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UERJ participa de estudo que pode mudar tratamento mundial do câncer de próstata; pesquisador enfrentou a doença com terapia que ajudou a desenvolver

Uma pesquisa com participação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) acaba de produzir uma das evidências científicas mais relevantes dos últimos anos no tratamento do câncer de próstata. Os resultados do estudo internacional PROTEUS demonstram, pela primeira vez em um ensaio clínico de fase III, que trata pacientes antes da cirurgia reduz o risco de metástases e pode redefinir o tratamento padrão dos casos de alto risco em todo o mundo. Um dos protagonistas dessa história é o urologista Fabrício Carrerette, pesquisador da UERJ, que, após seis anos dedicado ao estudo, recebeu o diagnóstico da doença e foi tratado com o mesmo protocolo que ajudava a investigar.

"O PROTEUS muda a forma como enxergamos o tratamento do câncer de próstata de alto risco. Pela primeira vez conseguimos demonstrar que iniciar a terapia antes da cirurgia gera um benefício concreto para o paciente, reduzindo o risco de disseminação da doença. É uma conquista que tem potencial para mudar diretrizes internacionais", afirma Carrerette.

O PROTEUS é considerado um divisor de águas para pacientes com câncer de próstata de alto risco, grupo que apresenta maior probabilidade de progressão da doença, recorrência após o tratamento e desenvolvimento de metástases. A pesquisa demonstrou que a terapia iniciada antes da cirurgia aumenta as chances de controlar o tumor e reduz o risco de o câncer se espalhar para outros órgãos, como ossos, pulmões e fígado.

A estratégia, chamada tratamento neoadjuvante, consiste na administração de medicamentos antes da cirurgia para reduzir o tamanho do tumor, facilitar sua retirada e diminuir a possibilidade de permanência de células cancerígenas no organismo.

No estudo, os pacientes receberam uma combinação de medicamentos que bloqueiam a ação da testosterona, hormônio responsável por estimular o crescimento da maioria dos tumores de próstata. Como consequência, muitos chegaram à cirurgia com tumores menores e melhores condições para um tratamento com intenção curativa.

O avanço é considerado histórico porque, até agora, os estudos mostravam principalmente benefícios laboratoriais, como a redução do PSA — proteína utilizada para monitorar a evolução da doença — ou alterações favoráveis observadas no tecido retirado durante a cirurgia. O PROTEUS foi além ao comprovar impacto em um desfecho considerado decisivo na oncologia: a redução do risco de metástases, um dos principais fatores associados às chances de cura e à sobrevida dos pacientes.

Realizado em fase III, etapa decisiva para aprovação de novos tratamentos, o estudo comparou a nova estratégia ao tratamento convencional em um grande número de pacientes, confirmando sua eficácia e segurança antes de uma possível incorporação à prática clínica.

A UERJ participa do PROTEUS desde 2019 por meio do Centro de Pesquisa em Urologia (CEPUSA). Fabrício Carrerette iniciou sua atuação como subinvestigador e atualmente é o investigador principal do centro. Ao longo desses anos, acompanhou dezenas de pacientes, participou das cirurgias e monitorou os resultados da estratégia terapêutica.

Em 2024, porém, a pesquisa deixou de ser apenas um trabalho científico. Carrerette recebeu o diagnóstico de um câncer de próstata de alto risco, com suspeita de extensão além da glândula, e decidiu seguir o mesmo protocolo que ajudava a avaliar. Durante seis meses, passou pelo tratamento hormonal intensificado antes da cirurgia. O tumor apresentou redução significativa, permitindo uma operação com excelente resultado e resposta altamente favorável na análise patológica.

"Passei a enxergar o estudo pelos dois lados. Como pesquisador, vi a robustez dos dados científicos. Como paciente, experimentei o impacto desse tratamento na minha própria vida. Isso reforçou minha convicção de que estamos diante de uma mudança de paradigma para milhares de homens que receberão esse diagnóstico nos próximos anos", destaca o urologista.

Especialistas avaliam que os resultados do PROTEUS deverão servir de base para a atualização das futuras diretrizes internacionais para o tratamento do câncer de próstata de alto risco, aproximando essa doença do modelo terapêutico já consolidado em tumores como os de mama e reto, nos quais o tratamento antes da cirurgia faz parte da prática clínica há décadas.





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