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Cinema verde

Hortas urbanas como espaço de convívio

Por Paulo Lima, Especial para Plurale

De Pirenópolis (GO)

Apart Horta, filme de 2015 dirigido e roteirizado pela cineasta Cecília Engels (foto), mostra que pequenas mudanças de hábitos podem gerar grandes transformações. Menos pode ser mais. Iniciativas bem-sucedidas e compartilhadas podem dar início a uma revolução. Estruturado como ficção e documentário, o longa-metragem aborda o tema do cultivo alternativo de hortas em prédios de apartamentos, e tem como cenário a cidade de São Paulo.

É ali, em espaços exíguos, que se desenrola a ação. Num desses apartamentos, vive sozinho o baiano Natanel (Sidney Santiago). Ele está há oito anos na megalópole e se dedica totalmente ao trabalho. Um dia, Natanael recebe a irmã Nazaré (Ângela Corrêa), que visita São Paulo pela primeira vez. No convívio, ela observa o novo estilo de vida pouco saudável do irmão. Passa então a preparar-lhe as refeições, sobretudo o almoço, que ele carrega a contragosto para o escritório.

Sem contatos além do irmão e sem conhecer a cidade, Nazaré volta-se para atividades domésticas, principalmente para o cultivo de plantas na sacada do apartamento, aproveitando sua experiência da Bahia. O que poderia ser algo trivial se transforma num problema coletivo. O passatempo de Nazaré acaba por infringir as regras do condomínio. Depois de uma reunião de assembleia, a recém-chegada obtém a permissão para cultivar uma horta numa área comum sem utilização. Ela o faz com o apoio dos moradores, que se veem seduzidos pelo entusiasmo da visitante.

É neste ponto que se concentra a proposta do filme: tornar o simples cultivo de uma horta uma oportunidade para o convívio e os relacionamentos. Sua visão edificante poderia, aos olhares mais céticos, soar infactível, pois se passa numa selva de pedra condicionada pelo imediatismo, pela velocidade e pela cultura do fast food e dos restaurantes. Cecília Engels, no entanto, mesclou habilmente a narrativa ficcional com cenas documentais que mostram pessoas trabalhando suas pequenas hortas nos prédios em que habitam, seja por motivo terapêutico, seja por crença em novos valores. Essas situações reais materializam o que poderia, de certa forma, soar como um devaneio utópico e reforçam que o que se vê na ficção é possível. O filme traz também uma história de amor, acertada estratégia dramatúrgica que adiciona mais um tempero ao enredo.

Apart Horta é o primeiro longa de Cecília. Antes ela já havia produzido quatro curtas e um média metragem, um deles como trabalho de conclusão do curso de Cinema, em 2009, pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado). “É meu trabalho de mais fôlego, sou apaixonada por ficção”, disse, logo após a exibição do filme na abertura do 7º Slow Fest, o Festival Internacional de Cinema e Alimentação de Pirenópolis, realizado em setembro deste ano.

A preocupação de Cecília com a alimentação saudável, com o cultivo orgânico e com a forma como as comidas são produzidas serviu de inspiração para o filme. “De alguma maneira, essa temática circunda minha vida pessoal, uma boa alimentação realmente nos transforma”, explicou.

A exemplo de seus personagens, ela está ciente dos malefícios que advêm da indústria alimentar e da necessidade de se buscar um modo alternativo a essa indústria.

“Do jeito que está, a produção de alimentos, com tanto agrotóxico, é um veneno letal. No Brasil a gente enfrenta um problema mais sério, pois polui o lençol freático, prejudica a saúde das pessoas que estão envolvidas com o plantio. Na verdade, percebo que o planeta está dando todas as indicações de que se não tivermos uma consciência ambiental, seremos banidos. Banidos como? Cada vez com mais catástrofes naturais, até que a raça humana acabe”.

A mensagem de Apart Horta equilibra uma solução mais saudável mantendo, porém, o modus operandi dos conhecimentos existente.

“A gente não precisa voltar para a roça, não é isso, não é abandonar a tecnologia”, esclareceu Cecília. “Na verdade, é fazer a integração; quando a gente fala de cultivo de alimento na cidade é dizer isso: vamos ter conquistas importantes da modernidade junto com preocupações com o meio ambiente, que são fundamentais para que consigamos viver”.

De certo modo, o filme ecoa movimentos e percepções já existentes na capital paulista.

“Os habitantes de São Paulo estão sentindo que se a gente não ocupar a rua, as praças, os espaços verdes, vai ficar muito difícil sobreviver lá. É muito interessante pensar que o movimento de mexer com a terra religa as pessoas com elas mesmas, com as naturezas e também estabelecem contatos. Isso que acontece no filme de fazer uma horta é de olhar no olho de seu vizinho e fazer um convívio comunitário. A mensagem final é que existem essas ações que transformam nossas relações pessoais”.

A conquista de um prêmio no concurso Filma Brasil, promovido pela Ancine, possibilitou a realização do filme, que foi concluído em pouco tempo. A fase de pré-produção ocupou dois meses, e as filmagens foram concluídas em onze dias. Desde então, a obra tem sido exibida e discutida em diversos espaços e eventos no Brasil. Apart Horta é também, ele próprio, um exemplo de que se pode fazer muito a partir de uma ideia simples e inteligente.

Site do filme - http://www.aparthortafilme.com/

Facebook - https://m.facebook.com/aparthorta/







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