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PLURALE EM REVISTA - EDIÇÃO 63 - "Empreendedorismo e Inovação Social"

Por Marcus Quintella, Colunista de Plurale (*)

O empreendedorismo, por si só, é fundamental para o desenvolvimento econômico de nosso país e tem grande relevância para a sociedade como um todo, em virtude de direcionar investimentos para atividades produtivas, de forma a contribuir com a geração de emprego, renda e riqueza. No entanto, o empreendedorismo como estratégia de inclusão social é de vital importância para promover a participação igualitária de todos na sociedade, independentemente de classe social, idade, cor da pele, grupo étnico, nível cultural, opção sexual e condição física.

A estruturação e implementação de negócios rentáveis, que, ao mesmo tempo, promovam inclusão social e reduzam a pobreza no país é uma tarefa de difícil execução, mas perfeitamente viável, desde que haja incentivos tributários, linhas de crédito adequadas e suportáveis, apoio governamental e disposição de investidores para aportar capital em negócios inovadores e sustentáveis.

Não tenho dúvida alguma de que os micros e pequenos negócios promovem a inclusão social e possuem grande potencialidade para reduzir o número de pessoas beneficiárias de programas sociais oficiais. Por isso, defendo fortemente o estímulo e o acesso ao empreendedorismo para aqueles que dependem dos poderes públicos para suprir suas necessidades básicas de subsistência.

Esse tipo de empreendedorismo que estou colocando em pauta tem uma conotação eminentemente social, sem qualquer restrição ao retorno financeiro a ser gerado ao empreendedor. Trata-se do chamado empreendedorismo social, estabelecido nos anos 1980, pelo norte-americano Bill Drayton, criador da Ashoka (https://www.ashoka.org/), rede que reúne empreendedores sociais em 90 países e oferece apoio financeiro, logística e mentoria para que ideias saiam do papel.

Bill Drayton sofreu forte influência das ideias humanistas de Martin Luther King e Mahatma Gandhi, bem como pela figura de Ashoka, imperador indiano do século III antes de Cristo, que inspirou o nome de sua rede de empreendedorismo social.

Segundo a Ashoka, os empreendedores sociais são indivíduos que possuem soluções inovadoras para os maiores desafios sociais, culturais e ambientais da atualidade. São pessoas ambiciosas e persistentes e que abordam questões sociais importantes, oferecendo novas ideias para mudanças no nível sistêmico, sempre com o objetivo de utilizar técnicas de gestão, inovação, criatividade e sustentabilidade para transformar pessoas, comunidades e realidades de vida.

Reforçando o aspecto econômico sustentável do empreendedorismo social, cabe ressaltar que os negócios gerados dentro dessa filosofia precisam ter objetivos precípuos claros quanto à redução da pobreza e inclusão social daqueles grupos de pessoas marginalizadas na sociedade, citados anteriormente. Na prática, esses negócios sociais não devem ser concebidos apenas com propósitos de retorno financeiro, mas precisam retornar e remunerar os capitais investidos pelos empreendedores, e, dentro do possível, seguindo os ideais de Bill Drayton, manter os lucros gerados dentro dos próprios negócios, para que haja melhorias, crescimento e perpetuação dos mesmos.

Em 2017, a vitrine de negócios sociais Pipe (https://pipe.social) lançou o 1º Mapa Brasileiro de Negócios de Impacto Socioambiental, que listou 579 empreendimentos que atuam nas áreas de educação, tecnologias verdes, cidadania, cidades, saúde e finanças.

Essa importante pesquisa indica que 70% dos negócios mapeados já estão formalizados, sendo que 40% ainda não completaram três anos de fundação, até 2016, ano-base da pesquisa. A maioria desses negócios (63%), está localizada no Sudeste, com 43% somente em São Paulo. A região Sul recebe 20% dos negócios sociais.

Dos 579 negócios pesquisados, 79% ainda estão na fase de captação de investimentos, junto a fundações, anjos profissionais, incubadoras, aceleradoras, fundos de venture capital e de private equity e por intermédio de crowdfundind e editais de governo.

A maioria dos negócios pesquisados, cerca de 43%, sinalizam seus propósitos por meio de comunicações externas, para que sejam alardeados os compromissos com a inclusão social e a missão de proteção ambiental.

O Brasil possui diversas iniciativas empreendedoras de negócios sociais que vêm promovendo transformações positivas para a camada da população sem acesso às oportunidades dentro da economia. A seguir, são listadas algumas iniciativas sociais importantes.

A Graacc (www.graacc.org.br), por iniciativa do oncologista pediátrico Antonio Sergio Petrilli, desde 1991, vem atuando no combate ao câncer infantil, em todo o país, com uma taxa de cura em torno de 70%, de milhares de pacientes. O Instituto Chapada (institutochapada.org.br), idealizado pela pedagoga Cybele Oliveira, tem como foco a melhoria da qualidade da educação pública, apoiando a formação continuada de professores e gestores de escolas, bem como auxiliando na criação de redes colaborativas voltada a fortalecer o ensino formal e políticas públicas de educação. A Gerando Falcões (gerandofalcoes.com), criada por Eduardo Lyra, jovem da periferia de São Paulo, tem o objetivo de melhorar a vida de crianças que passam pelas mesmas dificuldades enfrentadas por seu fundador e já beneficiou cerca de 30 mil estudantes. A Geekie (www.geekie.com.br), criada em 2011, oferece aprendizado adaptativo para todos, por meio de plataformas de ensino a partir de tecnologias inovadoras, e seus idealizadores, Cláudio Sassaki e Eduardo Bontempo, foram premiados com o prêmio Folha de Empreendedores Sociais. A Artemisia (artemisia.org.br), fundada em 2004, tem a missão de contribuir para o fomento de negócios sociais que tenham grande impacto positivo na vida de pessoas com baixa renda.

Outro exemplo de negócio transformador e de impacto social é a Feira Preta (feirapreta.com.br), considerada como a maior feira de cultura negra da América Latina, que busca fomentar o empreendedorismo étnico e fortalecer a cultura negra no Brasil. Segundo a empreendedora Adriana Barbosa, em 10 edições, a feira já reuniu 400 artistas, 500 expositores e 40 mil visitantes, contribuindo com iniciativas colaborativas, coletivas e inclusivas, em um ambiente de encontro e valorização da cultura negra.

No exterior, alguns exemplos podem ser destacados, como o caso da empreendedora norte-americana Stacy Zoern, que nunca teve a oportunidade de andar, devido a uma atrofia muscular de nascença, e que resolveu investir no projeto de um carro elétrico para apenas uma pessoa, completamente desenvolvido para as necessidades dos deficientes físicos. Esse projeto ganhou o nome de Kenguru (www.kenguru.com) e, em 2015, foi adquirido pela KLD Energy Technologies (www.kldenergy.com) e, atualmente, existe fila de espera para comprar um Kenguru.

Em Atlanta, nos EUA, Brian Preston fundou a Lamon Luther (www.lamonluther.com), com a ideia ousada e inclusiva de contratar moradores de rua para ajudar na construção de móveis domésticos de madeira reciclada. O negócio não é uma organização de caridade ou filantrópica, pois visa lucro como qualquer empresa do mercado, mas tem o propósito de oferecer a oportunidade de uma segunda chance para as pessoas desamparadas e excluídas da sociedade. Os resultados melhoraram a qualidade de vida dos moradores de rua de Atlanta e promoveram a restauração de muitas famílias.

Em San Isidro, na Argentina, quatro jovens portadores de síndrome de Down decidiram abrir uma pizzaria voltada para festas e eventos, a Los Perejiles (www.losperejileseventos.com.ar). Em julho de 2016, a empresa realizou o seu primeiro evento para 50 pessoas e o negócio decolou, tendo os próprios jovens como organizadores da rotina de produção, além de empregar voluntários também portadores de sídrome de Down.

O empreendedorismo voltado para a inclusão social tem o poder de gerar valor para a marca e passa a ser considerado um ativo com grande potencial para atrair investidores, sem dizer que os negócios com essa filosofia são importantes geradores de emprego para jovens, adultos e idosos que sofrem algum tipo de exclusão para entrar ou permanecer no mercado de trabalho, ou seja, aquelas pessoas que não têm as mesmas oportunidades dentro da sociedade. Geralmente, os excluídos são aqueles que não possuem condições financeiras dentro dos padrões definidos pela sociedade, além dos idosos, negros, refugiados, estrangeiros ilegais e desqualificados profissionalmente, analfabetos, portadores de deficiências físicas de todos os tipos, como cadeirantes, deficientes visuais, auditivos e mentais, e obesos.

Infelizmente, a inclusão social por meio do empreendedorismo é incipiente em nosso país e a nossa cultura ainda permite que as pessoas rejeitem a igualdade de direitos e não venham a cooperar com aqueles que fogem dos padrões de normalidade estabelecido pela maioria da sociedade, apesar do discurso hipócrita e enganoso dos governantes, políticos e da classe rica dominante da população.

Em última análise, os empresários, investidores, governantes, políticos e a sociedade, em geral, precisam entender que a inclusão social, ampla, geral e irrestrita, e a igualdade de oportunidades é a chave para o desenvolvimento e o crescimento da sociedade brasileira, como um todo, em termos financeiros, econômicos, sociais, ambientais, morais, éticos, culturais e humanísticos.

(*) Marcus Quintella (mvqc@uol.com.br) é Colunista Colaborador de Plurale. É Doutor em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ, mestre em Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia, considerado um dos principais especialistas em transportes urbanos. Professor da FGV e do IME.





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