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PLURALE EM REVISTA - EDIÇÃO 63 - Instituto Ethos completa 20 anos com protagonismo na responsabilidade empresarial

Entrevista com Caio Magri

O sociólogo Caio Magri está à frente do “think tank”, que tem marcado presença nas principais temáticas ligadas à sustentabilidade e responsabilidade empresarial ao longo deste período, como diversidade, combate ao trabalho escravo, ética empresarial e combate à corrupção. Nesta entrevista exclusiva à Plurale em revista ele fala sobre os avanços e o que ainda está por vir

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale em revista

Foto de Divulgação/ Ethos

Muito antes do termo sustentabilidade empresarial se tornar uma “bandeira”, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Empresarial já estava militando nesta seara. Nomes como Oded Grajew, Ricardo Young, Jorge Abrahão e tantos outros ajudaram a “formar” este novo conceito. Só para citar um exemplo mais marcante, quando o escândalo da Lava-Jato ganhou as manchetes da imprensa, este já era um tema para lá de discutido nas rodas de diálogo do Ethos. Criado em 1998 por um grupo de empresários e executivos da iniciativa privada, o Instituto Ethos é um polo de organização de conhecimento, troca de experiências e desenvolvimento de ferramentas para auxiliar as empresas a analisar suas práticas de gestão e aprofundar seu compromisso com a responsabilidade social e o desenvolvimento sustentável

E, para quem ainda não conhece, não pense que se trata apenas de conversas e divagações. Há ações concretas e realizações ao longo destas duas décadas, dentre elas os Indicadores Ethos, que trazem métrica e resultados para o que antes parecia ser só um manual de boas intenções das empresas. Além de muita, mas muita inspiração também: como sustentabilidade é um processo em construção, o Ethos tem conseguido disseminar boas práticas, especialmente em seus eventos, como a Conferência Ethos, que será realizada em São Paulo agora, no fim de setembro (dias 25 e 26). Além de SP, a Conferência também chegou ao Rio de Janeiro e Belém.

À frente do Instituto Ethos, no cargo de Diretor-Presidente, está hoje o sociólogo Caio Magri, “cria” da casa, trabalhando na Oscip desde 2004, onde começou como assessor de Políticas Públicas. Em 2005, tornou-se gerente executivo de Políticas Públicas, em 2014, diretor executivo e em 2017, foi nomeado diretor-presidente do Instituto Ethos. Participa como membro dos conselhos do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da Transparência Pública e Combate à Corrupção-CGU, do Pró-Ética, do Comitê Brasileiro do Pacto Global (CPBG) e da Rede Nossa São Paulo, entre outros.

Graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), foi gerente de políticas públicas da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança, além de coordenador do Programa de Políticas Públicas para a Juventude da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto (SP).

Em 2003 integrou na assessoria especial do ex-presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, sob a coordenação de Oded Grajew. Confira a entrevista exclusiva para Plurale em revista.

Plurale em revista - Que balanço você faz dos 20 anos do Ethos?

Caio Magri – Vinte anos realmente é uma marca muito importante para qualquer organização da sociedade civil no Brasil, principalmente em virtude de todas as dificuldades que demandam estruturar e organizar uma instituição como o Ethos. A simples existência, nesses 20 anos, com relevância, por si só, já é um balanço muito positivo. Há 20 anos, o movimento de responsabilidade social e sustentabilidade estava engatinhando no Brasil. No período, houve um boom de criação de ONGs e institutos voltados para essas agendas, estimulados pelas experiências internacionais. O Ethos nasceu um pouco nesse contexto. Fazendo uma análise, hoje o cenário da responsabilidade social e da sustentabilidade no país é completamente diferente. Há 20 anos, poucas empresas tinham áreas, programas, processos, incorporados no seu negócio. As que possuíam eram basicamente multinacionais. Atualmente, o cenário é bem diferente. Observamos um ganho de escala, uma agenda que, caso a organização não possua, ela está em desvantagem competitiva. Sendo assim, a gente pode dizer que o Ethos teve grande contribuição nesse processo ao longo desses 20 anos.

Plurale em revista - Quais foram as principais contribuições/ações realizadas? Em que temáticas? Clima, diversidade, trabalho escravo etc. Quais destacaria?

Caio Magri - A história do Ethos, nos seus primeiros 10 anos, está fundamentada no desenvolvimento de práticas empresariais. Então, para isso, focávamos muito no desenvolvimento de ferramentas para ajudar as empresas a melhorarem suas práticas relacionadas à agenda da sustentabilidade. No entanto, 10 anos se passaram e percebemos que, para atingir nossa missão, isso não era suficiente pois, por mais que você transforme as empresas internamente, isso não é suficiente para transformar a sociedade. Não é suficiente porque as empresas estão presentes no contexto, na política, no ambiente, na comunidade. Nesse sentido, é preciso transformar a relação das empresas com a sociedade. Então o Ethos, depois de 2008, a partir de um planejamento estratégico, passou a ter um foco também em políticas públicas. Dessa forma, a história do Ethos nesses 20 anos focou, em sua primeira parte, mais especificamente nas práticas empresariais e, na sua segunda parte, mais nas políticas públicas. Em termos de principais realizações, vale ressaltar a criação do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que é reconhecido internacionalmente como uma das experiências mais bem-sucedidas a reunir poder público, empresas e sociedade para o combate ao trabalho escravo no mundo. A ação é reconhecida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Além disso, em termos de meio ambiente, o Ethos teve participação importante nas discussões na COP de Copenhagen e na COP de Paris sobre a precificação do carbono, entre outras iniciativas. A Conferência Ethos também é um marco. A gente conseguiu, ao longo desses 20 anos, realizar discussões de vanguarda sobre quais são as tendências desse grande guarda-chuva da sustentabilidade e da responsabilidade social no mundo e no país.

Plurale em revista - O Ethos – sempre na vanguarda – começou a falar de alguns temas, que na época nem se imaginava a relevância. Como a questão da governança/transparência e o pacote anticorrupção para empresas. Bem antes da Lava-Jato, já imaginavam que esse assunto tomaria a proporção que tomou? As empresas e governos perceberam a relevância da transparência e da governança. Esse é um caminho sem volta na sua avaliação?

Caio Magri - O Ethos abordou alguns temas numa época em que nem se avaliava sua importância. O trabalho escravo é um exemplo. Há alguns anos, quando se falava em trabalho escravo, as empresas se levantavam e iam embora. Hoje é bem diferente. O Ethos tem a posição de provocar, de propor: “Por que não pode ser feito isso, ou de outra forma, ou abordar de modo diferente?”. Outro tema de que tratamos desde a fundação da entidade é o combate à corrupção. A raiz do Ethos é a mesma da palavra “ética”, e a ética está em nossos princípios. Trata-se de um tema que trouxemos para as empresas. De forma mais direta, isso vem se dando desde 2005, com a criação do Pacto pela Integridade, no qual a gente coloca não só o compromisso público, mas também ferramentas que ajudem as empresas a melhorarem suas práticas internas. Atualmente, devido aos recentes escândalos, nunca as empresas estiveram tão engajadas nesse tema e, não só porque as empresas têm melhores políticas, mas também porque as instituições estão funcionando melhor em comparação a 20 anos atrás. Existem órgãos de controle trabalhando, órgãos de fiscalização, ferramentas de tecnologia etc. Tudo isso colabora para o que a gente tem hoje, é um passo necessário e importante para qualquer sociedade que quer lutar contra uma questão como essa, sistêmica e estrutural.

Plurale em revista - Questões como diversidade racial e gênero também estão sendo muito enfrentadas/debatidas no Ethos. Você considera que ainda há muito o que avançar no Brasil?

Caio Magri - Temos o Perfil, que é a principal fonte de informação no setor privado no que se refere a diversidade desde 2003 e que mostra um avanço, mas a passos lentos e muito tímido em relação ao assunto no mundo corporativo. Sim, o Brasil tem muito a avançar. Se olharmos para a sociedade brasileira e para as pessoas empregadas nas melhores empresas, precisaremos de 150 anos para ter a mesma distribuição racial e de gênero, se continuarmos no ritmo em que estamos. A pergunta que fazemos às empresas é: “Por que é tão lento, quais são as principais barreiras e o que é preciso para acelerar?”. É isso que a gente provoca no Ethos, é isso que a gente espera que avance nos próximos anos, até porque, em relação ao assunto da integridade, mais e mais, as empresas estão dedicando investimento à promoção da integridade. O lançamento do Guia de Diversidade Exame, sem dúvida, é mais um instrumento para as empresas desenvolverem suas práticas e políticas.

Plurale em revista - Os fundadores do Ethos tiveram um papel decisivo. A maioria agora no Conselho. Jovens assumindo a liderança. Essa rotatividade/mescla é ótima. Que resultados positivos dessa mescla poderia citar?

Caio Magri - Uma particularidade que permitiu essa mescla é que os fundadores sempre quiseram continuar sendo "guardiões" do Ethos. Alguns participam do Conselho, outros participam da Assembleia Geral, sempre voluntariamente e ajudando a discutir as questões da sociedade e do Ethos. Antes da minha gestão, somente conselheiros foram presidentes. A gente teve o Oded Grajew, o Ricardo Young e o Jorge Abrahão. Os três foram conselheiros e fundadores. Entendemos como renovação, uma "passada de bastão" dos fundadores. Uma marca do Ethos nesses 20 anos é que a instituição construiu uma rede de parceiros muito interessante. Com qualquer um com que falemos ou atuemos, sempre há parceiros a nos apoiar ou dar suporte. Isso é muito valioso. Nunca fazemos nada sozinhos. A gente sempre atua com uma rede que hoje calculamos de 120 organizações parceiras de diferentes setores da sociedade. Isso é um ativo muito rico. Somos um espaço onde esses parceiros propõem. Trata-se de ser um espaço de diálogo, conexão e mobilização onde as empresas associadas atuam.

Plurale em revista - A conferência Ethos é um dos principais fóruns de RSE. Um diálogo relevante sobre essa temática. Quais serão as novidades/expectativas para a Conferência Especial 20 anos de 2018?

Caio Magri - O foco é fazer uma reflexão sobre os 20 anos do Ethos, o que mudou no país, no setor privado, nas agendas onde trabalhamos. Além disso, as oportunidades a serem exploradas nos próximos 20 anos. Eu sempre penso na conexão com a nova economia, a economia de startups, de que forma essas novas empresas podem incorporar as agendas que o Ethos trabalha. Por mais que elas tenham um DNA diferente e soluções para problemas cotidianos, nem sempre têm os temas com os quais atuamos em suas agendas. Isso é um desafio. Na conferência, também vamos, nesse processo de refletir os 20 anos e olhar para frente, trazer pessoas que contribuíram e que contribuem para o Ethos: parceiros, pessoas, associados. Há muitas histórias que a gente quer contar na conferência e queremos estimular que as outras pessoas façam o mesmo.







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