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Vale está fora do Índice de Sustentabilidade Empresarial da BM&FBovespa de 2016

Grupo, controlador da mineradora Samarco junto à australiana BHP, foi prejudicado pela maior tragédia ambiental da história do Brasil

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale (*)

A BM&FBOVESPA anunciou hoje a décima primeira carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) de 2016. A notícia que está repercutindo no mercado é a saída da Vale - que hoje corresponde a 12% da carteira deste importante indicador. Analistas financeiros e especialistas em sustentabilidade vinham cobrando um posicionamento firme da BM&Bovespa uma vez que a Vale tinha o maior peso no Índice e teve a sua reputação e transparência em cheque diante da tragédia de Mariana. A Vale e a BHP Biliton são controladoras - cada uma com 50% da mineradora Samarco.

No dia 11 de novembro, publicamos em Plurale matéria sobre os desdobramentos da crise provocada pelo rompimento das duas barragens de rejeitos e a cobrança do mercado para a BM&FBovespa para a presença da Vale em um índice que preza pela sustentabilidade e governança. Leia aqui a matéria e a então resposta da Bolsa. A direção da Bolsa não fala isoladamente de empresas. Procuramos, logo após a confirmação oficial da exclusão da mineradora do ISE 2016, a direção da Vale para se manifestar, através da Assessoria de Imprensa, e recebemos uma nota oficial.

De acordo com a nota, a Vale confirma a exclusão, mas informa que "reforça que mantém seus compromissos nos avanços da agenda de sustentabilidade. Reitera, ainda, que se manteve no ISE da Bovespa por cinco anos consecutivos (2011 a 2015)". Para a Vale, "o processo de seleção do ISE se tornou uma oportunidade para a melhoria contínua na gestão dos temas relacionados à sustentabilidade." E encaminhou link do Relatório de Sustentabilidade do grupo. Mais tarde, em outra nota, o diretor de Relações com Investidores, Luciano Siani Pires, fez outro comentário, destacando as ações sustentáveis da Vale, como na Reserva Natural de Linhares (ES), no reaproveitamento de água e na agricultura familiar, no interior do Pará. "Entretanto, entendemos que esse resultado seja uma reação dos membros do Conselho Deliberativo do ISE diante dos eventos que envolveram o acidente da Samarco. A decisão do ISE não altera o nosso compromisso com a sustentabilidade de nossas operações que, por cinco anos consecutivos (entre 2011 e 2015), nos manteve na carteira, um reconhecimento de que este tema faz parte dos nossos valores”, disse Siani Pires na nota. É a primeira vez desde a carteira que vigorou entre dezembro de 2009 e dezembro de 2010 que as ações da mineradora ficam de fora do ISE.

Reação do mercado - O mercado já estava esperando esta decisão e acompanhou desde cedo os desdobramentos. Quando a notícia foi confirmada, por volta de 12h, a reação foi imediata. Plurale ouviu vários especialistas no assunto. “Isso mostra a seriedade de todo o processo dos gestores do ISE. No entanto, é triste porque neste momento duas das maiores empresas do país, a Vale e a Petrobras estão de fora”, observa Fabiane Goldstein, sócia da MBS Value Partners. A Petrobras, para quem não se lembra, foi excluída anteriormente aos escândalos de corrupção, por conta de problemas ambientais com o seu diesel e depois não voltou mais a ser incluída no ISE diante dos recentes fatos políticos. Fabiane observa que todo este cenário reflete as mudanças pelas quais o Brasil passa e destaca que as empresas precisarão, cada vez mais, seguir práticas e padrões verdadeiros de ética, governança e transparência.

O presidente da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais, capítulo do Rio (Apimec-Rio), Carlos Antônio Magalhães, lembrou que a Vale já foi uma referência no mercado. "Lamentável tudo isso que está acontcendo. Acredito que é um reflexo do Brasil de hoje. Vimos neste acidente de Mariana que todos foram omissos ou lentos nas respostas. Autoridades do poder público, empresas responsáveis, fiscalização, etc. A Vale, controladora da Samarco com a BHP, está sofrendo as consequências das suas ações", diz.

Um veterano analista do mercado de capitais, Luiz Guilherme Dias, da SABE Consultoria, lembra que a Samarco – apesar de ter o controle dividido meio a meio entre a Vale e a BHP Billiton - sempre foi tratada pela Vale como empresa do grupo (das controladas e coligadas) e, portanto, seguia os padrões e políticas desta acionista. Luiz Guilherme Dias adverte que as empresas precisarão “realmente ser sustentáveis e não apenas fazer relatórios bonitos e ações de greenwashing”.

Para a consultora de Comunicação Empresarial e Reputação Tatiana Maia Lins, sócia da MakeMake Comunicação, a exclusão da Vale do Índice de Sustentabilidade da Bovespa responde, em parte, à demanda da sociedade por Justiça. "É uma forma de punir a empresa pela tragédia do rompimento das barragens da Samarco", avalia. Tatiana lembra que das três marcas envolvidas na tragédia - Samarco, Vale e BHP Billiton- , para os brasileiros, a Vale é a mais marca mais conhecida e tangível. A consultora lembra que é preciso também ponderar variáveis neste cenário. "As perguntas que ficam, no entanto, são: A Vale deixou de ser sustentável da noite para o dia? Quais os critérios usados pelo Índice para a definição de ser ou não sustentável? A Vale foi excluída, mas nele há empresas com denúncias na Operação Lava a Jato, há bancos que cobram em média cerca de 400% ao ano em juros no cartão de crédito (na Argentina, a média de juros anuais para o crédito rotativo não chega a 40%.), há empresas de telefonia que lideram rankings de reclamação de seus clientes nos órgãos de defesa do consumidor", observou a sócia da MakeMake Comunicação.

Entrevista - Em entrevista por call hoje pela manhã para jornalistas, a presidente do Conselho Deliberativo do ISE, Sonia Favaretto, frisou que "conceitualmente não há exclusão da carteira", Mas, perguntada sobre saídas, comentou que se uma empresa estava na carteira de 2015 e não está mais para o ano de 2016 - como aconteceu com a Vale - tem duas explicações: ou a empresa não participou do processo ou não se qualificou. O problema é que não há "disclosure" (transparência) sobre a informação de que empresas participaram ou não .

Segundo Sonia Favaretto, a redução do número de companhias listadas no índice não dever ser entendida como uma perda de atratividade: "Não será um retrocesso termos menos empresas na carteira, porque isso é uma fotografia do ano. Por outro lado, tivemos cinco novas empresas que nunca participaram do ISE, o que nunca vimos pelo menos nos últimos três anos." A presidente do conselho do ISE destacou ainda o "aumento da transparência por parte das companhias, com 94% das empresas autorizando a abertura das respostas do questionário". A intenção é que a partir do próximo ano, na composição da nova carteira do Índice, esta transparência - autorizando a abretura das respostas - seja obrigatória.

Nova carteira - A nova carteira reúne 40 ações de 35 companhias. Elas representam 16 setores e somam R$ 960,52 bilhões em valor de mercado, o equivalente a 44,75% do total do valor das companhias com ações negociadas na BM&FBOVESPA com base no fechamento de 24/11/2015 (no ano anterior, somavam R$ 1,22 trilhão em valor de mercado, o equivalente a 49,87% do total). A Vale não foi a única a deixar o ISE. Pela nova composição, saem também Coelce, Gerdau, Gerdau Metalúrgica, JLS e Sabesp. Passaram a fazer parte da carteira do ISE de 2016 - Cesp e Oi.


Segundo nota da Bolsa, a nova carteira do ISE também traz expressivo aumento da transparência por parte das companhias. A porcentagem de empresas que autorizaram a abertura das respostas do questionário saltou de 85% para 94%. Este ano 33 de 35 empresas autorizaram e no ano passado, 34 de 40. As respostas estão publicadas no site do índice: www.isebvmf.com.br.

São convidadas a participar do processo anual do ISE -- cujo parceiro técnico desde a criação do índice é o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces) -- as companhias que detém as 200 ações mais líquidas da Bolsa na virada da carteira. Para o processo da carteira anunciada hoje, foram convidadas 180 companhias. Destas, 46 concorreram em uma ou mais categorias (42 Elegíveis à carteira, 01 como Treineira e 03 no Simulado).


A definição da carteira ISE 2016 ocorreu durante um ano emblemático para o índice, em que foram comemorados os seus 10 anos. Nesta década, o ISE teve rentabilidade de +128,88% contra +51,28% do Ibovespa (base de fechamento em 24/11/2015). No mesmo período, o ISE teve menor volatilidade: 25,57% em relação a 42,81% do Ibovespa. Esta carteira também inaugura o “Ciclo Longo” do questionário, um processo de revisão aprofundado que será realizado a cada três anos. Para chegar à versão que as companhias responderam foram consideradas mais de 580 contribuições de empresas e outros stakeholders colhidas em um amplo processo de consulta, realizado em 2014 e 2015. Os resultados, debatidos e aprovados pelo Conselho Deliberativo do ISE no início de junho, indicam importantes tendências no campo da Sustentabilidade Empresarial.

O processo da carteira 2016 do ISE contou com a Asseguração externa da KPMG, que emitiu parecer de “Asseguração Limitada sem ressalvas”. A asseguração do processo do ISE é realizada desde 2012, o que confere ainda mais credibilidade e confiabilidade ao índice. Além disso, o ISE segue com a parceria de monitoramento diário de imprensa feito pela empresa Imagem Corporativa.

Nova Carteira – 2016

AES Tiete

BRF

Copel

Eletrobras

Fleury

Light

SulAmerica

B2W

CCR

CPFL

Eletropaulo

Itaúsa

Natura

Telefônica

Banco do Brasil

Cemig

Duratex

Embraer

Itaú Unibanco

Oi

Tim*

Bradesco

Cesp*

Ecorodovias

Even

Klabin

Lojas Renner

Tractebel

Braskem

Cielo

EDP

Fibria

Lojas Americanas

Santander

Weg

*empresas que não divulgaram as respostas de seu questionário

Carteira atual – 2015

AES Tiete

BRF

Copel

Eletrobras

Fleury

JSL

Natura

Tim*

B2W

CCR

CPFL

Eletropaulo

Gerdau*

Klabin

Sabesp*

Tractebel

Banco do Brasil

Cemig

Duratex

Embraer*

Gerdau MET*

Light

Santander

Vale

Bradesco

Cielo

Ecorodovias

Even

Itaúsa

Lojas Americanas

SulAmerica

Weg

Braskem

Coelce

EDP

Fibria

Itaú Unibanco

Lojas Renner

Telefônica*

*empresas que não divulgaram as respostas de seu questionário

OPA BicBanco - Fechamento de capital em 28/10/2015

Raio X da carteira

  • 75% das empresas incluem avaliações e discussões periódicas de temas socioambientais nas reuniões do Conselho de Administração ou de comitês que reportam a ele.
  • 56% das empresas contam com uma ou mais mulheres em seus Conselho de Administração, como conselheiras efetivas (em 2015: 46%). 22% contam com a participação de um ou mais negros no Conselho de Administração, como conselheiros efetivos.
  • 93% declaram possuir política corporativa sobre mudanças climáticas aprovada pelo Conselho de Administração ou pela alta direção (em 2015: 83%).

  • 56% das empresas incluem critérios/indicadores relacionados ao seus desempenhos socioambientais entre as métricas de avaliação e de remuneração variável de seus administradores (conselheiros e/ou diretores).
  • 80% das empresas afirmam ter uma política de riscos e 92%, uma gestão de riscos corporativos com aspectos socioambientais.
  • 100% das empresas publicam Relatório de Sustentabilidade conforme as diretrizes da GRI (em 2015: 93%).

  • 93% das empresas adotam procedimentos ou práticas de avaliação de potenciais impactos (positivos ou negativos) sobre a biodiversidade, sendo que 10% o fazem de forma sistemática também em sua cadeia de valor.
  • 93% das empresas afirmam que se comprometem com metas de redução de GEE previamente estabelecidas (em 2015: 67%) e, destas, 53% atingiram seus objetivos ou mesmo os superaram (em 2015: 49%). 7% ainda não estabeleceram metas (em 2015: 33%).
    • 89% das empresas possuem processos e procedimentos implementados em relação à aplicação de critérios socioambientais para a gestão de todos os seus fornecedores críticos. Dessas apenas 37% tem exigência de cumprimento da legislação trabalhista em relação ao quadro de empregados dos fornecedores críticos.


Sobre o ISE

· O Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) foi criado em dezembro de 2005, sendo o quarto do tipo no mundo (1º: Nova Iorque; 2º: Londres; 3: Johanesburgo).

· Seus objetivos são atuar como indutor de boas práticas no meio empresarial brasileiro e ser uma referência para o investimento socialmente responsável.

· O ISE reflete o retorno médio de uma carteira teórica de ações de empresas de capital aberto e listadas na BM&FBOVESPA com as melhores práticas em sustentabilidade.

· Seu desenho metodológico é de responsabilidade do Centro de Estudos em Sustentabilidade (GVces) da FGV-EAESP e tem por base um questionário com sete dimensões: Ambiental, Social, Econômico-Financeira, Governança Corporativa, Geral, Natureza do Produto e Mudanças Climáticas. A avaliação das empresas é feita em dois âmbitos: quantitativo (respostas do questionário) e qualitativo (envio de documentos comprobatórios de forma amostral).

· O ISE tem como parceiros ainda: KPMG, parceiro de Asseguração de processo; e Imagem Corporativa, parceiro de monitoramento de imprensa.

· O índice é calculado pela BM&FBOVESPA em tempo real ao longo do pregão, considerando os preços dos últimos negócios efetuados no mercado à vista. São convidadas a participar do processo as empresas que detém as 200 ações mais negociadas no pregão em termos de liquidez.

· O ISE conta com uma opção ao investidor atento a esta agenda. Trata-se do ETF ISUS11 (fundo de índice), listado em 31/10/2011. Os fundos de índices, conhecidos no mundo todo como ETFs (Exchange Traded Funds), são espelhados em índices e suas cotas são negociadas em Bolsa da mesma forma que as ações.

· O mais alto nível de governança do ISE é o CISE - Conselho Deliberativo do ISE, presidido pela BM&FBOVESPA, e composto por mais 10 entidades: Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) – vice-presidente do CISE, Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), , Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Grupo de Institutos Fundações e Empresas (GIFE), Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (IBRACON), Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, International Finance Corporation (IFC), Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e Ministério do Meio Ambiente.

(*) Com informações da BM&FBovespa







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