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Meu querido Rio de Janeiro

Por Roberto Saturnino Braga, Colunista de Plurale

Vinte e um de Abril de 1960: a maioria da população do Rio de hoje ainda não era nascida. Foi o marco da decadência, eu já tinha quase 30 anos e acompanhei bem todo esse processo. Foi uma verdadeira festa nacional, a inauguração de Brasília que, efetivamente, interiorizou e impulsionou o desenvolvimento do Brasil, constituindo um decisivo fator de progresso para mais de metade do território nacional. Marco histórico que exalçou e eternizou a figura do grande Presidente Juscelino Kubitschek.

Para o meu querido Rio de Janeiro, foi o dia da desventura, marco inicial de decadência. Perdeu a sede do poder, perdeu a economia do poder, as verbas do poder, perdeu os atrativos do poder. Eu vi.

O Rio respondeu bem, todavia: criou uma cidade-estado, que mantinha as receitas estaduais e municipais do antigo Distrito Federal, e teve dois governadores sérios e competentes, Carlos Lacerda e Negrão de Lima, que mantiveram as escolas e os hospitais funcionando bem e ainda fizeram grandes e belas obras, desde o Aterro do Flamengo, o Túnel Rebouças e a estação de tratamento do Guandu, até o metrô da Cidade.

Havia, é certo, uma injustiça para com o Estado do Rio antigo, na periferia da Guanabara, onde cresciam verdadeiros favelões de milhões de trabalhadores que tinham emprego no Rio, geravam receitas para a Guanabara, mas rinham que ser atendidos nos serviços essenciais por poderes municipais falidos. Mas, o Rio era o Rio e a periferia que se lixasse.

O General Geisel resolveu, ditatorialmente, fazer o que ninguém conseguiria democraticamente: fundiu os dois estados e transformou o Rio num município capital do novo Estado. Acabou com o que ele achava uma anomalia (eu também): uma cabeça sem corpo e um corpo sem cabeça. Acabou também com a injustiça para com a periferia -- eu era do Estado do Rio e aplaudi -- mas condenou o Rio à falência – depois fui prefeito do Rio e lamentei.

O primeiro prefeito do município do Rio, nomeado, Marcos Tamoio, botou a boca no trombone, previu a falência futura, teve promessas de ajuda federal que nunca chegou.

E politicamente, eleitoralmente, o Rio continuou comandado por Chagas Freitas, que tinha dois jornais populares, derrotou o velho Amaral Peixoto e prosseguiu na prática da velha política manipuladora da bica dágua manejada com sucesso pelos seus jornais, sem deixar emergir novas lideranças de competência e seriedade.

Brizola não era do Rio nem tinha maior interesse senão pela Presidência da República, mas fez dois líderes competentes; Marcelo Alencar, que brigou com ele e faleceu depois, e Cesar Maia, que também brigou com ele e virou a casaca.

Eu fui o primeiro prefeito eleito pelo povo do Rio e tinha tudo para afundar na falência da Cidade, mas optei por enfrentar o perigo fazendo uma gestão participativa, de poucos gastos e completamente inovadora, junto com Jó Resende. Tive secretários competentes na área de fazenda e planejamento, Antonio Carlos Moraes, Tito Ryff, Aloísio Teixeira e Domênico Mandarino, e consegui administrar a dívida fazendo uma gestão com os Conselhos Governo-Comunidade, que ia chegar ao fim com resultados importantes e aprovação muito elevada. Por isto mesmo, tinha chances muito grandes de ser o próximo governador.

Este quadro preocupou muito velhos e poderosos inimigos (inimigos mesmo, não adversários), e o Ministro da Fazenda, Mailson da Nóbrega, recebeu ordens de alguém superior, que não foi o Presidente Sarney, com toda a certeza não foi, e mandou o Banco Central passar um telegrama a todos os bancos do País, sem falar nada com o Prefeito, proibindo qualquer financiamento de rolagem de qualquer percentual da dívida do Rio, só do Rio de Janeiro, um procedimento absolutamente inédito porque absurdo, nunca feito em parte nenhuma do mundo, com o propósito explícito de levar o Rio à falência, e desmoralizar o seu prefeito definitivamente.

E o Rio de Janeiro, o meu querido Rio de Janeiro, sem líderes, ficou politicamente entregue aos garotinhos, garotinhas e sergios cabrais que todos conhecem. E desceu a rampa escorregadia da decadência total. Ano a ano. Até o assassinato de Marielle Franco que ninguém vai desvendar.

Tudo se passou como bem diagnosticou o competente economista Mauro Osório, que há anos estuda com seriedade a economia e a política do Rio.





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