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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 37/ Resistência Feminina

Organizadas em Rede, mulheres empreendedoras moradoras das comunidades Cantagalo, Pavão Pavãozinho e Borel, no Rio de Janeiro vão em busca de seus sonhos e resistem à especulação imobiliária pós UPP´s. Por Isabel Capaverde, de Plurale em revista

Por Isabel Capaverde, de Plurale em revista

Com a implementação do projeto das UPP`s (Unidade de Polícia Pacificadora) pela Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro a partir de 2008, muita coisa mudou nas comunidades da capital que receberam as chamadas bases policiais comunitárias. Houve a valorização dessas áreas, ocasionando a ameaça ou a efetiva remoção da população, seja para atender interesses do próprio governo ou do mercado, a conhecida especulação imobiliária. Nesse cenário, a equipe da Asplande – Assessoria & Planejamento para o Desenvolvimento, ONG que desde 1992 trabalha prioritariamente com mulheres empreendedoras moradoras de comunidades do Grande Rio, fez uma pesquisa em parceria com a associação de costureiras do Cantagalo e Pavão Pavãozinho, na Zona Sul carioca, a Corte & Arte, entre as empreendedoras da região. “Fizemos uma pesquisa com 155 mulheres empreendedoras. O objetivo era conhecer o ambiente, suas realidades, escutar seus desejos e necessidades. Como fortalecer essas mulheres para que elas permanecessem em suas casas. Em 2012 surgiu a oportunidade de escrevermos o projeto, não só com as mulheres da Corte & Arte, mas também em parceria com as Arteiras da Tijuca, cooperativa popular de mulheres do Borel, na Zona Norte, e passarmos na seleção do Programa Petrobras Desenvolvimento & Cidadania”, conta Dayse Valença, da Asplande.
Assim nasceu o Projeto Mulheres em Rede – Tecendo Teias de Solidariedade e Conhecimento com ações baseadas em três eixos: a capacitação com cursos, oficinas e encontros; a organização em Rede, fundamental para que superem os problemas juntas e a comercializem serviços e produtos; e a assessoria e acompanhamento dos empreendimentos in loco. Serão dois anos de projeto patrocinado pela Petrobras e apoiado por parceiros como a Fundação São Joaquim e o CRJ – Centro de Referência da Juventude, que cedem seus espaços no Borel e no Cantagalo, respectivamente, para a realização das ações.
Lançado oficialmente em setembro, o projeto tem atualmente mais de 90 mulheres participando. “As mulheres podem participar dos três eixos ou escolher os que mais se adequem as suas situações. O ideal é que estejam sempre na Rede para viabilizar a troca, estimular intercâmbios que criem e fortaleçam os laços entre as mulheres e os empreendimentos que elas gerenciam”, fala Dayse.
Dados recentes divulgados pelo Sebrae revelam que entre as cerca de seis milhões de micros e pequenas empresas do país, em torno de 35% são lideradas por mulheres. A taxa de sobrevivência dessas empresas também é maior do que as lideradas por homens. Mas para sobreviver, especialistas indicam como primeiro passo, o Plano de Negócios, curso que as mulheres do projeto tem acesso, assim como Gestão Administrativo-financeira e Desenvolvimento de Novos Produtos/Serviços.
No desafio de mobilizar e envolver as mulheres das comunidades do Cantagalo, Pavão Pavãozinho e Borel no projeto, estão moradoras locais como Rosangela Rangel e Monica Santos Francisco. Rosangela, nascida e criada no Pavão Pavãozinho, é formada em Design de Moda. Pela primeira vez se viu participando de um projeto social. Temia não dar conta, mas tem gostado muito de ver que as ações estão somando na vida das mulheres. Conta que as comunidades vizinhas do Pavão Pavãozinho e Cantagalo, na Zona Sul, estão sofrendo com a valorização da área e consequente especulação por conta das belas vistas de Copacabana e Ipanema, além do encarecimento do custo de vida, levando os moradores para comunidades mais afastadas. "As mulheres são responsáveis pelas famílias, tem filhos cedo ou precisam ajudar os maridos que ganham pouco. Perceberam que precisam se organizar e buscar mais informações para que suas atividades possam gerar renda, seja o seu salão de cabeleireiro, a venda dos seus artesanatos, de seus doces e salgados ou a administração do seu hostel".
Diz que quando uma ou outra falta aos encontros semanais e a vê pelas ruas da comunidade, vai logo avisando o motivo da ausência. “Algumas já estão ampliando suas atividades nos contatos via Rede e às vezes precisam faltar para atender uma encomenda maior. Esses dias mesmo uma empreendedora que faz salgadinhos me disse que não abandonaria os encontros do projeto, pois está precisando de um freezer”. Rosangela se refere a uma das articulações feitas pelo projeto, a linha de financiamento de microcrédito do governo estadual, a AgeRio – Agência Estadual de Fomento que atende empreendedores que necessitem de R$ 300 a R$ 15 mil com juros muito mais baixos que o de mercado, de 0,25% ao mês.
Mais as articulações não param no microcrédito. Monica, formada em Ciências Sociais, moradora do Borel, integrante do grupo Arteiras da Tijuca e ativista social experiente fala animada dos contatos que fez com o pessoal do Moda Fusion – organização francesa que aposta na criação genuína das comunidades como uma identidade de forte potencial para a moda brasileira e uma fonte de inspiração fora do comum para a moda ocidental – da linha de produtos para cabelos Matrix – integrante da marca Loreal USA – e com o projeto social da Essilor – lentes e produtos oftálmicos que quer melhorar a qualidade de vida a partir da visão. “Nesse tempo de projeto já dá para sentir o quanto elas estão empolgadas. Todas as articulações são portas que se abrem para novos mercados, novas possibilidades para as empreendedoras”, esclarece Monica.
Empreendedoras que tem se mostrado ansiosas na criação de suas identidades visuais, trabalho assessorado por outro profissional da equipe Asplande, Henrique Zizo. Formado em Ciências Sociais, Henrique estudou Fotografia e Antropologia Social e explica como pretende desenvolver junto com as mulheres a comunicação visual. “A dinâmica é encontrar junto com elas a identidade coletiva, o que elas têm em comum, o que as une. Primeiro produziremos um selo para o Cantagalo e Pavão Pavãozinho e um selo para o Borel, fazendo com que as empreendedoras sejam reconhecidas por aquele selo. Depois buscaremos a identidade visual de cada empreendimento. A ideia não é apenas fazer uma identidade visual que atenda ao mercado, mas que também que elas se reconheça naquela criação. Vamos procurar palavras-chaves, símbolos fortes. Será um exercício criativo. Foco no mercado e foco no empoderamento dessas mulheres”, finaliza.





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