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A bicicleta pode ser considerada um modo de transporte?

Por Marcus Quintella, Colunista de Plurale

A questão do título deste artigo parece simples de ser respondida, mas não é, visto que gera muita polêmica entre os cidadãos, usuários ou não de bicicleta. Isso ficou bem claro quando postei em meu blog no Jornal do Brasil (www.jblog.com.br/ttp.php) um pequeno artigo sobre o tema, pois recebi muitos comentários favoráveis e contrários à bicicleta como modo de transporte.

Tudo começou quando encontrei na Internet um artigo muito interessante, intitulado “A bicicleta como meio de transporte”, publicado no Diário de Santa Maria, n° 2.476, em 19/04/2010, assinado por Israel Pereira Marques Neto. O tema é bastante atual e serve como reflexão para os governantes brasileiros, pois aborda o descaso do homem com o meio ambiente e a falta de políticas públicas para essa questão, além de ressaltar a existência da cultura do automóvel e a invasão de veículos motorizados nas ruas.

Antes de apresentar um resumo dos comentários enviados ao meu blog, cabe destacar que esse artigo sugere o incentivo da bicicleta como um modo de transporte menos poluente, saudável e econômico, mostrando que se trata de um investimento barato, que pode “se pagar” em torno de três meses, se comparado aos custos com as tarifas de ônibus e a economia da mensalidade com uma academia. O autor acrescenta ainda que a bicicleta reduz os gastos com combustível e proporciona ganho de tempo, visto que se trata de um dos meios de transporte mais rápidos, para distâncias de até 15 quilômetros. Segundo Marques Neto, o governo dá uma série de incentivos ao consumo dos veículos motorizados, como a redução do IPI, mas não mostra o mesmo ânimo no incentivo ao uso das bicicletas, esquecendo de incluir nos planos diretores das cidades a construção de ciclovias para garantir segurança aos ciclistas. O Brasil é o terceiro produtor mundial de bicicletas, perdendo para China e Índia. Com uma frota de 60 milhões de unidades, o país tem hoje, de norte a sul, apenas 2,5 mil quilômetros de ciclovias. Segundo dados do Ministério das Cidades, o Rio de Janeiro (RJ) é a cidade com a maior infraestrutura instalada, com 140 quilômetros de ciclovias. Curitiba (PR) aparece em segundo lugar, com 120 quilômetros, seguida por Colombo (PR), com 95 quilômetros.

Por fim, Marques Neto diz que, para a promoção da bicicleta como meio de transporte seguro, os governantes necessitam apresentar políticas concretas que estimulem seu uso. São necessários incentivos fiscais à aquisição de bicicleta, apoio à instalação de bicicletários públicos, construção de ciclovias e ciclofaixas e integração das bicicletas ao sistema de transporte público coletivo. Além disso, deve haver divulgação dos benefícios do uso da bicicleta como transporte econômico, saudável e ambientalmente adequado. Finalizando o seu artigo, ele enfatiza que é dessa forma que conseguiremos alcançar a melhoria das condições de mobilidade urbana, do ambiente e da qualidade de vida nas cidades e democratizar a mobilidade, tendo em conta todas as vantagens e potencialidades que esse meio de transporte não-motorizado apresenta aos mais variados níveis.

Assim, em decorrência desse artigo postado em meu blog, choveram comentários e os mais salientes apresento, a seguir, de forma resumida, citando o nome assinado pelo próprio leitor. A Marta disse que acredita na bicicleta como ótimo meio de ir e vir, com respeito ao meio ambiente e se diz assustada com o rumo que toma o uso de outros veículos sem nehuma política pública para melhorar a verdadeira invasão motorizada nas ruas. Ela pede a adoção da bicicleta como meio de transporte, por ser menos poluente, sadia e econômica. Já o Fabiano afirma que a luta inicial deveria ser por um sistema transporte coletivo eficiente e refuta a defesa das ciclovias e o estímulo ao uso de bicicletas como solução dos problemas de transporte público.

O Waldemar relata que, no Rio de Janeiro, comumente as bicicletas são presas aos acessos de passarelas da Av. Brasil e nas rodovias Dutra e Washington Luis, nas Zonas Norte e Oeste da cidade e na Baixada Fluminense, e critica o governo que somente constrói ciclovias e instala bicicletas de aluguel na Zona Sul. Na mesma linha, o Regino, leitor residente em Paris, diz que na Cidade Luz a bicicleta se tornou um dos meios de transporte mais práticos e existem muitos pontos de aluguel e bicicletários pagos, com passes anuais. Vale lembrar que Paris possui um dos maiores e mais abrangentes sistemas metroviários do mundo.

O Geraldo preferiu criticar a mentalidade individualista daqueles que sonham com a bicicleta como meio de transporte e afirma que a atual política de ônibus coletivos privados está falida. Ele sugere que os empresários de ônibus tentam inviabilizar os projetos de metrôs e VLTs, quando eles próprios poderiam ser sócios desses modos de transporte e seus ônibus cresceriam como alimentadores.

O Júlio concorda com o ponto de vista da matéria e diz que o uso dos meios de transporte individuais, automóvel, motocicleta e bicicleta, está aumentando cada vez mais em nosso país, não por egoismo dos cidadãos, mas não pela de planejamento do transporte de massa suficiente por parte do poder público, pois, a cada dia, fica mais difícil enfrentar um metrô ou trem cheio ou um ônibus lotado. Ele vê que cidades crescem e a oferta de transporte de massa não acompanha a demanda de tanta gente. O Júlio mora no interior do Rio e sua condução para o trabalho era o ônibus, mas, em virtude da irregularidade desse modal, passou a usar o seu carro. Quando não chove, ele utiliza uma bicicleta motorizada de 48 cc, que é uma opção mais barata. Ele acha a bicicleta ambientalmente correta e geradora de benefícios para a saúde, mas receia que o uso maciço da bicicleta, sem ciclovias segregadas, poderá interferir negativamente no trânsito das cidades.

O morador de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, declara que utiliza a bicicleta para ir ao trabalho e faculdade, como meio de transporte econômico e saudável, mais pela ineficiência do transporte público da cidade, do que por vontade própria. Ele diz que corre risco diariamente pelas ruas da cidade, que não possui ciclovias suficientes.

O Lucas ressalta a importância do uso da bicicleta como modo de transporte e como fator integrador do comércio e da economia. Em sua opinião, seria fundamental uma campanha publicitária para estimular o uso da bicicleta, além da construção de bicicletários e ciclovias.

De Ipatinga, Minas Gerais, a Nilva vem lutando contra o caos no transporte público da cidade e passou a utilizar a bicicleta como transporte, para fazer exercício e não mais depender dos maus serviços dos ônibus urbanos.

A Marize radicaliza e acha que a prefeitura deveria ser acionada pela irresponsabilidade de fomentar o uso de bicicletas pelas ruas e calçadas, pois os ciclistas trafegam em alta velocidade, atropelando crianças, idosos e quem mais estiver pela frente. Nesse mesmo pensamento, o Luiz afirma que está fora da realidade aqueles que apóiam o uso de bicicletas como modo de transporte, pois somente um louco iria trabalhar de bicicleta com um calor de 45ºC e labutar o dia inteiro suado e sujo. Ele acha ainda que os poderes públicos deveriam punir os ciclistas que não respeitam nada e ninguém, trafegam na contramão, correm como loucos em meio a crianças e idosos, afrontam motoristas e pedestres e não respeitam semáforos. Segundo o Luiz, os proprietários de veículos são obrigados a pagar todo tipo de taxa, se sujeitar a todo tipo de lei, enquanto o pessoal da bicicleta faz o que quer, sem nenhum tipo de regulamentação.

O Eduardo exalta a bicicleta como meio de transporte não poluente, sem barulho e que ocupa pouco espaço, apesar de já ter sofrido dois atropelamentos, ao trafegar em estradas. Mesmo assim, ele continua com grande prazer de usar a bicicleta e entende que nosso país deveria seguir a cultura de transporte dos europeus, e não continuar com o modelo americano, obcecado por automóveis.

Prezado leitor, este artigo trata de um assunto polêmico e instigante, que garante incontáveis desdobramentos e discussões. Por isso, fiz questão de reproduzir os diversos comentários, de forma democrática, para que possamos refletir sobre o tema. Por fim, vale dizer que a bicicleta é, e sempre será, em qualquer cidade do planeta, um meio de transporte complementar, alimentador, saudável, não poluente e de baixo custo, cujas políticas públicas de mobilidade urbana devem levar em conta, indiscutivelmente. As cidades precisam de ciclovias segregadas, fiscalizadas, bem conservadas, sinalizadas, policiadas e integradas aos sistemas de trens, metrôs, VLTs e ônibus, com bicicletários protegidos e seguros. Nessas condições, certamente, a bicicleta será efetivamente um importante modo de transporte nas médias e grandes cidades brasileiras, com significativa participação na matriz de transporte urbano.







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1 comentário | Comente

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Israel Pereira Marques Neto |
Que legal ver que um breve artigo despretensioso, gerou tanto debate, sendo replicado por muitos meios de comunicações. Foi escrito à anos atrás e continua ainda muito atual.