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As "armas" da Sustentabilidade, por Luiz Antônio Gaulia

Luis Antônio Gaulia é Colunista de Plurale (*)
Este título é uma provocação. Um estímulo para a reflexão e a crítica. Li num grande jornal que a Alemanha tornou-se um gigante armamentista mundial, ficando atrás somente da Rússia e dos EUA. E que a China também já está nessa corrida macabra. Além de outros países – o Brasil inclusive (como grande vendedor de armas de “pequeno porte”). Fui pesquisar algumas empresas fabricantes de armas para saber mais sobre essa verdadeira fonte de riqueza e destruição, emprego e morte.
Apesar do lamentável antagonismo das palavras é assim mesmo que o negócio existe. Riqueza e morte. A incoerência que ao mesmo tempo em que movimenta a economia numa ponta, produz desgraça social e ambiental na outra. Se armas precisam ser usadas em guerras e conflitos - para que sejam gastas, consumidas, utilizadas e depois renovadas em seus estoques, a relação é de ganha-perde. Enquanto o fabricante ganha, o comprador perde. A natureza idem.
E o que chama a atenção, logo de saída, quando pesquiso este universo de verdadeiros “fabricantes de morte”, é que a indústria bélica tem ligações com empresas e marcas conhecidas do grande público. Empresas empenhadas na “busca da sustentabilidade” e cujas declarações corporativas refletem seus compromissos com a responsabilidade social e ambiental. Ora bolas (ou balas), como assim?
Ora, assim mesmo. Empresas que defendem o desenvolvimento sustentável nas suas missões, nas linhas de seus códigos de ética e valores num negócio, mas também geram resultados e dividendos polpudos com a fabricação e a venda de armas. Um “produto” que não deixará pedra sobre pedra após sua utilização. Cujo legado será a terra arrasada. A poluição ambiental. Rastro de miséria e do desrespeito à vida.
Vamos para alguns exemplos práticos. Eu já havia escrito sobre a Kongsberg que opera na área de petróleo e gás, com seu relatório de sustentabilidade de um lado e a fabricação de mísseis e equipamentos de “defesa” (eufemismo para armas de destruição) do outro.
Mas tem mais, muito mais. Por exemplo: Thyssenkrupp, corporação global da siderurgia que, de acordo com seu site, tem na responsabilidade corporativa um compromisso na direção de ações sustentáveis. Entretanto, possui como uma de suas subsidiárias a HDW, uma fabricante de submarinos militares e navios de guerra. Incoerente?
Outro exemplo: Grupo IVECO, pertencente à FIAT, produz veículos blindados de combate. Mais: Otto Melara que produz uma infinidade de tipos de canhões, metralhadoras para aviões, artilharia naval entre outros produtos, faz parte da Finmecanica que tem ligações com empresas como GE e Boeing.
Meu recado: que fabriquem suas bombas, mísseis, metralhadoras etc. – mas não finjam ser “do bem”. Que sejam coerentes. Sem hipocrisia. Não publiquem balanços sociais, façam discursos politicamente corretos, defendam uma “cidadania corporativa” enquanto tiverem negócios com armas. Enquanto tiverem conexões diretas ou indiretas com fabricantes de armas. Com vendedores da morte.
Sei que a guerra sempre deu muito dinheiro para muita gente. Mas é da minha natureza acreditar que temos inteligência para fazer um futuro sem guerras e sem armas. Acredito que a sustentabilidade nunca será modelo de gestão para a indústria bélica – porque este tipo de negócio não pensa no longo prazo. Pensa no curto prazo e tem na cegueira do lucro rápido uma lógica homicida.
PS: jogando mais lenha nessa fogueira - o Brasil está comprando um submarino nuclear por cerca de 20 bilhões de reais. Mais outros caças por tantos milhões mais. Quanto isso valeria em termos de investimento em educação para a criançada que ainda joga malabares pelas ruas de nossas cidades? Armas ou livros? Fica o convite para a reflexão em ano de eleições.
REFERÊNCIAS:
Finmeccanica (www.finmeccanica.it)
Kongsberg (www.kongsberg.com)
Oto Melara (www.otomelara.it)
Thyssenkrupp (www.thyssenkrupp.com)
(*) Luiz Antônio Gaulia (lgaulia@bol.com.br) é Colunista de Plurale, colaborando com um artigo sobre Sustentabilidade por mês, e sócio da Rebouças & Associados.





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