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Eva e Pandora, as culpadas das desgraças do mundo?

Por Valdir Cimino, Colunista de Plurale (*)

"As mães têm que aconselhar muito os filhos, tá mais presente, sempre que tiver em casa
conversar mais com o filho, dar mais conselho. Porque hoje eu vejo que lutei muito pouco pelo meu filho.Eu tinha que ter lutado mais. Muito mais. Tinha que ter dado um jeito de ter ficado mais com ele, para dar mais conselho pra ele. (…) Eu fui o pai e mãe deles. Hoje eu vejo que eu não lutei nada pelo Diogo, porque ele morreu criança, não deu tempo de eu fazer muita coisa por ele. Hoje vejo que de certa maneira eu ajudei a matar o meu filho, e isso é o que mais me dói”.

O depoimento extraído do livro “As Mulheres do Tráfico”, de MV Bill e Celso Athayde, mostra claramente o sofrimento de uma mãe que também foi pai e chora pelo tempo que não teve em sua vida para poder conversar, aconselhar, educar seu rebento. São as mulheres que carregam a culpa pelos desastres ocorridos em sua família, mesmo que decorrentes de
circunstâncias alheias à sua vontade.

Vivencio desde 2006 no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas de São Paulo a pesquisa "O brincar como atividade terapêutica nos tratamentos psiquiátricos de crianças e adolescentes", é um trabalho contínuo de grandes descobertas sobre o comportamento humano, este estudo é acompanhado pelas profissionais Adriana Dias Barbosa Vizzotto e a Dra Marisol Montero Sendin, o grupo de contadores de histórias da Associação Viva Deixe Viver e objetiva observar com os pais e acompanhantes o interesse do paciente pelo brincar e
contar histórias; verificar os métodos e maneiras utilizadas no brincar das crianças e adolescentes e suas famílias em tratamento psiquiátrico; identificar patologias através
do brincar e contar histórias para facilitar processos de interação dos pacientes, equipe multiprofissional e as famílias.

Em nenhum caso o pai foi apontado como principal cuidador. Transtorno mental diagnosticado é o primeiro a sair pela tangente, ou seja, toda carga de culpa, angústia e sofrimento recai sobre a mãe principal cuidadora ou em alguns casos as avós. Os resultados preliminares apontaram que do total de 65 casos pesquisados, 70% dos pacientes são do sexo masculino.

As lembranças negativas mais fortes na vida dessas cuidadoras estão ligadas a dores afetivas, causadas pela violência doméstica e problemas financeiros, como: fome, moradia precária, poucas roupas, falta de brinquedos. Mais de um terço da amostra relatam problemas de relacionamento no lar, com pais que bebiam e batiam na mãe e nos filhos, casais que brigavam muito.

Desde que o mundo é mundo a mulher tem sofrido o estigma de Pandora e Eva, a primeira criada por Zeus com atributos provenientes de diversos deuses da mitologia grega como a beleza infinita vinda de Vênus, a língua de Mercúrio, a voz macia veio de Apolo e Atena que lhe ofertou um belíssimo vestido que permitia perceber as formas suaves do corpo. Toda esta sensualidade nasceu com o intuito de castigar Prometeu, defensor da humanidade.

O presente entregue por Zeus era uma caixa onde foram colocados todos os males da
humanidade, como o orgulho, a ambição, a crueldade, a traição, as doenças, as pestes,
ou seja, a desgraça humana. Prometeu tinha ciência de que não poderia receber nenhum
presente, então Pandora encantou Epimeteu, irmão de Prometeu, que se apaixonou
perdidamente e abriu a tal caixa, a partir daí a raça humana perdeu a felicidade de viver no
eterno paraíso.

Esta mesma desperança encontramos na história de Eva, que, tentada pela serpente (desejo), come e depois oferece a Adão o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, proibido por Deus. Ambos são banidos do paraíso e, mais uma vez, a culpa de todos os problemas da humanidade passa a recair sobre a mulher. A história do mundo é exatamente a evolução das crendices e das religiões vivenciadas pelo homem, em ambos os casos a ignorância e o preconceito contra a mulher foram promovidos por divindades masculinas.

(*) Valdir Cimino é colunista de Plurale colaborando com artigos sobre Sustentabilidade. É Presidente da Associação Viva, Publicitário formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing, pós graduado em Tecnologia do Ensino pela Fundação Armando Alvares Penteado e mestrado na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.







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