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Cristina Serra, Jornalista, sobre o livro 'Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil' - "Meu objetivo foi contar histórias de pessoas"

Repórter com grande experiência lança livro sobre a maior tragédia ambiental do Brasil, que resultou na morte de 19 pessoas e em forte impacto para a biodiversidade na Bacia do Rio Doce

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Do Rio de Janeiro

Fotos de Luís Paulo Ferraz, Editora Record/ Divulgação e Antonio Cruz/ Agência Brasil (Arquivo)

Repórter experiente, com 30 anos de carreira, Cristina Serra sabe identificar quando está diante de uma grande reportagem. Foi assim ao cobrir a maior tragédia ambiental do Brasil, o rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, empresa controlado meio a meio por duas das maiores mineradoras do mundo – a brasileira Vale e a australiana BHP. Cristina fez para o Fantástico, da TV Globo, emissora à qual trabalhou por 26 anos, a cobertura do acidente, que deixou 19 mortos, centenas de atingidos que ficaram sem casa e um rastro de impacto na biodiversidade de cerca de 800 quilômetros ao longo da Bacia do Rio Doce.

“Percebi que tinha ali uma grande reportagem para contar. Comecei a escrever o livro. Meu objetivo foi contar histórias de pessoas”, conta à Plurale, nesta entrevista. Passou o Natal de 2015, o primeiro após a tragédia com as famílias sobreviventes e dali para a frente começou a apurar o livro Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil, que está sendo lançado nesta terça-feira, dia 6 de novembro, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Ao todo foram mais de 100 entrevistas: a descrição dos bastidores da reportagem transporta o leitor para o desolador cenário de devastação. Três anos após o aciente, a jornalista fala no livro não só da histórias dos mortos, mas também do Rio Doce, o qual ela também trata como um importante personagem nesta história.

A expectativa de Cristina Serra, infelizmente, é que dificilmente a Justiça será feita. “Acredito que este caso tem tudo para dar em nada. A prescrição de alguns crimes já está batendo à porta e o risco de impunidade é enorme.” A jornalista avalia que algumas lições importantes ficam desta tragédia anunciada, uma vez que a empresa sequer instalou uma sirene nas comunidades próximas em caso de emergência.

“São muitas lições, mas uma das mais importantes, foi sintetizada pelo engenheiro geotécnico, Jean Pierre Rémy, francês radicado no Rio de Janeiro, que conhece bem o caso de Fundão. A lição é de que muitas vezes na vida é preciso dizer "não", mesmo que você tenha que pagar um preço alto por isso - como perder um contrato - e a despeito de todas as pressões. A lição é de que os valores éticos e humanistas tem que estar acima do objetivo de ganhar dinheiro, que é legítimo, mas não pode estar acima da segurança das pessoas e da preservação do bem-estar coletivo e do meio ambiente saudável que, segundo a nossa Constituição, é patrimônio de todos e das futuras gerações”, afirma Cristina.

O lançamento do livro Tragédia em Mariana – A história do maior desastre ambiental do Brasil, pela Editora Record (462 págs/ R$ 59,90) marca também novos desafios para Cristina Serra. Depois de ter ajudado a criar o canal no YouTube My News, ela agora segue em voo solo. Quer se dedicar mais às grandes reportagens, especialmente com foco em Meio Ambiente. Fôlego não faltará, certamente. Paraense, a jornalista é formada em Jornalismo na Universidade Federal Fluminense, que trabalhou para várias redações, entre as quais o Jornal do Brasil, Revista Veja e por 26 anos da Rede Globo, onde foi foi repórter de política em Brasília, correspondente em Nova York e comentarista do quadro Meninas do Jô, no Programa do Jô. Cristina é, sem dúvida, uma das mais bem qualificadas jornalistas de sua geração. A seguir a entrevista para Plurale.

Plurale - Você é jornalista experiente, com 30 anos de carreira - foi repórter de Política em Brasília por muitos anos, Correspondente Internacional, cobriu várias tragédias e casos de repercussão pelo Fantástico. Esta foi a reportagem mais difícil e intensa que já fez?

Cristina Serra - Como repórter, vi de perto muitas tragédias, de impacto humano gigantesco, como o terremoto no Haiti e as chuvas na região serrana do Rio de Janeiro. O colapso da barragem de Fundão, da Samarco, também teve consequências humanas e ambientais dramáticas. O que me motivou a escrever o livro foi um conjunto de fatores, mas especialmente a percepção de que havia responsabilidades pelo colapso. O rompimento não foi decorrência de um fenômeno natural, como um terremoto ou chuvas excepcionais. Foi consequência de decisões erradas tomadas ao longo de todo o histórico da barragem. Achei que ali tinha uma história pedindo para ser contada.

Plurale - Quando percebeu que ali havia um livro/reportagem para ser escrito? Em quanto tempo escreveu o livro? Quantas entrevistas foram feitas?

Cristina Serra - Fui passar o Natal de 2015 com famílias dos atingidos. Isso teve um impacto muito grande sobre mim. Como era de se esperar, as pessoas estavam muito tristes. Era tudo muito recente. O que mais me impressionou, porém, foi perceber a fibra daquelas pessoas em tentar reconstruir suas vidas, superar as perdas e fortalecer os laços entre elas. Bento Rodrigues era um povoado com mais de 300 anos. Algumas famílias descendem de escravos que trabalharam na mineração. Portanto, os laços comunitários ali são muito fortes. O rompimento abrupto desses laços provocou um impacto psicológico muito grande nos moradores. Apesar disso, a força deles para seguir em frente me impressionou muito. Lembro de pensar sobre isso no avião, voltando para o Rio de Janeiro para editar a matéria. Acho que isso e outros fatores que já mencionei me levaram, nesse momento, a pensar que tinha um livro nas mãos. Posso dizer que trabalhei no livro nos últimos três anos porque fui juntando material desde que fui à Mariana, em novembro de 2015 para fazer uma reportagem para o Fantástico, onde trabalhava na época. Fui tocando o livro enquanto ainda trabalhava na TV, mas tirei duas licenças, de seis meses cada, para me dedicar integralmente a ele e ao fim da segunda licença meu contrato acabou e decidi não renová-lo para que pudesse terminar o livro com calma. Fiz mais de 100 entrevistas, além de algumas conversas em off. Meu objetivo desde o começo era contar uma história com personagens que o leitor pudesse conhecer, sem que estivessem, digamos, camuflados pelo off. Algumas pessoas, porém, só concordaram em falar sobre alguns aspectos da investigação em off. Como essas pessoas tinham informações importantes, concordei em ouvi-las sob a condição do anonimato. Mas, realmente, foram muito poucas.

Plurale - Se tivesse que apontar culpados por esta que foi a maior tragédia ambiental do Brasil e das Américas, quem apontaria? A Samarco...os projetistas da barragem... as instituições do licenciamento ambiental....autoridades que não fiscalizaram como deveriam ter feito....

Cristina Serra - A Justiça dirá quem são os culpados. Desde o começo, meu objetivo foi contar histórias: as histórias das 19 pessoas que morreram; a história da construção da barragem, de seu processo de licenciamento e das pessoas nele envolvidas; da investigação; e do Rio Doce, o qual eu também trato como um personagem. A investigação aponta muitos erros cometidos pelos dirigentes da empresa e dos operadores da barragem e isso está relatado. Meu esforço foi mostrar os vários aspectos dessa tragédia e ouvir o máximo de pessoas que tivessem alguma coisa a contribuir com a compreensão do desastre. Deixo as conclusões para os leitores.

Plurale - O seu livro mostra também o poder dos controladores da Samarco - empresa meio a meio controlada por duas das maiores mineradoras globais - a brasileira Vale e a australiana BHP.

Cristina Serra - A investigação do Ministério Público Federal mostra isso. O MPF fez um trabalho bastante exaustivo sobre a governança da Samarco e sobre a participação das duas controladoras, por meio do Conselho de Administração. Os Procuradores examinaram praticamente todas as atas das reuniões do Conselho e as das várias instâncias de governança da mineradora. São milhares e milhares de páginas de anexos da denúncia oferecida pelo MPF e aceita pela Justiça Federal. Nesse aspecto, meu trabalho foi selecionar as informações mais relevantes, interpretá-las com a ajuda de especialistas e fazer as devidas conexões entre os fatos para que o leitor possa entender o que aconteceu.

Plurale - Até hoje a Justiça ainda não foi realmente feita. Ninguém foi preso. O pagamento justo de indenizações ainda é questionado. Acredita que será mais um caso para não ser feita Justiça, dentro da morosidade e recursos sempre impetrados pelos mais poderosos? Qual tem sido o papel de Procuradores e do Judiciário neste caso, na sua opinião?

Cristina Serra - Os Procuradores fizeram uma investigação bastante abrangente e minuciosa, ofereceram a denúncia com os devidos crimes tipificados, pouco antes do aniversário de um ano do caso e a Justiça aceitou a denúncia. O processo criminal corre na Justiça Federal em Ponte Nova, Minas Gerais, sob cuja jurisdição está Mariana. O processo se arrasta lentamente, o que já era esperado dado o número de réus, 22 ao todo e mais as empresas, e a infinita possibilidade de recursos. O Juiz encarregado do processo tem milhares de outros sob sua responsabilidade. Portanto, acho que este caso tem tudo para dar em nada. A prescrição de alguns crimes já está batendo à porta e o risco de impunidade é enorme.

Plurale - De todas as histórias contadas qual mais te emociona? A da Paula, a moça da moto, que ajudou a salvar muitas vidas avisando da enxurrada de lama? Ou a do sobrevivente Romeu, que estava na crista da barragem quando ela rompeu?

- Essas duas histórias são especiais, de fato, embora muitas outras me emocionem. Paula Alves é um ser humano extraordinário. Ela estava na área rural do povoado quando viu a lama se aproximando. Subiu na sua motinha e correu para o povoado, onde ela morava com o filho e os pais. Paula rodou por Bento Rodrigues até a gasolina acabar avisando as pessoas para que saíssem de casa. Ela foi a sirene que a Samarco devia ter instalado nos povoados próximos da barragem e não instalou. Romeu estava na crista da barragem quando ela rompeu. Ele afundou na lama e é um milagre que tenha sobrevivido. Outra história que me comove muito é a da diretora da escola, Eliene, correndo com seus alunos para se salvarem, entre eles uma moça de 15 anos que estava grávida de oito meses.

Plurale - Lugarejos/distritos inteiros foram engolidos pela lama. A biodiversidade de toda a Bacia do Rio Doce - de Minas Gerais até a foz no Espírito Santo - foi atingida. Ninguém sabe ao certo quando os danos poderão ser reparados. A Renova (empresa criada para gerir a crise e reparar os danos) tem procurado divulgar esforços ao menos para tentar reparar estes danos. O livro mostra também este lado da história?

Cristina Serra - O livro mostra o caminho da lama e o impacto desta na bacia do Rio Doce até a chegada no Oceano Atlântico. No fim de 2017, percorri o caminho da lama, que eu já havia percorrido em 2015. A mancha no oceano tinha se espalhado, mas continuava lá. Os técnicos do ICMBio, que monitoram a dispersão da lama, encontraram fragmentos da mancha no arquipélago de Abrolhos, ao norte da foz, e no litoral de Cabo Frio, no Rio de Janeiro, ao sul da foz, que fica em Regência, no Espírito Santo. Isso dá uma ideia do alcance desse desastre. Outros impactos estão relatados no livro, mas o fato é que todos os pesquisadores que ouvi não sabem avaliar se o rio vai se recuperar e em quanto tempo. Menciono algumas iniciativas de recuperação da Renova, mas não pude mostrar esse trabalho de forma mais detalhada por duas razões. Primeiro, a Renova demorou meses para responder ao meu pedido de entrevista. Quando me responderam, o livro estava pronto e eu acabara de entregá-lo para a Editora. O segundo fator é que, ainda que eu tivesse tido tempo, me parece que o trabalho da Renova evolui mês a mês e qualquer coisa que eu escrevesse estaria desatualizada quando o livro fosse publicado. Como eles tem um site para divulgação de seu trabalho, quem tiver curiosidade pode consultá-lo. Me preocupei em contar histórias de quem não teria como contá-las se não fosse o livro.

Plurale - Você sofreu muitas pressões ao escrever o livro?

Cristina Serra - A única pressão foi a do tempo para entregar o livro no prazo (risos).

Plurale - Você foi repórter da TV Globo por 26 anos. Primeiro pediu licença para fazer a reportagem. Depois saiu. O livro foi responsável pela sua saída?

Cristina Serra - O livro foi um dos fatores. Eu percebi que jamais conseguiria fazer o livro que queria fazer se continuasse trabalhando na televisão. Na época, como falei, eu era repórter do Fantástico. Cada semana cobria um assunto diferente em algum lugar distinto do país. Uma semana estava em Manaus, na outra em São Paulo, na outra no Recife. Vida de repórter é assim mesmo e eu adorava o que eu fazia. Mas não estava tendo tempo nem condições de focar no livro. Fiz uma escolha. Não foi fácil. Mas, quando recebi o livro da editora pronto, com a capa impactante que ele tem, me dei conta do trabalho que fiz e tive a certeza de que fiz a escolha certa. Eu me comprometi 100% com essa história e, modéstia a parte, acho que cumpri minha missão.

Plurale – Na sua opinião, que lições podem ser tiradas desta tragédia para empresas e para o gerenciamento de crises ambientais no Brasil?

Cristina Serra - São muitas lições, mas eu diria que uma das mais importantes, foi sintetizada por um engenheiro geotécnico, Jean Pierre Rémy, francês radicado no Rio de Janeiro, que conhece bem o caso de Fundão. A lição é de que muitas vezes na vida é preciso dizer "não", mesmo que você tenha que pagar um preço alto por isso - como perder um contrato - e a despeito de todas as pressões. A lição é de que os valores éticos e humanistas tem que estar acima do objetivo de ganhar dinheiro, que é legítimo, mas não pode estar acima da segurança das pessoas e da preservação do bem-estar coletivo e do meio ambiente saudável que, segundo a nossa Constituição, é patrimônio de todos e das futuras gerações.





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3 comentários | Comente

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Hierania |
Parabéns! A entrevista com a jornalista Cristina Serra está excelente. Adorei.

Cristina Serra |
Meu livro é baseado em 115 entrevistas com vítimas, atingidos, autoridades federais e estaduais do Executivo, Judiciário e Ministério Público, investigadores, funcionários e dirigentes das três empresas envolvidas, pesquisadores, cientistas. Também examinei milhares de páginas de documentos, laudos e perícias. É um extenso trabalho jornalístico que recomendo aos leitores.

Luciano |
Infelizmente não vejo o livro da Cristina Serra como algo verdadeiro, pois historia coletada apenas de uma lado não pode ser historia. Vejo algo mercenario e oportunista, infelizmente este material esta em Ctrl + v - Ctrl + v. Uma pena como a jornalista explora uma trajedia para o bem próprio. Mais uma vez a real condição do jornalismo brasileiro. Que vergonha de livro.