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Cooperação e Solidariedade: considerações etimológicas sobre a colaboração

Por Roberto Patrus, Colunista de Plurale

A etimologia é o estudo da origem das palavras. A etimologia de uma palavra aponta um significado que recupera o seu sentido original que, não raramente, perdeu-se nos usos e desusos da linguagem ao longo da história. Companheiro, por exemplo, é aquele com quem se come o pão. Colega é aquele com quem se lê. Literalmente, somos companheiros de alguém quando compartilhamos o momento da refeição com ele. Somos colegas em uma sala de aula porque geralmente lemos juntos.
Sabemos que o significado das palavras extrapola o seu sentido etimológico original. Legal nem sempre é um adjetivo para qualificar o que está de acordo com a lei. Decorar uma matéria remete ao exercício mental de memorizar, muito mais do que a seu significado original de saber algo de coração, de couer, by heart. Apesar dessa limitação, a etimologia da palavra enriquece a compreensão do significado das coisas e nos permite algumas distinções oportunas, como por exemplo, entre cooperação e solidariedade, tema deste artigo.
Cooperar, etimologicamente, significa trabalhar juntamente com outro, co-laborar, contribuir com o trabalho, o labor, de outro. Solidariedade advém, etimologicamente, de “sólido e consistente” (solidus, em latim). Do adjetivo derivam o substantivo solum (fundamento e apoio) e também os verbos solidare (consolidar, segurar, fazer sólido) e solidescere (fazer-se sólido, consolidar-se). Exercer a solidariedade implica fazer-se parte de algo maior, com vistas a solidificar, consolidar, tornar algo sólido. A partir dessas definições, podemos dizer que a solidariedade implica cooperação, mas a cooperação não necessariamente implica solidariedade. Quem é solidário coopera com o outro para consolidar algo maior do qual se sente parte. Trabalhar junto é cooperar. Cooperar para consolidar algo maior (uma meta, uma parceria, uma cultura...) é solidariedade. A solidariedade supõe compreender-se parte de um sistema. Cooperar sem a noção do todo do qual se participa é apenas trabalhar junto, colaborar. Entendemos, assim, a solidariedade a partir do seu significado etimológico, como algo que aprofunda a colaboração entre pessoas, visto que a solidariedade necessariamente abrange a cooperaçao, mas a cooperação não abrange necessariamente a solidariedade.
O trabalho de cooperação, sinônimo de colaboração, presente, por exemplo, nas atividades do voluntariado social ou da avaliação por pares realizada na academia ou, ainda, em empresas, organizações sociais e famílias pode ser classificado de acordo com o sentido atribuído por seu agente. Podemos, assim, distinguir a cooperação pragmática da cooperação solidária. A primeira designa a atuação colaborativa que não é solidária. Seu agente busca trabalhar junto tendo em vista o benefício pragmático de sua atuação. A segunda, a cooperação solidária, implica a consciência do agente de que sua atuação contribui para a consolidação de algo que deseja solidificar, tornar sólido. Em ambos os sentidos, o trabalho é colaborativo, ou seja, implica a noção de contribuir com o outro. Quando feito de forma pragmática, o sujeito calcula racionalmente que o bem-estar do outro contribui para o seu próprio bem-estar, de forma concreta, prática. A cooperação pragmática tem como finalidade um benefício de curto prazo, uma utilidade, uma vantagem a ser conquistada.
Para o trabalho colaborativo ganhar o adjetivo de solidário, ele tem algo além da mera cooperação pragmática. Este algo não é apenas a compreensão de cooperar com o outro, mas de saber que sua atuação consolida o todo do qual faz parte. A cooperação solidária abrange a percepção abstrata de que há um jeito de ser e de fazer que se deseja consolidar. Trabalha-se para a construção de um coletivo quando se é solidário, ao passo que a cooperação pragmática está restrita ao benefício para o agente da sua própria atuação. A cooperação solidária exige do agente uma filosofia de vida comunitária e uma firme disposição de contribuir para a construção do bem comum.
A título de exemplo, podemos ilustrar a diferenciação conceitual proposta a partir da motivação para o voluntariado social. Alguns jovens universitários o buscam para valorizar seus currículos e diferenciá-los na concorrida busca por melhores colocações profissionais. Se não tiverem a noção de que estão a trabalhar para a consolidação de algo que desejam, estarão limitados à cooperação pragmática. Mas se se percebem como parte de uma coletividade, conscientes de que sua atuação contribui para a consolidação de um ideal que perseguem, então a cooperação se eleva ao nível comunitário, podendo falar-se em cooperação solidária.
Sabemos da sutileza da diferenciação aqui proposta. Mas ela permite a cada pessoa refletir sobre a motivação da sua atuação colaborativa. A quê e a quem a atitude de colaborar está a serviço? A contribuição desse artigo é justamente essa: permitir a compreensão da motivação da atuação colaborativa. Caso esteja no nível pragmático, pode cooperar para que ela se eleve ao nível da solidariedade. Caso esteja no nível solidário, permite o gratificante reconhecimento de saber que existem palavras para definir (de-finir, de-limitar) o espírito de condutas presentes no cotidiano nosso de cada dia.

(*) Roberto Patrus é é Colunista de Plurale. Filósofo, psicólogo, professor, psicoterapeuta, mestre em Administração, Doutor em Filosofia. Tem 46 anos, é professor da PUC Minas.
Email: robertopatrus@pucminas.br







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1 comentário | Comente

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Arthur Rolhano Heineck |
Que baita texto, Prof. Patrus. Vou compartilhar porque entendo que deva ser interessante para muitos. Para mim, além de ser interessante é altamente relevante para a atividade que estou fazendo agora e localizei seu texto por acaso. Lhe conheço pelos seus vídeos no YouTube sobre a Taxonomia de Bloom. Outro material acima da média. Que a energia em criar e publicar materiais seja mantida no senhor. Grande abraço!