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PLURALE EM REVISTA, EDIÇÃO 37/ Nelson Arns Neumann, Coordenador Nacional Adjunto da Pastoral da Criança

ESTA ENTREVISTA É DESTAQUE NA EDIÇÃO 37 DE PLURALE EM REVISTA, ESPECIAL SEIS ANOS, QUE ESTÁ CIRCULANDO

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista
Foto: Divulgação/ Pastoral da Criança


Em janeiro de 2010, quando começaram a chegar as notícias do terremoto que assolou Porto Príncipe, a capital do Haiti, o Brasil se comoveu não só com a tragédia dos haitianos, mas porque lá estavam brasileiros em missão de paz. Morreram também soldados brasileiros que serviam pela Organização das Nações Unidas (ONU) , o carioca Luiz Carlos da Costa, funcionário da ONU que era o segundo homem na hierarquia local e a fundadora da Pastoral da Criança, a médica Zilda Arns Neumann, que estava por lá em missão humanitária, com o objetivo de lançar a ONG também por lá.

A perda da médica que não mediu esforço para afastar do risco da linha da morte milhões de crianças desnutridas entristeceu a “família” de voluntários da Pastoral da Criança e ainda mais a sua família. Dor e comoção, mas também a certeza, que D. Zilda morreu fazendo o que mais gostava: ajudando os mais necessitados e reduzindo desigualdades. “Ela já tinha preparado sua sucessora e não substituta, porque sempre dizia que uma nova gestão precisava seguir seus próprios passos. Talvez pelo fato de o nosso pai ter morrido cedo, ela tinha uma noção prática da importância de manter o trabalho, de sempre seguir em frente”, contou à Plurale seu filho, o também médico Nélson Neumann Arns, 48 anos, Coordenador Nacional Adjunto da Pastoral da Criança. D. Zilda teve seis filhos, perdeu um três dias após o parto e uma filha em acidente de carro. Vinha também de família grande: seus pais, pequenos agricultores, de família de origem alemã, de Forquilhinha (SC) tiveram 16 filhos

Ao completar 30 anos, a Pastoral da Criança registra resultados reais do enfrentamento da desnutrição infantil e de cuidados com a saúde de brasileiros mais necessitados. A surpresa veio nas últimas estatítisticas. O novo diagnóstico, explica o Dr. Nélson, é que os mais pobres estão correndo novo risco: o da obesidade. “Hoje no Brasil há mais obesidade entre os pobres que entre os ricos. Em 40 anos, inverteu-se o padrão. Caminhamos rapidamente também para ter mais crianças obesas no Nordeste que no Sul do Brasil. Mas a prevenção da obesidade começa na gestação”, alerta.

Recém-chegado de mais uma das muitas viagens a campo, desta vez para o interior do Piauí e Maranhão, regiões com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), Nélson Arns Neumann conversou com Plurale em revista sobre o trabalho desenvolvido, o legado de sua mãe e o Brasil de hoje. O médico - formado pela Universidade Federal do Paraná, com Mestrado em Epidemiologia pela Universidade Federal de Pelotas e Doutorado em Saúde Pública, pela Universidade de São Paulo - demonstra que está mesmo no DNA da família, de sólida formação católica, a preocupação pelo bem-estar de todos. Acredita que “se cada um fizesse a sua parte, não haveria tanto sofrimento no mundo”. Confessa que o maior desafio, em um sistema do consumismo desenfreado e do partido do eu primeiro, é mostrar aos voluntários as vantagens da opção pelo coletivo. “O principal desafio de hoje é demonstrar aos possíveis voluntários que o ter sozinho não traz a felicidade. Sem a partilha do nosso tempo com as pessoas sofridas, necessitadas, não alcançaremos sequer nosso bem estar pessoal quanto mais a paz coletiva.” Acompanhe os principais pontos desta entrevista.

Plurale em revista - A Pastoral está completando 30 anos de trabalho. Na sua opinião, quais são os principais resultados?

Nelson Arns Neumann - Em 2012, o Brasil atingiu antecipadamente uma das metas estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) no documento “Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”. O número atual de óbitos no país é de 16 a cada mil nascimentos, inferior à meta de 17,9 óbitos por mil, imposta pela ONU e que deveria ser atingida até 2015. Conforme a revista médica Lancet, da Inglaterra, em artigo científico, as ações preventivas de saúde e nutrição das crianças pobres realizadas pelos voluntários da Pastoral da Criança contribuíram decisivamente para reduzir a mortalidade infantil no país nos últimos trinta anos

A Pastoral da Criança tem sido uma grande aliada, junto com outros organismos, no cuidado com as crianças e gestantes, no trabalho de prevenção que tem contribuído fortemente com resultados importantes para a saúde dos brasileiros. Hoje estamos acompanhando no Brasil cerca de 1,3 milhão de crianças menores de 6 anos de idade e 70 mil gestantes, com foco no desenvolvimento integral das crianças desde o ventre materno até os 6 anos. São 30 anos atuando para não apenas reduzir os índices de mortalidade infantil, mas também para que as crianças e suas famílias tenham melhores condições de vida, tenham acesso aos serviços básicos de saúde e educação. Ao longo desses anos, superamos muitos problemas e agora olhamos para o futuro, a "Centralidade da Criança", projeto que responde ao apelo dos bispos no Documento de Aparecida para que a infância seja destinatária de ação prioritária da Igreja, da família e do Estado é um dos destaques da ação da Pastoral da Criança nos próximos anos, assim como a ampliação das ações de acompanhamento nutricional para prevenção da obesidade infantil e os cuidados nos primeiros mil dias (período da gestação mais os dois primeiros anos de vida).


Plurale- Na sua visão, como cada um - indivíduo, ONG, empresa e governo - pode praticar a solidariedade e a sustentabilidade? Sua mãe nos falava na Edição 1 de Plurale sobre a importância da aliança entre estes stakeholders, o relevante papel do Estado como indutor de políticas e frisava a urgência no combate à corrupção. Qual é a sua visão?

Dr. Nélson - Se cada um fizesse a sua parte, não haveria tanto sofrimento no mundo. Quantos estão dispostos a enfrentar um transporte coletivo ruim para amenizar a poluição das cidades? É mais fácil esperar que o transporte coletivo melhore para depois tomar uma atitude.

Quantos enfrentam as dores do trabalho de parto para esperar o momento que a criança está madura para nascer? É mais fácil antecipar o parto, ainda que a criança nascida apenas duas semanas antes do tempo tenha 120 vezes mais chance de ter problemas respiratórios em relação à criança nascida no tempo certo - note que o parto normal também pode ser feito com anestesia.

Quantos dão o leite materno para seus filhos? Muitos preferem dar leite em pó, ainda que esteja provado que crianças que receberam o aleitamento materno têm menos diabetes, hipertensão arterial e obesidade.

Quantos, em nome da carreira, deixam para ter filhos tarde, mesmo sabendo dos riscos aumentados de prematuridade e retardo de crescimento intrauterino após os 28 anos de idade que podem levar seus filhos a terem, na idade adulta, mais problemas cardíacos coronarianos, diabetes, osteoporose, problemas metabólicos (colesterol alto), problemas renais, osteoporose?

Quantos defendem um Estado paternalista ao delegar a este a tarefa cuidar de bebês em creches, de decidir o que seus filhos devem assistir na TV?

Por que não exigir do Estado, assim como os países Europeus, a possibilidade da própria mãe cuidar de seu filho em casa, recebendo ajuda monetária?

Obviamente, além do descrito acima, precisamos de corruptos na cadeia - não creio que a corrupção vá ser extinta, mas é necessário que seja punida. A Paz é fruto da justiça!

Plurale - Dra Zilda também nos falava nesta entrevista sobre o desperdício absurdo de alimentos no Brasil. Um país que produz tanto, no qual alguns ainda têm fome. Como o senhor vê este drama?

Dr. Nélson - Acabo de voltar do Piauí e do Maranhão. Trabalhei neste estado nos anos de 1988 e 1989. É incrível a diferença no nível nutricional das crianças, em sua saúde. Mais um ponto para o SUS: impossível melhorar a saúde de um povo sem acesso universal a pré-natal, a vacinas, aos cuidados de puericultura. A saúde não pode ser um benefício apenas para quem pode pagar, seja atendimento particular, seja plano de saúde. Não gastando energia com doenças, o que a criança consome é melhor aproveitado para seu crescimento.
A fome hoje está mais concentrada na falta de solidariedade. Não aquela de distribuir cestas básicas, mas aquela de ver o problema real da família: a mãe trabalha o dia todo e as crianças ficam cuidando de si mesmas em casa? Onde está o pai? Pai e mãe tem a doença do alcoolismo ou consumo de drogas e a criança fica largada enquanto estão "chapados"?

Plurale - O legado da Dra. Zilda Arns Neumann é muito grande. Como conseguir continuar sua obras mesmo sem sua presença? Como manter o número elevado de voluntários?

Dr. Nélson - A presença dela continua na nossa Pastoral. Vemos isto no dia-a-dia das comunidades. O principal desafio de hoje é demonstrar aos possíveis voluntários que o ter sozinho não traz a felicidade. Sem a partilha do nosso tempo com as pessoas sofridas, necessitadas, não alcançaremos sequer nosso bem estar pessoal quanto mais a paz coletiva.

Plurale - O senhor herdou a mesma profissão da mãe, com vocação para o bem maior e social. Como vê esta prática da medicina em tempos de tão forte apelo mercantilista e comercial?

Dr. Nélson - Vemos muitos médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e demais profissionais de saúde extremamente dedicados, competentes e que fazem a diferença em nossa sociedade. Infelizmente, os fatos negativos acabam ganhando mais destaque. Sou a favor de punição rigorosa para os que se desviam da ética profissional.

Plurale - O caminho para a maior qualidade de vida no Brasil é mesmo este, o acompanhamento das crianças, da família?

Dr. Nélson - Não resta dúvida. Sem um bom alicerce, a casa cai.

Plurale - O que o trabalho da Pastoral tem detectado de mudança no perfil dos brasileiros?

Dr. Nélson - Hoje no Brasil há mais obesidade entre os pobres que entre os ricos. Em 40 anos, inverteu-se o padrão. Caminhamos rapidamente também para ter mais crianças obesas no Nordeste que no Sul do Brasil. Mas a prevenção da obesidade começa na gestação. A Pastoral da Criança tem projeto de acompanhamento nutricional que está sendo expandido para todo o país. Além de pesar, medimos a altura das crianças obtendo o Índice de Massa Corporal (IMC) adequado para a idade da criança. O importante é que com esse indicador dado por programa de computador, o líder voluntário pode orientar melhor a mãe sobre a alimentação saudável, as atividades físicas e como auxiliar seu filho.

Plurale - Como é possível combater a obesidade infantil?

Dr. Nélson - A Pastoral da Criança está reforçando suas ações sobre os cuidados nos primeiros mil dias (fase da gestação e mais os dois anos de vida da criança). O trabalho considera os avanços na área da prevenção trazidos pelas pesquisas do epidemiologista britânico David Barker. De acordo com o estudo, a obesidade, diabetes, hipertensão arterial e problemas cardíacos - doenças crônicas da população adulta - podem ser prevenidos nos primeiros mil dias da criança.

Também as consultas de pré-natal e os exames necessários, o controle da pressão arterial, a boa nutrição, a abstenção do fumo e de bebidas alcoólicas não são apenas importantes para o parto e o nascimento de um bebê com saúde. São fundamentais para o desenvolvimento da criança e podem determinar uma vida adulta mais saudável. Apesar da conscientização sobre os males do fumo na gravidez, o número de mulheres fumantes aumentou, especialmente nas camadas mais pobres. O cigarro é um dos elementos que fazem a criança perder peso durante a gestação. Outra conclusão do estudo mostra que crianças com baixo peso ao nascer (abaixo de 2,5 kg) estão mais vulneráveis às doenças coronarianas.







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