Atenção

Fechar

Artigos e Estudos

PLURALE EM REVISTA, ED. 50/ Voluntariado empresarial – Uma “outra” ferramenta de capacitação e desenvolvimento de competências

Por Marcos Paulo dos Reis, Colunista de Plurale (*)

O voluntariado não é unicamente uma ação de responsabilidade social, mas também uma excelente ferramenta que as áreas de recursos humanos lançam mão para capacitar, desenvolver e aprimorar competências.

O mundo das empresas, com suas áreas de recursos humanos, percebe a cada dia, que o voluntariado tem sido um aliado importante, quando é preciso realizar cursos de desenvolvimento de lideranças, ou cursos vivenciais, que exigem do participante o desenvolvimento das capacidades que as empresas tanto buscam e necessitam. Muitas companhias já entendem que, ao invés de levar seus colaboradores para salas de aula, ou colocá-los em frente a computadores com cursos online, ou ainda diante de palestrantes, oferecer a oportunidade de ter contato com ações de voluntariado, bem coordenadas e dirigidas, pode ajudar a desenvolver competências.

As empresas, em sua maioria, seguem as regras ditadas pelo mercado para identificar as competências que acreditam serem as essenciais para seu negócio e para o setor em que atuam. Essas competências precisam estar alinhadas também a suas crenças e a seus objetivos como empresa. Ela, portanto, identifica essas competências, define-as como essenciais e importantes e, depois, apresenta ao colaborador o que julga ser importante desenvolver.

Empresas por todo o mundo, anualmente, contratam grandes consultorias e equipes de desenvolvimento para realizar capacitações, palestras, cursos, etc. sempre de acordo com um plano que juntamente com o colaborador fora traçado. Em geral, depois que o colaborador faz os cursos e participa de encontros de formação, são realizadas pesquisas ou testes para saber como ocorreu seu desenvolvimento e se ele absorveu os novos conhecimentos que foram transmitidos.

Muitas empresas optam por fazer “team bulding” com seus colaboradores, que são ações de imersão que proporcionam uma experiência geralmente extrema, com o objetivo de desenvolver competências, em especial de liderança e de resistência diante a crises, de tomada de decisão, etc. Essa é com certeza uma ação que envolve investimentos enormes, e que infelizmente nem sempre produz o conhecimento desejado – as ações de team building podem ser um rafting em uma corredeira, travessia de um lago em um bote fabricado pelos próprios participantes, subir uma montanha, fazer uma caminhada, uma corrida, um rali etc.

O que o voluntariado apresenta são alternativas muito interessantes para desenvolver capacidades de gestão, entre outras, aos colaboradores. Evidentemente, que não se pode concluir que se trata de voluntariado puro e simples, em que a pessoa participa de forma compulsória, pois se trata de treinamento. O que se propõe é utilizar as características de ações de voluntariado, para adaptar a treinamentos. Um exemplo muito interessante é quanto ao team building. Algumas empresas, ao invés de levar seus funcionários para escalar uma montanha, podem optar por levá-los para uma organização social, onde recebem capacitação sobre a realidade social daquele local. Depois, são convidados a propor um grande projeto de melhoria do espaço físico dessa ONG. É uma oportunidade para essas pessoas ouvirem os participantes e os atendidos pela instituição, elaborar um projeto de melhoria, executar esse projeto, e capacitar os atendidos e funcionários da ONG, bem como a comunidade, para que consigam manter as melhorias que foram feitas. Às vezes, os “voluntários” participantes desse treinamento precisam inclusive desenvolver suas capacidades comerciais, para captar recursos para essa ONG.

O caso acima está relacionado diretamente a um desenvolvimento de competência planejado, claro e feito sob medida para grupos onde se identifica a necessidade de desenvolver certas habilidades, e se define usar o team building como ferramenta, com características de ação social de voluntariado.

Muitas empresas, ao elaborar um programa de voluntariado para seus colaboradores, já reconhecem que há um potencial de desenvolvimento de características e habilidades importantes entre os participantes, como capacidade de negociação, gestão de crise, criatividade, entre outras.

É importante que a área de responsabilidade social, ou mesmo de recursos humanos, não se perca na missão do programa de voluntariado, que em sua essência é gerar um valor social, de mobilização cidadã e participação por meio das ações de apoio a organizações sociais e grupos menos favorecidos. Não se pode focar prioritariamente o desenvolvimento das habilidades que foram mapeadas. O que se deve ter em mente é que o voluntariado é apenas um meio e não um fim, para conseguir o desenvolvimento das habilidades importantes no meio empresarial. Não se pode transferir para o voluntariado toda responsabilidade de capacitar e desenvolver os colaboradores de uma empresa, pensando que ele dará conta dessa ação, pois isso com certeza não acontecerá. O voluntariado é um parceiro importante, mas não é o responsável por desenvolvimento das habilidades exigidas pela empresa dos seus colaboradores.

O colaborador que participa das ações de voluntariado, de forma livre, certamente terá desenvolvido muitas habilidades, porém isso ocorre de forma natural. Se ele realiza a ação de voluntariado com alegria, se deseja fazer a ação de forma espontânea e o faz com interesse e compromisso, certamente tudo o que desenvolve nessas atividades terá muito mais sentido e importância, pois estará 100% focado e interessado não somente em aprender mas também em compartilhar e praticar o que está desenvolvendo. Como sua experiência passa por todos os sentidos do seu corpo, certamente as novas habilidades adquiridas ou desenvolvidas se fixarão muito mais e ganharão muito mais sentido.

É importante notar que o voluntário é uma pessoa altamente comprometida e interessada em assuntos ligados ao desenvolvimento humano, a corrigir desigualdades sociais importantes, a se doar em favor de outras pessoas, e a construir um mundo melhor para sua geração e para as gerações futuras. A pessoa dotada desse espírito generoso se torna um “ativo” muito importante para a empresa. Existem habilidades ou podemos dizer comportamentos que não se podem medir exatamente, que são intangíveis, tais como alegria, bom humor, fé (crença que as coisas vão melhorar), empatia e gratidão. Essas características, que podemos chamar de comportamentos, são muito desenvolvidas quando a pessoa pratica e vive o voluntariado. Todas as empresas reconhecem que ter pessoas com essas atitudes melhora muito o ambiente de trabalho, contagia outras pessoas, e resulta inclusive em uma maior produtividade. Pessoas mais felizes tornam o ambiente de trabalho um lugar feliz, que por sua vez transmite segurança e confiança de que mesmo diante de crises e dificuldades, elas podem ser vencidas ou se pode passar por elas com mais leveza.

Com certeza, as instituições empresariais que estão atentas para o voluntariado já estão provando como essa ferramenta poderosa pode ajudá-las a fazer do ambiente empresarial um local muito mais humano. Há noticias importantes de que, na atual crise que o Brasil está passando, algumas empresas têm recorrido ao voluntariado como o porto seguro da boa notícia. Não se trata de uma escora, mas de um lugar em que se pode praticar a solidariedade e onde as pessoas acreditam em dias melhores.

Em ambiente de grandes fusões, que tem se tornado cada vez mais comuns, muitas companhias também compreenderam que o voluntariado está no lugar da unanimidade, no lugar da paz, da mesa da compreensão, do entendimento, pois nesse lugar as pessoas não competem e não lutam por posições ou por opiniões, já que todas concordam que ajudar outras pessoas, unindo diferentes cabeças, e colocando do mesmo lado pessoas e até mesmo grandes áreas que estão vivendo conflitos.

A conclusão que podemos chegar é que o voluntariado precisa ocupar um lugar estratégico dentro das empresas. Ele precisa não de um lugar de destaque, mas estar no lugar comum do dia-a-dia da vida empresarial. O voluntariado não é somente uma ação isolada, pontual e sazonal, mas deve ser encarado como uma forma de vida, um comportamento que precisa ser adotado, pois só assim ele gera valor para a empresa, ele desenvolve as pessoas e ele traz reputação para a marca, para o produto, e principalmente para a empresa como um todo.

Não se pode recorrer ao voluntariado somente no momento das dificuldades, mas se ele existe na empresa como uma forma de responder aos anseios por ações sociais e de participação, no momento que ele for mais necessário, com certeza não se negará a atender e a atingir os objetivos que estiverem postos e os desafios que se apresentam, mesmo que sejam passageiros. O voluntariado é, enfim, a boa notícia que precisamos.

(*) Marcos Paulo dos Reis é Consultor em Gestão no Terceiro Setor. É formado em Gestão de Recursos Humanos com MBA em Gestão e Empreendedorismo Social pelo CEATS/FIA. Atuou como coordenador de Voluntariado do Grupo Telefônica/Vivo no Brasil. Possui consolidada vivência em planejamento estratégico e na gestão de equipes presenciais e à distância.







Veja também

0 comentários | Comente

 Digite seu comentário

*preenchimento obrigatório



Ninguém comentou essa notícia ainda... Seja o primeiro a comentar!

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e, ao continuar navegando, você concorda com estas condições.