faculdade paulista – o que é muito pouco, perto da grande e indelegável contribuição que as instituições de ensino podem dar ao desenvolvimento de uma sociedade mais sustentável, responsável e justa, sob todos os aspectos.





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