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Vida e tempo

Por Roberto Saturnino Braga, Colunista de Plurale

Um dos principais monumentos da nossa filosofia ocidental é a obra do pensador alemão Martin Heidegger intitulada “Ser e Tempo”.

Obra de difícil compreensão, extremamente exigente em esforço de leitura de cada parágrafo, de altíssima densidade de significado em cada frase, todavia de uma riqueza incomparável em termos de revelação da essência da vida do ser humano e sua ligação imanente com o tempo. Vida humana e tempo humano, ser humano e tempo seguem sempre juntos, um girando sobre o outro como estrelas binárias. Minha vida é meu tempo; meu tempo é minha vida.

Estive doente, fiquei doente repentinamente, sem nenhum aviso: dormi com saúde e acordei doente, e logo hospitalizado com urgência. Lá fiquei uma semana, sem nenhuma certeza de voltar à casa no início da temporada. Planando sobre o tempo nos primeiros dias; refletindo sobre a vida nos últimos. Uma vida suspensa num fio precário, esta vida humana depois dos oitenta e cinco.

O meu fio resistiu, o de Waldir e o de Valério, não. Infelizmente, lamentavelmente, chorosamente, não.

Waldir Pires foi um notável exemplo deste político que visa ao bem público, que deseja, como missão, realizar o bem público, que não faz política como quem joga xadrez para conquistar a posição do Rei, o cargo público que dá dinheiro e importância, poder, fama, sucesso. Valdir foi deputado, foi consultor geral da República, foi governador, foi ministro, cheio de méritos reconhecidos, e nunca foi o que o povo chama de político profissional, aquele que passa a vida e se especializa em produzir uma boa imagem de si, aparentar mais do que realizar ações de efeito positivo sobre o bem público. Teve como rival mais forte na lide política precisamente um exemplar clássico desses profissionais da manipulação do poder e da imagem em proveito próprio. No confronto dos dois, Waldir era quase um ingênuo. Mas foi maior, muito maior.

Rosa Furtado disse que, quando relembra Waldir, vem-lhe a imagem da dignidade, da correção, da solidariedade nas horas mais e menos tristes, graves. Definiu o sentimento de nós todos.

Valério Mortara foi meu colega de turma na Escola Nacional de Engenharia, o primeiro da turma, estudioso, inteligente, aplicado, sempre procurando ajudar os amigos. Frequentemente eu recebia e-mails de Valério informando isto e aquilo: as datas de pagamento de imposto, os valores padronizados, os bons espetáculos de música, a programação da Sala Cecília Meireles, um ou outro filme excepcionalmente bom, informando sempre para ajudar, era o caráter dele, a personalidade dele que nos deixa um enorme vazio de tristeza.

Valério Mortara, italiano de nascimento e brasileiro de enraizamento profundo, era filho do grande matemático e estatístico Giorgio Mortara, que não quis morar no fascismo de Mussolini e veio para o Brasil com a família, enriquecer enormemente o nosso IBGE.

Sim, o tempo, o mistério do tempo está sempre presente a nos interrogar. Existe o tempo cósmico, universal, de Newton, o tempo da História, que todo mundo sabe o que é e os relógios medem; existe o tempo matemático de Einstein, ligado às três dimensões do espaço, que ninguém consegue entender bem o que seja; e o tempo pessoal de cada ser humano, este sim, sentido, lembrado e festejado pelas venturas de cada um, muito mais do que pelos bolos de aniversário a cada ano.

Exemplifico: eu tive a ventura muito especial de viver minha juventude, recém-casado, nos anos cinquenta, no Rio de Janeiro, durante o auge do seu esplendor, às vésperas da inauguração de Brasília que lhe tirou o trono e a coroa.

Vivência realmente muito especial: a praia ensolarada e a noite serena, segura, a Bossa Nova, Gilberto, Tom e o grande Vinicius, Getúlio e JK, Lacerda e Negrão de Lima, Guimarães Rosa e o Grande Sertão, as grandes companhias de ópera, Giuseppe Di Stefano, Renata Tebaldi, melhor do que Maria Callas, o teatro de Maria Della Costa, de Tonia Carrero e Paulo Autran, os filmes inesquecíveis Cantando na Chuva, Quanto mais quente melhor (oh, Marilyn Monroe), Morangos Silvestres, Matar ou Morrer, A Ponte do Rio Kwai, venturas, meu Deus, quantas o Rio oferecia, a caipirinha aparecendo, a casa rosada da Rua Alice, as mulheres lindas, venturas, venturas do Rio, pensei nisso tudo na cama do hospital, venturas do meu Rio de Janeiro, quem não as teve, nunca mais terá.





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