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Homenagem à rotatória: uma mandala urbana

Por Roberto Patrus, Colunista de Plurale (*)

O trânsito tem sido objeto de inúmeros debates nos dias de hoje. Nas grandes cidades, os congestionamentos são a ilustração da irracionalidade da mobilidade urbana na pós-modernidade. A violência dos acidentes nas estradas é causa de mortos e feridos em número maior que o de muitas guerras. Até a virtude da gentileza tem recebido atenção quando se discute o carro como símbolo de individualismo e status. Entretanto, uma solução para o cruzamento de ruas nas cidades não vem sendo analisada em sua riqueza simbólica nem em sua eficácia: a rotatória. Também chamada de rotunda, balão, círculo, rótula, joelho, queijinho ou girador, dependendo da região do nosso imenso país, a rotatória é o tema deste artigo.
Rotatória é uma praça ou largo, de forma circular, onde desembocam várias ruas e o trânsito se processa em sentido giratório. O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa não registrou o verbete na sua primeira edição de 2001. Preferiu o termo “rotunda”. Ela não deve ser confundida com uma ilha, aquele obstáculo físico colocado na pista de rolamento, destinado à orientação dos fluxos em uma interseção. Diante da ilha, o condutor é obrigado a fazer um desvio. Diante da rotatória, ele se vê obrigado a fazer um deslocamento circular. Quando o diâmetro da ilha é maior do que quinze metros, é de supor-se que se trata de uma rotatória, visto que nesse caso, impõe-se ao condutor o deslocamento circular.
Desde a virada do milênio que o símbolo do círculo passou a predominar no design dos automóveis. No lugar das linhas retas do Monza, do Scort, do Fiat 147 e do Gol, chegaram as formas arredondadas que tiveram no Corsa o marco do pioneirismo. Até a marca Volvo, conhecida por sua geometria quadrada se rendeu ao poder do círculo. Logotipos foram arredondados por empresas e marcas para valorizar a ideia de movimento, de transformação, de abertura a mudanças. Até uma marca de cerveja se valeu do poder do redondo para promover suas vendas. No trânsito, a construção das rotatórias segue a mesma tendência, somando-se à arquitetura dos anéis rodoviários (rodoanel, para utilizar a expressão paulista) e dos viadutos que lançam as suas alças circulares sobre as avenidas a fim de impedir cruzamentos em cruz.
Existem rotatórias com duas faixas ou até mais, em geral, no cruzamento de avenidas. Neste artigo, vamos nos ater àquelas de apenas uma faixa, construídas no cruzamento de ruas urbanas de mão dupla. Presentes nas vias do charmoso bairro de Lourdes em Belo Horizonte, elas revelam a beleza do círculo e a utopia de um trânsito mais humano e democrático.
Do ponto de vista simbólico, a rotatória é uma mandala urbana, círculo desenhado no meio de um cruzamento de ruas. A mandala na tradição oriental serve de suporte para a meditação a fim de conduzir quem a contempla à iluminação. “A contemplação de uma mandala supostamente inspira serenidade, o sentimento de que a vida reencontrou seu sentido e sua ordem” – escrevem Chevalier e Gheerbant no Dicionário de Símbolos quando comentam a concepção junguiana de que a mandala é utilizada para consolidar o eu interior. Como mandala urbana, podemos dizer que a rotatória é uma ilustração da mitologia camuflada e dos ritualismos degradados presentes na cultura moderna de um ser humano que se sente e se pretende a-religioso, como afirmou Mircea Eliade em “O sagrado e o profano”.
A rotatória dispensa o semáforo ou o farol. De acordo com a legislação de trânsito, o condutor que está na rotatória tem a preferência, exceto se a sinalização estabelecer o contrário. Via de regra, podemos dizer que quem está no círculo tem prioridade sobre quem está na reta. No lugar da arbitrariedade de um sinal luminoso para indicar a preferência, a mandala urbana convida a uma parada diante do círculo, momento precioso da meditação, da consciência alerta, quase uma reverência do motorista ao espaço sagrado que inspira a iluminação interior.
Além da metáfora com o símbolo da mandala, a rotatória pode ser interpretada como o símbolo logístico da democracia entre os automóveis. Não importa o tamanho do carro, nem tampouco o seu valor como como bem. No espírito democrático da rotatória, todos os carros são iguais. Para ter a preferência, é necessário respeitar a preferência do outro. Para entrar no círculo, primeiro é preciso reconhecer o direito do outro. A aceitação desse propósito, tal qual o juramento de um dever, habilita o condutor a ter a preferência assim que entra no círculo. Para se fazer merecedor do direito, é preciso cumprir com o dever de dar a preferência. Primeiro o dever, depois o direito.
A riqueza simbólica da rotatória não é por si só capaz de se transformar em realidade. Ela tem potencial para humanizar o trânsito, mas não o faz automaticamente. Ela inspira a meditação – atributo fundamentalmente humano – mas não tem o poder de humanizar o trânsito. Isso depende de cada pessoa que está ao volante. Cada vez mais, os motoristas se tornam invisíveis por detrás da película escurecedora colocada nos vidros da maioria dos carros. Não vemos a pessoa que guia o automóvel, mas o carro. A gentileza no trânsito é facilitada pelo olho no olho, pelo reconhecimento de que estamos nos relacionando com pessoas e não com coisas. É o olhar que permite a comunicação educada entre motoristas, facilitando tanto o gesto do “pode ir” como o ainda raro gesto do polegar para cima, como quem diz, “valeu, obrigado”. Chega de dizer que a camionete estava errada ou que o fusca estava imprudente. Que nos comuniquemos com a senhora da van e com o barbudo do táxi. Para isso, podemos sugerir que todos os retrovisores esquerdos dos automóveis sejam grandes e verticais como os de ônibus e caminhões. E que as películas escurecedoras sejam banidas dos vidros dos carros. Que o trânsito permita um relacionamento entre pessoas e não entre carros. A humanização do trânsito um dia há de chegar também à palavra. À linguagem simbólica, ela já chegou.

(*) Roberto Patrus é professor do PPGA-PUC- Minas, pesquisador da Fapemig e autor de vários livros.







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2 comentários | Comente

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roberto |
Patriicia Ashley, Obrigado pelo apoio e incentivo para continuar escrevendo! Roberto Patrus

Patricia Almeida Ashley |
Adorei ler, Patrus, como sempre seus textos me encantam. Forte abraço.