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PLURALE EM REVISTA - EDIÇÃO 64 - Observação de pássaros e desenvolvimento local no Sul da Bahia

Veracel, gigante na fabricação de celulose, quer desmistificar a produção de eucalipto com modelo mosaico, misturando plantio com a preservação de Mata Atlântica nativa. Em breve ainda transformará a RPPN Estação Veracel, que está completando 20 anos, em um centro de pesquisa e difusão científica com a implantação de um Observatório de Aves, a ser gerido em parceria com o Observatório de Aves do Instituto Butantan de São Paulo. A observação de pássaros poderá ser uma alternativa para atrair novos turistas e gerar renda para população local

Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

Fotos de Luciana Tancredo, de Plurale

De Eunápolis e Porto Seguro (BA)

Quando Pero Vaz de Caminha relatou, em detalhada carta endereçada aos Reis de Portugal, a nova terra descoberta, procurou traduzir em palavras e emoções o que por aqui encontraram, em 1500, o Capitão Pedro Álvares de Cabral e seus comandados. Fala em homens nus – “sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas” -, na beleza natural da região e também destaca que os indígenas se alimentavam de inhame, frutas e palmitos, uma vez que não havia animais domésticos, como galinhas ou cabras.

Como ensinam os livros de História, primeiramente chamada de Ilha de Santa Cruz, o batismo foi corrigido para Terra de Santa Cruz. Na região onde hoje é Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália estão as raízes deste Brasil continental. O turismo é relevante fonte de geração de renda por estes lados que tem sofrido ao longo dos anos com a especulação imobiliária, com as mazelas de centros urbanos e com a falta de empregos para seus habitantes.

Mas o turismo não é a única alternativa econômica. Outra atividade chama a atenção de quem sobrevoa a região antes do avião pousar no Aeroporto de Porto Seguro: o plantio de eucaliptos para produzir celulose e também a produção agrícola e pecuária. Do alto, as árvores formam uma espécie de tapete verde, entremeado por pastos, rios, Mata Atlântica nativa e outras culturas.

Com poucas indústrias na região, a grande fábrica da Veracel, Celulose fincada no município de Eunápolis (vizinho de Porto Seguro) quer ser reconhecida como um case na busca por conjugar produção com sustentabilidade, em busca de desenvolvimento local. Produz 1,1 milhão de toneladas de celulose branqueada de eucalipto por ano, toda destinada a seus acionistas, a maior parte destinada à exportação. São 756 funcionários próprios e cerca de 2,5 mil terceirizados. Em 2017, o grupo pagou R$ 105,814 milhões em tributos totais, sendo R$ 16,456 milhões destinados aos municípios de atuação.

Não foram poucos os desafios e questionamentos que esta companhia – controlada meio a meio pela suecofilandesa Stora-Enso e brasileiros da Fibria - precisou enfrentar desde que fincou raízes em região tão emblemática, onde nasceu o Brasil, em 1991. Ao longo dos anos foi preciso justificar - com dados e explicações - porque estavam plantando uma espécie exótica em terras tão emblemáticas. Ambientalistas e lideranças locais questionaram vários pontos: se houve desmatamento de matas nativas; expulsão de povos indígenas e comunidades tradicionais; uso intensivo de agrotóxicos; se as plantações de eucalipto secaram a água natural da região e provocaram a desertificação do solo. Os representantes da Veracel acreditam que seguiram todos os padrões legais e que esta fase do que chamam de “mitos” ficou para trás.

“A Veracel começou as suas atividades em 1991 com o plantio e o início das atividades da fábrica foi em 2005. Nunca desmatamos. Pelo contrário, protegemos matas nativas. Eram terras que já tinham sofrido forte interferência desde a chegada da BR 101 nos anos 70 e de outras atividades econômicas. Compramos terras e plantamos em mosaicos, formando corredores ecológicos. Geramos empregos e riqueza na região. A Veracel passou a fazer parte da solução”, assegurou o jovem Andreas Birmoser, CEO da companhia, que trabalhou em escritórios no exterior, mas se orgulha de estar no “coração” da história verde-e-amarela com a sua família. Andreas recepcionou grupo de 15 jornalistas especializados em Meio Ambiente e Papel e Celulose convidados a conhecer o modelo de produção e desenvolvimento local da Veracel no Sul da Bahia.

Andreas Birmoser, CEO da Veracel Celulose - “Nunca desmatamos. Pelo contrário, protegemos matas nativas. Geramos empregos e riqueza na região. A Veracel passou a fazer parte da solução.”

Os executivos imaginavam, claro, que seriam questionados pelos visitantes, mas não imaginavam que passariam por uma verdadeira “sabatina”. O Diretor de Sustentabilidade da Veracel, Renato Carneiro, afirmou que as técnicas empregadas “visam gerar o menor impacto ambiental possível, como o cultivo mínimo do solo” e uso consciente de agrotóxicos. E que para cada hectare de plantio comercial a Veracel mantém um hectare de área protegida ambientalmente. O modelo adotado, do plantio em mosaico, como o próprio nome indica, mistura o plantio comercial e a preservação de áreas protegidas, preservadas nos vales e encostas, enquanto o eucalipto ocupa os platôs. A área total da Veracel é de 190.376 hectares: a área de escopo de plantio certificado (Relatório FSC 2018) é de 87.263 hectares e a área de preservação de 96.401 hectares.

Renato Carneiro, Diretor de Sustentabilidade da Veracel: “As técnicas empregadas visam gerar o menor impacto ambiental possível, como o cultivo mínimo do solo.”

Um sobrevoo de helicóptero ajuda a entender melhor o que os executivos mostram em apresentações de powerpoint. Os eucaliptos verdes mais claros ocupam principalmente as áreas planas e, logo junto, vizinhos, especialmente nas encostas, há Mata Atlântica preservada, em tom de verde bem escuro e produção de culturas locais, como café e mamão. Também se sobressaem quatro Reservas da região: o Parque Nacional do Pau-Brasil e a Reserva Natural do Patrimônio Natural Estação Veracel, a RPPN Rio do Brasil e o Refúgio de Vida Silvestre do Rio dos Frades.

Os porta-vozes frisam que a empresa obedece à todas as regras e, em alguns casos vai além. Como o limite de 20% de ocupação de municípios do interior e de 15% para municípios costeiro e que também não faz plantios na faixa de 10 quilômetros do litoral, preservando a paisagem da Costa do Descobrimento dedicada ao turismo. Outra medida importante para gestão ambiental, segundo a Veracel, são os sistemáticos monitoramentos do solo, água e clima que garantem a adequação das operações.

Mas o eucalipto – espécie exótica - não enfraquece e resseca o solo, afetando a flora e fauna, especialmente afastando aves e mamíferos? Renato Carneiro garantiu que não, citando que este é mais um mito sobre a produção de eucalipto, reforçando que a produção de madeira e florestal é feita em equilíbrio com o meio ambiente regional. “Temos feito monitoramento com relação a aves e também mamíferos – mostrando que ao longo destes últimos anos esta população vem crescendo e está em um nível de preservação bastante bom. A fauna utiliza comprovadamente os maciços florestais plantados como área de circulação e passagem para os fragmentos nativos.”

Ari da Silva Medeiros, Diretor Industrial, mostra monitoramento 24 horas de todas as atividades da fábrica e também da água e biodiversidade próxima do Rio Jequitinhonha

Outros questionamentos em relação ao plantio de eucalipto e produção de celulose são o uso da água da região, o descarte de resíduos sólidos da fábrica e ainda a utilização de fertilizantes, agrotóxicos e corretivos para a acidez do solo. O Diretor Industrial da Veracel, Ari da Silva Medeiros, destacou que “cerca de 98% de resíduos sólidos industriais são reciclados ou reutilizados” e que a queima de licor negro e biomassa geram 100% da energia necessária para a operação da fábrica, ainda disponibilizando excedente para o Sistema Brasileiro de Distribuição de Energia. E mostra o monitoramento ambiental do Rio Jequitinhonha, que acompanha a qualidade da água, flora e fauna aquática. “Isso começou antes mesmo da construção da fábrica”, disse, lembrando que, como garantia de qualidade do tratamento de efluentes, a água necessária ao processo produtivo é captada abaixo do ponto de devolução da água ao rio. Os executivos frisaram ainda que mais de 74% dos insumos agrícolas aplicados no plantio (fertilizantes e corretivos para acidez do solo) são provenientes de materiais reciclados do processo produtivo.

Executivos da Veracel destacam que a região no Sul da Bahia tem excelente condição climática para o plantio de eucalipto e o processo produtivo ganha competitividade pela proximidade do local de escoamento, o Terminal Marítimo de Belmonte até o Porto no Espírito Santo – Portocel – especializado na exportação de celulose.

Passarinhando: incremento para novo turismo local

Bem próxima das áreas de plantio está uma verdadeira “joia da coroa”: a Reserva Particular do Patrimônio Natural Estação Veracel, área particular de 6 mil hectares, mantida pela empresa, com status de RPPN, que está completando 20 anos. As apostas são que a atividade de observação de pássaros possa ajudar no processo de desenvolvimento sustentável local, atraindo novos turistas aficionados por este hobby, para conhecer espécies típicas. A Mata Atlântica desta região é o abrigo de mais de 300 aves, algumas delas bem raras e outras endêmicas, ou seja, ocorrem somente na região.

O local está em vias de se tornar um centro de pesquisa e difusão científica com a implantação de um Observatório de Aves, que será gerido em parceria com o Observatório de Aves do Instituto Butantan de São Paulo. “Isso simboliza mais um passo em direção ao nosso compromisso com a construção de uma plataforma de diálogo e pesquisa”, disse Renato Carneiro, diretor de Sustentabilidade e Relações Corporativas da Veracel.

A área – que se estende pelos municípios de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália - foi reconhecida pela Unesco como patrimônio da humanidade. Abriga importantes pesquisas sobre o bioma Mata Atlântica e desenvolve um programa de educação ambiental que atinge comunidades rurais e indígenas vizinhas. Especialistas em Mata Atlântica estão sempre visitando a RPPN para suas pesquisas. Além disso, as trilhas dentro da mata são um atrativo especial para visitação. Em 2018, a Estação Veracel deu início a um programa para observação de aves, o que deve contribuir mais ainda para o ecoturismo na região.

Confirmamos de perto este potencial turístico. Em cerca de duas horas de caminhada fizemos a trilha do Pau-Brasil, a mais adaptada aos turistas, com uma ponte pênsil no meio do caminho, em verdadeiro estilo “Indiana Jones” e a visitação de centenárias e incríveis árvores típicas da região, como a gindiba branca (ou samaúma), imbiruçu, e o pequi preto. As monitoras ambientais da Estação Veracel acompanham o grupo todo o tempo, explicando as características de cada árvore e mostrando os detalhes da biodiversidade que só aparecem nesta região. Pegadas de animais – como antas - não deixam dúvidas que a mata preservada é abrigo para diferentes espécies. Até mesmo uma onça já foi registrada na região por câmeras escondidas.

Mas são os pássaros, sem dúvida, que rendem o melhor “espetáculo” para os visitantes. Como o crejoá (Cotinga Maculata), espécie em extinção: de acordo com pesquisa do ornitólogo Fernado Igor de Godoy, biólogo da Casa Floresta Ambiental de Piracicaba, desenvolvida na RPPN Estação Veracel, o crejoá possui uma dieta composta principalmente de frutos e, algumas vezes, de insetos. Se alimenta sempre pousado e pode permanecer imóvel por até 40 minutos após as refeições, enquanto regurgita e espalha as sementes. Este processo normalmente acontece em uma região sombreada, abaixo da copa das árvores, o que facilita sua camuflagem na natureza. Mas há também beija-flores, papagaios, araras, juruvas (Baryphthengus ruficapillus), choca-de-soretama (Thamnophilus ambiguus), cabeça-encarnada (Ceratopipra rubroapilla), etc.

A bióloga Virgínia Londe de Camargos, gestora da RPPN Estação Veracel, acredita que a observação de pássaros pode trazer par a região turistas especializados neste “hobby” e ainda gerar renda para população local.

Se Pero Vaz de Caminha relatou aos reis a esperança de ter ouro na Terra de Santa Cruz, não poderia imaginar que mais de 500 anos depois poderia estar na natureza a riqueza para esta gente tão necessitada de oportunidades. “Esta pode ser uma fonte de renda alternativa para moradores da região que podem ajudar na conservação ambiental. Os caçadores podem aposentar a espingarda e armadilhas para passarem a ser guias, com câmeras e binóculos”, espera a gestora da RPPN, a bióloga Virgínia Londe de Camargos. Apesar de todo o monitoramento, de vez em quando são encontradas armadilhas e indícios de caçadores. Muitos por falta de opção e em busca de alguma caça para amenizar a fome.

Virgínia acredita que ninguém melhor do que os moradores do entorno – bem treinados – para ajudar a guiar os turistas: o treinamento começou. “Os locais ainda não entendem o valor desta atividade apenas de observação de pássaros. Os jovens não enxergam opções para o futuro. Estamos nesta fase de educar e mostrar como esta região é privilegiada pela natureza”, contou Débora Jorge, Coordenadora de Comunicação da Veracel. Potencial turístico não falta, desde setembro de 2017 até agora, a Estação Veracel recebeu 700 visitantes. Para 2019 está prevista a construção de uma torre de observação, para facilitar a atividade dentro da Reserva. E a expectativa é que a visitação aumente com a construção de uma torre para observação dos pássaros. Depois de Paraty e Ubatuba, Porto Seguro pode entrar para a lista de lugares atrativos para a atividade de observação de pássaros, ou birdwatching, como dizem os estrangeiros, os principais aficionados pelo “hobby”. Além da Estação Veracel, outras três Reservas protegidas próximas ajudam a formar atração para o Ecoturismo na Rota do Desenvolvimento.

Para ajudar os visitantes, foi lançado o livro “Observação de aves na Costa do Descobrimento”, organizado pela Conservação Internacional, que pode ser baixado gratuitamente. O livro mostra que existem algo em torno de 100 milhões de adeptos do “passarinhar”, termo usado para a contemplação das aves na natureza, com o Brasil se destacando como o segundo maior habitat de pássaros do mundo, com mais de 1 mil espécies, perdendo apenas para a Colômbia. Aficionados como a jornalista Cristina Rappa, uma aficionada por “passarinhar”. “Adoro o prazer de estar na natureza, em silêncio, ouvindo os pássaros, buscando o melhor ângulo para avistar e fotografar as aves. Esta Reserva vale ser visitada”, disse, com a experiência de quem conhece bem diferentes biomas, como Amazônia, Pantanal, Cerrado e Semiárido. Acabou juntando as duas paixões – escrever e o avistamento de pássaros. Lançou alguns livros para crianças sobre pássaros, o mais recente sobre o Soldadinho do Araripe, da Caatinga (Florada Editorial), com lindas ilustrações de Maurício Veneza.

Filhote gigante: grupo de pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica comprovou a presença de dois ninhos de harpia dentro da reserva. São dois casais, cada um com um filhote. Luciana Tancredo, de Plurale, conseguiu registrar um dos filhotes no ninho.

Harpias são destaque na Estação Veracel

Tem uma expressão muito usada por baianos – pense– válida para diferentes situações. É quase como uma vírgula ou uma pausa. Pois então, pense em um filhote de pássaro. Pensou? Neste caso, porém, não se trata de um pequeno filhotinho que cabe em uma mão. Estamos falando do filhote de gavião Harpia, imenso, soberano e majestoso, no topo da cadeia alimentar, se alimentando de macacos, preguiças e répteis menores. A harpia é a maior ave de rapina do Brasil: quando adulta, do bico à cauda mede quase um metro e, quando suas asas estão abertas, a distância entre suas pontas pode chegar a dois metros. Grupo de pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica comprovou a existência na RPPN Estação Veracel de dois casais de harpias, cada um com um filhote.

Também conhecida como gavião real, a harpia é uma espécie vulnerável de risco de extinção e muito rara na região da Mata Atlântica. “A descoberta desses dois ninhos tem um enorme significado porque é o resultado de todo um trabalho de preservação feito ao longo de quase 20 anos da Estação Veracel. Evidencia que o trabalho de conservação da Mata Atlântica na área de nossa atuação, inclusive com processos de restauração florestais, propiciam a criação de corredores ecológicos e a viabilização de fluxo de animais entre os fragmentos que antes estavam isolados”, disse a gestora da RPPN Estação Veracel, Virgínia Camargos, lembrando que a harpia precisa de uma área de 50 quilômetros quadrados para viver em florestas tropicais.

Em sobrevoo de helicóptero, com as coordenadas exatas, foi possível registrar um destes filhotes em seu ninho, protegido à uma altura de cerca de 40 a 50 metros. “Não foi fácil registrar. As árvores se assemelham, formando uma espécie de tapete verde e prateado. Mas, lá no alto, bem ao longe, avistamos o ninho com o filhote”, comemorou Luciana Tancredo, Editora de Fotografia de Plurale em revista. O sobrevoo foi rápido e bem de longe para evitar estresse para a harpia. A foto foi feita com uma lente objetiva para conseguir registrar de tão longe: a foto da capa desta edição foi editada com zoom

O Projeto Harpia na Mata Atlântica, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Amazônica (INPA), em parceria com a Estação Veracel, já reabilitou três harpias, devolvidas à natureza. Após a solturas, as aves passaram a ser monitoradas por telemetria de satélite. Os filhotes serão também monitorados por câmeras fotográficas e as penas coletadas no solo, embaixo dos ninhos, para que possam ser identificados pela genética o parentesco entre os casais e filhotes.

Também uma onça pintada foi registrada na Reserva em março de 2017, quase 20 anos sem registro anterior. Foram instaladas 52 câmeras trap, que ficam escondidas e só são acionadas pelo animal, investimento de R$ 560 mil. Em uma das imagens a onça parece estar quase “pousando” para a câmera.

Cria da região, Jailson Souza , 47 anos, conhece bem a Costa do Descobrimento. Já fez de tudo um pouco: trabalhou em fazendas, foi mateiro no Parque Natural do Pau-Brasil e tornou-se brigadista. Trabalha há 11 anos na Estação Veracel, com foco especialmente no Projeto Harpia. Encontrou-se mesmo como fotógrafo de pássaros. São fotos suas, lindas, coloridas, que enfeitam a casa de recepção dos visitantes na Reserva. “Amo a natureza e os pássaros. Aqui me deram oportunidades e adquiri conhecimento”, relatou Jaílson. Com a sua experiência, tem sido possível monitorar as harpias que vivem na Estação Veracel e catalogar muitos dos pássaros registrados na RPPN.

Os biólogos e ornitólogos Tati Pongiluppi e Caio Brito: unidos pelo amor aos pássaros, rodam o país para mapear espécies mais ameaçadas e praticando Educação Ambiental para estudantes.

Jovem casal viaja o Brasil na rota dos pássaros

No lugar de laptop, terno, gravata, roupas de escritório, estão binóculos, lunetas possantes e um aparelho que emite sons como o piar dos pássaros. Estes são os instrumentos de trabalho dos biólogos ornitólogos Caio Bezerra Mattos de Brito, 29 anos e Tati Pongiluppi, 34 anos. Os dois são guias de observação de aves e rodaram o Brasil de norte a Sul por cerca de 10 mil quilômetros de moto visitando escolas, tentando despertar em moradores e, especialmente, nas crianças o amor pelos pássaros.

“Não trocamos a nossa vida no campo por nada”, assegurou a simpática Tati. Os dois acreditam que os pássaros são incríveis instrumentos de educação ambiental. “Pássaro é bom para falar de tudo: educação, pertencimento, saúde mental, etc”, destacou Caio, que primeiro fez uma viagem sozinho, saindo do Ceará para o Sudeste, de moto, para ajudar a mapear pássaros ameaçados de extinção. Escreveu um livro, como um diário de bordo – “Um caderno e uma moto- Narrativas de uma viagem”. Em Ubatuba, encontrou-se comTati e a paixão em comum pelas aves desdobrou-se não só em novo projeto, mas também na vida a dois.

Juntos, então, lançaram a Expedição Tesouros do Brasil, preocupados com a situação alarmante de diversos pássaros ameaçados de extinção no Brasil, especialmente por conta da perda de habitat. Passaram, então, a seguir para campo e coletar informações científicas sobre 10 espécies de aves ameaçadas, sobre o estado de conservação do ambiente nos quais vivem e com a missão também de inspirar o público, e as crianças a se reconectar com a natureza. Na RPPN Estação Veracel estudaram e observaram a harpia ou gavião real.

A estadia do casal no local acabou rendendo ainda o Mapa das Aves da RPPN Estação Veracel, material educativo cujo objetivo é despertar o interesse da população local pela natureza e o maravilhoso mundo das aves. Oito escolas municipais estão próximas da área protegida. É como se as crianças tivessem uma floresta para estudar ao vivo o que os livros ensinam. Os alunos aprendem, por exemplo, que algumas aves são conhecidas como verdadeiros indicadores de qualidade ambiental. Enquanto no Centro de Porto Seguro há pombos e pardais, na Estação Veracel é possível encontrar aves que dependem de florestas, como a saíra-pérola e a tiriba-grande. “As florestas, com toda sua complexidade de plantas, insetor, fundos, microrganismos e diversos tipos de animais, formam um ambiente propício para o ciclo da vida”, explica Tati, lembrando que frutos encontrados apenas nas florestas servem de alimentos para as aves. “Com o desmatamento, esse ambiente deixa de existir, acabando com o ciclo da vida de muitos animais que vivem na floresta”. Melhor aula não poderia haver.

Do plantio à fábrica

Do plantio à fabricação, impressiona o alto padrão do processo produtivo da Veracel. Máquinas de última geração cortam os eucaliptos em campo e outras tiram folhas e empilham os troncos em grandes pilhas para serem recolhidos até a fábrica. Não é só: laboratório e especialistas procuram garantir a melhor “colheita”, selecionando as mudas e espécies que serão utilizadas. Em média, as árvores levam em torno de sete anos até crescerem e serem cortadas. Após um descanso, a mesma terra é reaproveitada para novo plantio.

Especialistas explicam que a produção de muda leva em consideração vários fatores. É feita uma melhoria genética e seleção de clones com melhor resiliência às mudanças futuras de chuvas e água, lembrando que a região sofreu com forte seca em 2015 e 2016. O plantio das mudas fica a cargo principalmente de mulheres, moradoras do entorno de Eunápolis. Gente simples como Elieudes dos Santos, 29 anos, que antes trabalhava na colheita de café e há dois está nesta função. “Gosto de lidar com a terra”, conta. Tudo é catalogado, monitorado e acompanhado por funcionários e equipamentos de ponta.

“Temos aqui o que há de mais moderno na produção de celulose”, disse o Diretor Industrial, Ari da Silva Medeiros, apresentando o “coração” da usina, uma sala com três painéis de controle, que se assemelha com as de grandes usinas hidrelétricas. Ele destacou também o lado sustentável, uma vez que nada se perde: o que sobra dos cavacos de madeira – utilizadas para a produção da celulose – se transformam em biomassa para alimentar as caldeiras.

Na fábrica, as toras de eucalipto são transformadas em cavacos – pequenas lascas de madeiras – e depois, na linha da produção, passam por vários processos até que a placa de celulose esteja finalizada para embarque. Uma destas etapas é quando o material é cozido em digestor, com produtos químicos alcalinos, como em uma grande panela de pressão, “temperando”, feito uma “feijoada”. A etapa seguinte é o branqueamento: o papel marrom ficará branco como neve. Máquinas imensas depois “esticam” e “moldam” a celulose que será finalizada em placas grossas de material bem branco. Depois de secar e serem embalados como fardos de celulose, o produto segue por caminhões especiais até o Terminal de Belmonte, de onde é embarcado em barcaças até o Portocel, no Espírito Santo, o único porto da América Latina especializado no manuseio de celulose. Segundo os porta-vozes da Veracel, a cabotagem é uma alternativa ambientalmente correta, pois cada viagem realizada por uma barcaça elimina cerca de 380 viagens de carretas, o que significa menos veículos nas estradas e, consequentemente, menos emissão de CO2.

Além da boa madeira, de técnicas e máquinas modernas há um diferencial que os dirigentes acreditam fazer diferença: a qualidade dos funcionários, a maioria de locais. Como Cícero José de Oliveira Santana, 37 anos, há 14 na Veracel. “Aqui foi o meu primeiro emprego. É a realização de um sonho”, orgulha-se o hoje operador de painel, que passou por várias etapas de produção e hoje estuda Engenharia de Produção.

Quem também entrou para a Veracel jovem foi a estudante de Administração Andressa Campos Freitas, 21 anos, também moradora da região. “Não há muitas oportunidades de emprego por aqui. Tive sorte”, comemora a moça que trabalha na área de apoio a Visitantes.

Setor de celulose brasileiro é líder mundial e vive fase de mudanças no controle acionário

O Brasil é hoje um dos principais players no competitivo mercado de celulose no mundo. E não é só em celulose: as florestas plantadas também produzem para fins industriais, como a produção de madeiras, pisos laminados e papel. A Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) - associação que reúne a cadeia produtiva de árvores plantadas, do campo à indústria, junto aos seus principais públicos de interesse - prevê investimentos de R$ 24 bilhões entre 2017 e 2020 pelas empresas dos segmentos de celulose, papel e painéis de madeira. Os investimentos serão em ampliação de capacidade, modernização das linhas de produção, manejo florestal, pesquisa e desenvolvimento e mecanização da silvicultura.

O país possui 7,84 milhões de hectares plantados de eucalipto, pinus e demais espécies para a produção de painéis de madeira, pisos laminados, celulose, papel, produção energética e biomassa. Ainda de acordo com a Ibá, as árvores plantadas são responsáveis por 91% de toda a madeira produzida para fins industriais no País − os demais 9% vêm de florestas naturais legalmente manejadas.

Analistas da área de papel e celulose aguardam ansiosos os desdobramentos da anunciada aquisição da Fibria pela Suzano, em março de 2018. Os acionistas da Fibria receberão um total de cerca de R$ 29 bilhões e 255 milhões de novas ações da Suzano Papel e Celulose como parte do acordo de fusão. Ao somar a capacidade da Fibria (7,2 milhões de tonelada/ano) com a da Suzano (3,7 milhões ton/ano), a nova Suzano será dona de 16% da capacidade de produção mundial de celulose.

No caso do desdobramento para a Veracel, que manterá a metade do controle da suecofilandesa Stora-Enso, não será a primeira mudança: antes, a participação da Aracruz passou para a Fibria. Analistas acreditam que com a mudança de controle acionário talvez possa vir a sair do papel a expansão da fábrica, projeto conhecido como Veracel 2, especulado há muitos anos. Atualmente, a Veracel opera na capacidade máxima. Este processo de fusão das duas maiores produtoras de celulose do mundo está passando por avaliação de órgãos antitruste de diversos países.

(*) A equipe de Plurale viajou, em grupo de jornalistas, a convite da Veracel.





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