Atenção

Fechar

estante

Pablo e o Ciclo da água

Pablo e o Ciclo da água

Publicação: 2020

A entrevista foi publicada na Revista Plurale. Três anos depois, o livro se mostra ainda mais atual: cuidar das águas é urgente para manter nosso próprio ciclo de vida.

Fantasia que ensina

Quantas vezes se aborda, em sala de aula, temas da educação ambiental? Cartilhas em geral dão conta da teoria, mas nem sempre conseguem cativar o aluno. Aí entra em cena a literatura, abrindo portas para o lúdico, o humor, o mágico. Caso de Pablo e o Ciclo da Água, livro que acompanha as aventuras e transformações de um boneco de neve e seus amigos. Conversamos com a escritora Raquel Ribeiro e Andréia Vieira, ilustradora que une talento e sensibilidade para criar personagens e paisagens plenos de vida.

Por Jean Pierre Verdaguer

Plurale: Qual é a história de Pablo?

Raquel: Pablo é um boneco de neve que nasceu e viveu em Sierra Nevada, na Espanha, até que três garotas o encontram, percebem sua solidão e criam dois companheiros para ele. Com Miró e Pilar, os bonecos se divertem até... a chegada da primavera! Aí começa a grande aventura. Enquanto os amigos atravessam o Atlântico, o leitor vai admirando a riqueza das águas e sua fabulosa capacidade de transformação. Nas entrelinhas, a criança percebe que a água é um recurso que se recicla naturalmente, mas que sofre o impacto negativo das ações humanas.

Plurale: O que vocês trouxeram de novo ao abordar o ciclo natural da água?

Andréia: Como diria Rubem Alves, a educação deve criar a alegria de pensar, pois só aprendemos quando criamos uma relação de amor e curiosidade com o quê e com quem nos ensina. E só protegeremos nosso planeta, quando tivermos esse senso de pertencermos, trazendo essa consciência de maneira natural e amorosa em cada gesto diário. O livro convida a criança a fazer essa ponte, levando-a a viajar com as águas, por meio da brincadeira, da imaginação e de uma história fluida, leve e divertida.

Plurale: De que forma o livro contribui para a educação ambiental dos pequenos?

Raquel: Quando escrevi meu primeiro livro para crianças, A Fuga das Minhocas, estava completamente encantada com o processo de compostagem de resíduos orgânicos. Via (e ainda vejo) como solução para o problema do lixo. Usei a aventura das minhocas para ensinar sobre o assunto e incentivar o consumo consciente. Pablo não levanta a bandeira ecológica de forma tão óbvia... A criança pode se ater mais nas relações de solidariedade, amizade e confiança entre os personagens ou problematizar a questão da água. Todas as leituras são desejáveis.

Plurale: Pela experiência de vocês, o que leva o leitor a aprender sem perceber que está aprendendo?

Raquel: Acredito no prazer do texto e na sedução das palavras. Quando a criança é fisgada por uma imagem (seja uma rima, uma piada ou uma cena), ela decora. Vale lembrar que a origem dessa palavra é cor, coração. Ou seja, ela aprende pelo caminho do coração. Ver uma foto de uma tartaruga estrangulada por um aro plástico ensina, claro, mas a de um belo coral, também! Não tivemos tevê em casa durante toda a infância da minha filha e hoje percebo como selecionar desenhos para ela assistir em DVD ajudou a formar seu caráter. Kung Fu Panda, Toy Story e Wall-E são ótimos exemplos de filmes educativos que não se vendem como educativos. Para além de educativos, são edificantes! Honra, responsabilidade e compaixão são alguns dos valores belamente transmitidos. É com essa turma que Pablo se identifica!

Andréia: O prazer, a curiosidade, a alegria e também – por que não? – os sentimentos de tristeza e recolhimento. Um livro pode ajudar a criança a dar voz a seus fantasmas e sonhos, em uma fase em que muitas vezes não sabe nomear os sentimentos.
Somos também cativados por imagens escritas ou desenhadas, como as cores que evocam um pôr do Sol, um abraço que lembra o carinho de uma avó, o movimento dos pés batendo na água fresquinha, que nos remete ao prazer que a natureza nos traz. Um bom livro deve ter imagens que tocam o leitor por meio de uma síntese lírica dos sentimentos.

Plurale: Pablo e seus amigos passam pela mudança de estado físico. Como ilustrou essa transformação?

Andréia: Ah, esse foi um dos maiores desafios que senti e me fascinou ao receber o projeto! Achei simplesmente deliciosa essa inquietude da transformação que a história traz, porque reflete nossa próprias transformações de vida: vivemos nos desmanchando, nos reerguendo, nos reconstruindo e por vezes com a ajuda de outros. Por isso mesmo, achei que Pablo não deveria aparecer na capa: compreendi que o grande personagem do livro é a natureza. Procurei passar essas sensações através do movimento das águas, da neve, do sol que brilha, das alterações de cores.

Plurale: Como imaginam Pablo e o Ciclo da água em sala de aula?

Raquel: Criei a história durante uma viagem à Espanha, para minha filha, na época com sete anos. Acho que os pequenos vão se apaixonar pelas ilustrações dos divertidos bonecos de neve. E os pré-adolescentes talvez se identifiquem com o processo de transformação – afinal, eles sentem isso no próprio corpo! O professor pode pegar vários ganchos: pegada da água, realidade dos mares e o ciclo da água propriamente dito. A leitura pode inspirar a construção de um terrário hermeticamente fechado, de uma oficina culinária, ou de um estudo geográfico (a aventura começa no sul da Espanha e termina no litoral brasileiro). Também podemos simplesmente contar a história, deixando a turminha fantasiar livremente.

Andréia: Procurei incluir elementos de fauna e flora que remetessem à Sierra Nevada, como as gencianas azuis, flores belíssimas de cores vibrantes e como alerta ambiental fiz apenas uma referência discreta ao lixo dos mares. É um tema fundamental, mas preferi optar por um trabalho luminoso. Acredito que a disseminação da luz e beleza no mundo pode despertar sentimentos de transformação no planeta.. E o trabalho continua além do livro e da sala de aula! A turma pode, por exemplo, promover um mutirão de limpeza de um rio, uma praia, uma praça. O que os olhos veem, o coração sente e jamais esquece. Certa vez ouvi um menino pequeno perguntar se a laranja nascia na caixinha. A reaproximação com a natureza é fundamental em tempos de suco em caixinha e água engarrafada.