Atenção

Fechar

Destaques

PLURALE EM REVISTA - EDIÇÃO 63 - Pinhão na mesa, Floresta viva!

Por Nícia Ribas, de Plurale

Fotos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza/ Haroldo Palo Jr. e de Carlos Dala Stella

Nesta época do ano, os frondosos pinheiros que sobrevivem nas regiões montanhosas do sul do Brasil, principalmente no Paraná e Santa Catarina, frutificam. As pinhas amadurecem e suas sementes, os pinhões, estão cada vez mais valorizados no mercado de alimentos. Graças ao crescimento do consumo, a floresta com araucárias é conservada, pois mais vale um pinheiro de pé dando frutos do que troncos abatidos para o comércio da madeira. No dia 24 de junho foi comemorado o Dia Nacional da Araucária.

Quando chegaram ao Brasil, os primeiros imigrantes europeus encontraram ricas florestas (Ombrófila Mista) com a predominância da araucária (Araucaria angustifolia), espécie que foi quase dizimada nos séculos seguintes por causa da sua madeira de excelente qualidade. Hoje, corre risco de extinção: originalmente, a área com araucária era de 200 mil quilômetros, hoje reduzida a 3% desse total.

Iniciativas como o projeto Araucária+, que fomenta novos negócios entre produtores e empresas para preservar as florestas, e a legislação que criminaliza o corte e oferece incentivos fiscais a proprietários de terrenos com a presença de mata nativa, pinheiros que chegam a ter 50 metros de altura continuam se destacando na paisagem dos planaltos do Sul.

Incentivo legal

Morador em área com a presença de 10 pés de araucária em Santa Felicidade, bairro da colônia italiana de Curitiba, o artista plástico Carlos Dala Stella é beneficiado pela Prefeitura Municipal com 50% de desconto no IPTU, desde que conserve em bom estado sua minifloresta.

Para ele e sua família, que vivem na mesma propriedade desde o início do século XIX, quando chegaram com os primeiros imigrantes, é um orgulho manter as araucárias e ainda ter o privilégio de catar pinhões no terreno. Carlos calcula entre 120 e 150 anos a idade dos seus pinheiros, destacando uma fêmea, ainda mais antiga, carinhosamente chamada de pinharona, que fica bem no meio da floresta. Pássaros e esquilos que também habitam a área fartam-se: “Quando surgem os primeiros pinhões do ano, os esquilos costumam escondê-los entre telhas e arbustos, garantindo suas refeições futuras”, conta Carlos.

Manter a floresta dá lucro

A Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, em parceria com a Certi – Centro de Referência em Tecnologias Inovadoras, vem investindo em ações pró produção sustentável de pinhão e erva mate (que integra a mesma floresta) através do projeto Araucária+, que desde 2013 recupera áreas degradadas no planalto serrano catarinense.

A estratégia do projeto é agregar valor aos produtos para incentivar a preservação da floresta. Proporcionando emprego e renda à população, todos passam a cuidar com afinco da sua galinha dos ovos de ouro. Produtores da região recebem orientação técnica para fazer a coleta das pinhas e outras ações de manejo responsável. Em seguida são conectados a um mercado diferenciado integrado por empresas com estratégias de inovação e sustentabilidade em seus produtos.

Numa ponta, estão os produtores rurais e na outra, empresas dispostas a bancar um sobrepreço pelos insumos sustentáveis de espécies nativas – como o pinhão e a erva-mate. Além de vender seu produto por um preço acima do mercado, o produtor que se dispõe a manter em seu terreno uma área destinada a formar um reservatório genético, recebe uma bonificação: “toda operação comercial gera um percentual para formar um fundo que vai estimular a criação de florestas originais, não manejadas”, explica Guilherme Karam, coordenador de Negócios e Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário,.

Karam, anuncia a expansão do projeto para outras localidades além do planalto serrano catarinense e até para outros biomas: “Antes queremos formar uma base de produtores cadastrados bem consolidada e buscar maior demanda por meio das empresas compradoras”. Há produtores que não concordam com o padrão sustentável definido por especialistas, que inclui restrições como não poder coletar todo o pinhão ou a erva mate e não usar defensivo agrícola.

Hoje o projeto contabiliza 660 hectares de floresta conservada, envolvendo cerca de 20 empresas, sendo que três já realizam operações comerciais com 13 produtores rurais. E mais de 80 produtores e 30 organizações estão se articulando para entrar no esquema.

O Araucária+ tem o apoio da Codesc – Companhia de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina e já foi reconhecido como case de inovação pela Fundação Getúlio Vargas e pela Fundação Banco do Brasil, além de ter conquistado o prêmio von Martius de Sustentabilidade e o Troféu Onda Verde do 24º. Prêmio Expressão de Ecologia.

Pinhão em alta

Sopa de pinhão, farofa de pinhão, ensopado de carne com pinhão e inúmeras outras receitas têm enriquecido a mesa do brasileiro. Chefs famosos já criaram suas iguarias usando a semente saborosa. Simplesmente cozido em panela de pressão ou assado na brasa, o pinhão é bastante apreciado numa noite típica de inverno. As festas juninas do sul do Brasil não dispensam a panela com pinhão quentinho. E já são tradicionais as inúmeras festas do pinhão, como a de Lages (SC), que costuma atrair centenas de pessoas. Para facilitar o consumo, eles utilizam um descascador de pinhão, vendido em qualquer loja de artigos para casa.

Uma cervejaria da cidade de Palmas (PR), chamada Insana (foto), decidiu apostar na semente da araucária e está fazendo sucesso ao mesmo tempo em que fomenta o correto aproveitamento da floresta. Três amigos começaram a fazer cerveja de pinhão em casa e hoje já produzem 45 mil garrafas por ano e distribuem para todo o Brasil.

Orientados pelo Araucária+, eles seguem o padrão ecologicamente correto através da colheita na época certa e na quantidade adequada, pois é preciso deixar uma porção de pinhão para os animais e pássaros da área conservada. No rótulo da Insana, um selo do projeto informa que o consumidor está colaborando para a preservação da floresta.

A força indígena há 1000 anos

Arqueólogos acabam de constatar que as imensas florestas de araucária no sul do País, principalmente em Santa Catarina, tiveram uma importante participação dos índios Proto-Jê, cujos descendentes atuais são as etnias Kaingang e Xokleng. Isso porque a araucária se expandiu numa época em que o clima era desfavorável ao seu crescimento e tem associação estreita com os assentamentos das principais sociedades indígenas dos planaltos sulinos.

Para o arqueólogo Jonas Gregório de Souza, da Universidade de Exeter (Inglaterra), os indígenas tinham consciência de que expandindo a planta favoreceriam a subsistência de uma sociedade no longo prazo, uma vez que um pinheiro demora cerca de 40 anos para amadurecer

A equipe de estudiosos, que inclui também pesquisadores da USP e da Universidade Federal de Pelotas, verificou que esse tipo de floresta, que abriga também espécies como a Ilex paraguariensis, a erva-mate, passou por uma fase inicial de expansão entre 4500 e 3000 anos atrás, época em que ainda havia poucos sinais de atividade agrícola e sedentarismo na região. Nessa fase, o crescimento das araucárias se concentrou principalmente à beira de rios do planalto. Depois disso, há um longo período de estagnação desse avanço, que retorna entre 1500 e 1000 anos atrás, coincidindo com uma fase de expansão e aumento da complexidade e tamanho dos assentamentos Proto-Jê.





Ir para lista de artigos e notícias


Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!